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La insignia
9 de dezembro de 2003


A cultura da liberdade


Helena Vasconcelos
Storm. Portugal, dezembro de 2003.


Nasceu em Arequipa (Peru) a 28 de Março de 1936. A sua trajectória é impressionante: jornalista, escritor, político - fundou o Movimento Libertad e foi candidato (derrotado) à Presidência do Peru em 1990 - crítico literário, professor. Ao longo da vida tem acumulado prémios, troféus, honrarias. Aos sessenta e sete anos, rico, famoso, respeitado em todo o mundo, não hesitou em instalar-se no Iraque do "pós-guerra" para ver de perto e analisar os acontecimentos com a sua notável lucidez e espírito combativo. "O Paraíso na Outra Esquina" recentemente publicado em Portugal encerra, apesar do seu título poético, uma lição dura e exemplar. Na realidade é uma obra "política", carregada de polémica que aborda temas tão importantes como a liberdade individual, a responsabilidade colectiva, a emancipação feminina e os desvarios da criatividade.

Entrecruzando o relato das vidas de Flora Tristán que, em pleno século XIX, pugnou pela emancipação das mulheres e por uma sociedade igualitária, e do seu neto, Paul Gaugin, artista maldito que virou costas à civilização para se entregar com furor dionisíaco à sua arte imortal, Vargas Llosa traça um paralelo - e um contraponto - entre estas duas figuras tão arredadas uma da outra em termos de objectivos mas tão próximas no que diz respeito a uma vontade de ferro e a uma tenacidade ímpar na busca de um ideal. Dois "anjos" em queda para o abismo, sem temor, mas com uma fragilidade muito humana.


Helena Vasconcelos: Este livro coloca em confronto dois conceitos de felicidade: um individual (o paraíso) e outro colectivo (a utopia). Flora pugna por uma sociedade futura com bases na civilização: é uma política. Paul olha com nostalgia para a barbárie e não suporta o jugo da civilização: é um artista. O seu livro é sobre o choque entre estas visões? Mário Vargas Llosa: Sem dúvida. Para Gaugin, o artista devia regressar ao mundo primitivo, onde encontrava a força criativa que, para ele, desaparecia na civilização com os seus freios e controlo dos instintos, das paixões e sobretudo da energia vital. Flora Tristán via o mundo primitivo como algo violento, no qual a grande vítima era a mulher. Eu estou mais de acordo com Flora Tristán. Não creio que "civilização" seja um conceito "mau" ao contrário de Gaugin para quem a palavra exaltante era "selvagem". No entanto, tenho uma grande admiração pela pintura dele. A sua posição pode ser criticável mas permitiu-lhe realizar uma obra de grande valor estético.

H.V. Gaugin tinha uma concepção "romântica" do artista. É isso que lhe desagrada?

M. V. L. Sim. O romantismo criou no indivíduo um conflito com a sociedade, difundindo a ideia de que ao aproximar-se da natureza o artista seria mais puro. É uma grande ingenuidade. O que se deve pedir ao artista é uma obra não as motivações, por vezes, absurdas, que estão por detrás dela.

H.V: Tanto Flora como Paul caem em contradições. Na prática, a ideia de um estado ideal é constantemente posto em causa. O que o fascinou nestas duas personagens foi terem levado até ao fim a perseguição de um ideal?

M. V. L. Sim. Flora Tristán foi uma mulher muito generosa, idealista, com grande sentido de justiça, o que a fez lutar pela igualdade e pela emancipação da mulher. Mas, por outro lado, ela tinha uma ideia de uma sociedade perfeita, regulamentada desde o berço até ao túmulo, onde desaparecia praticamente a iniciativa individual, a liberdade humana, o direito à diferença. Seria intolerável. Gaugin acreditava que o mundo primitivo era o mundo da felicidade mas a realidade estava muito longe dessa fantasia. Se fosse hoje em dia, uma pessoa que vivesse como Gaugin seria presa, nem que fosse por pedofilia.

H.V: Na questão do sexo avó e neto também são diametralmente opostos: a Flora desgosta-lhe o sexo, para Paul é uma necessidade.

V.L: Absolutamente. Flora era uma pessoa que teve experiências muito violentas com um marido brutal o que a fez concluir que o sexo era um instrumento de dominação que escravizava a mulher; daí, a sua repugnância. A sua visão da sociedade é a de uma puritana, ao contrário de Gaugin que via o sexo como uma fonte de criatividade que devia assumir-se de uma maneira pagã.

