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La insignia
18 de fevereiro de 2005


Você queria ser filho de Orson Welles?


Millôr Fernandes
La Insignia. Brasil, fevereiro de 2005.


Antigamente, pra ser um grande escritor, era preciso, pelo menos, saber escrever. Hoje basta ser adotado.

Fico sempre fascinado com esses programas de televisão em que cientistas entram na intimidade dos animais, mostram detalhes da vida dos caras e explicam minuciosamente como eles agem, comem, amam, vivem. Eu não entenderia o comportamento de uma família de esquilos nem que eles viessem me explicar pessoalmente.

Quem sabe escrever biografia são os anglo-saxões. Ao contrário de outras - no Brasil toda biografia é panegírica, puxa-saco, temerosa de sensibilidades familiares e de retaliações por parte de amigos do biografado - a biografia anglo-saxã quer que a família se lasque e faz ataques frontais aos biografados. Rosebud, de David Thompson (Knopf, 463 pgs), fanático por Orson Welles, poderia facilmente ter sido escrito por um inimigo.

Com uma técnica razoavelmente inovadora - fazendo inserções curiosas no meio do texto, como o diálogo abaixo, sobre a estadia de Welles em Dublim, Irlanda, onde Wells estreou com a mesma índole (e conseqüências) que conservou através da vida - mistura de fraude, truculência e gênio.

Seduzindo (nem sempre sexualmente, mas também) homens e mulheres. O diálogo, fantasioso, é (parece ser) entre o autor e seu editor, e pretende fazer revelações que não fiquem sujeitas a processo:

"- Deus do céu, você tem que ir. Imagina o que pode descobrir.

- Mas pensa nos meses em que tenho que ficar lá - ás suas custas, caro senhor - pesquisando aquelas paisagens encharcadas e entrevistando velhinhos de sessenta anos, ansiosos por entrarem no papel de filho do amor extra-conjugal de Orson Welles.

- De qualquer maneira é uma chance de ouro que não se pode desprezar. Quer dizer, imagine uma bisneta - uma meninona de sete ou oito anos, cheia de magia e seducão, com cabelo vermelho e olhos chineses, como ele.

- Fico fascinando com essa possibilidade. E uma vez que você está também tão interessado, vou lhe dar uma informação preciosa - um jóia.

- Diz.

- Quem você acha que nasceu exatamente ali, em Connemara, em agosto de 1932?

- Não faço a mínima.

- Imagine então - imagine! - o que seria um fruto do nosso Orson e alguma garota alta, fresca, maravilhosa, daquelas bandas.

- Existe?

- Peter O´Toole. Que é que você acha?

- Meu Deus! Isso é assombroso. Mas, pensando bem, ele é...

- Wellesiano? É isso?

- Você também acha?

- Dá pra perceber.

- Qualquer um percebe.

- Mas nunca poderíamos afirmar isso.

- Ah, não! Nunca! Nunca! Os advogados!

- Percebe então o perigo de ir mais fundo?"

Entenderam amigos? Eu completo. Peter O´Toole seria filho de Welles. As datas batem. Welles estreou em Dublim com 16 anos. E é 17 anos mais velho do que O´Toole.



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