H.V. Flora é defensora de um "sistema" e segue as ideias de Fourier. Mas o sexo é também parte do ideal fourierista…

VL Fourier foi um dos mestres de Flora, deu-lhe muito apoio, leu o seu primeiro livro, foi visitá-la e teve sempre muito respeito por ela mas Flora queria subtrair todo o capítulo do sexo em Fourier. Nesse sentido Fourier foi muito mais lúcido, deu-se conta da importância que o sexo tem na vida. Com toda a sua loucura há algo muito respeitável em Fourier: o seu esquema da sociedade sexual. Ele deu-se conta de que a diversidade humana no campo sexual é enorme e que estabelecer qualquer tipo de ortodoxia excluía milhões de seres humanos da normalidade. Nesse aspecto ele antecipou-se em mais de meio século a Freud, estabelecendo que todas as manifestações sexuais, por mais extravagantes que fossem, tinham cabimento na sociedade. Mas a sua nomenclatura chegou a extremos absurdos. Quando se chega ao ponto de querer organizar a sociedade tão racionalmente, com tanto detalhe chega-se ao disparate, à irrealidade. É curioso porque Fourier era um homem extremamente sóbrio. Pensava muito em sexo mas não pôs em prática as suas teorias.

H.V: Tanto para Flora como para Gaugin a ideia do amor era um "estorvo"… para já não falar do casamento? Ambos repudiaram a família, os filhos…

M.V.L. Para Flora a ideia de família era, mais uma vez, um instrumento de repressão da mulher. O casamento era opressivo e a mulher deveria rejeitar completamente todas essas instituições que constrangiam a liberdade. Hoje em dia muitos sectores chegaram a conclusões semelhantes mas fazê-lo na primeira metade do século XIX era incrível. Ela foi uma grande pioneira da modernidade.

H.V: Flora como Gaugin eram pessoas doentes. Ela fala sempre da "bala que tem alojada perto do coração" e Gaugin sofre os efeitos da "doença impronunciàvel". Acha que esse factor também os marcou, como excluídos da sociedade?

M.V.L Não se sabe bem o que teve Tristán, provavelmente um cancro. Mas isso só a engrandece. Enquanto ela levava a cabo a sua campanha era já uma mulher doente e debilitada. No entanto, resistiu e correu o país numa situação de grande sacrifício. Até ao final continuou a lutar com uma convicção extraordinária. Quanto a Gaugin, corroído pela sífilis continuou a trabalhar e no final, praticamente cego e quase louco, continuou a pintar. Os seus últimos trabalhos são comovedores. É essa tenacidade que une a avó e o neto.

H.V. Flora Tristán era da sua família?

V.L. A família dela e a minha são da mesma cidade, um lugar pequeno onde todas as famílias são aparentadas. Haverá alguma ligação, mesmo que remota.

H.V: Ao utilizar a metáfora de um jogo infantil quis dizer que somos crianças toda a vida e que o nosso descontentamento vem desse desejo nunca satisfeito?

M.V.L. Os seres humanos foram dotados, à nascença, de imaginação e desejos. Esses desejos inflamados pela imaginação fazem-nos ansiar por uma vida sempre mais rica, bela e intensa da que podemos ter. Essa procura do paraíso é quase universal. A nossa cultura incita-nos a perseguir o inalcançável, o impossível. Talvez existam culturas em que a resignação é mais forte mas não na nossa. Sim, este jogo é uma metáfora da perseguição desse espaço.

H.V: Para si, está sempre presente a noção de "paraíso perdido"de Milton?

M.V.L Temos a nostalgia dessa sociedade perfeita com a qual se inicia a nossa cultura. Nós começámos com a ideia de um paraíso que perdemos. A nossa busca é um retorno a essa idade de ouro a cuja perda nunca nos resignámos. Todas as grandes religiões prometem o éden, tal como as grandes ideologias. Com a diferença que, estas últimas, nos prometem o paraíso nesta terra e não num lugar abstracto.

H.V. Trabalhou na rádio e na televisão. Continua a fazer jornalismo. Como concilia essas ocupações com a escrita?

M.V.L. O jornalismo é muito importante para mim porque é a forma de estar integrado na vida, na história que se vai fazendo. A vida da rua é uma maneira de eu não me refugiar num universo só de fantasia, de imaginação, algo que seduz alguns escritores mas que, a mim, não.

H.V. Num artigo recente do jornal El País insurgiu-se contra o "silêncio dos intelectuais espanhóis" no que diz respeito ao terrorismo. Preconiza uma intervenção mais directa de escritores e artistas na vida social e política dos seus países e do mundo?

M.V.L. Sim. Acho que a política não pode ser um pragmatismo puro. Tem de ser imaginação e nesse aspecto os intelectuais têm um papel a cumprir. Se há organizações terroristas que se arrogam o direito de matar - como a Eta - todos nós estamos ameaçados. Se desejamos viver tranquilos dentro de uma sociedade que defende a legalidade e onde gozamos a liberdade há a obrigação de dizê-lo, de explicá-lo. Temos de combater com ideias, com palavras. É essa a função de um intelectual.

H.V.: Como foi a sua recente experiência no Iraque?

M.V.L. Foi muito forte. O país vive numa situação de violência e de enorme desordem mas também de uma liberdade extrema. Quando lá estive não havia qualquer tipo de controlo, de autoridade. As fronteiras estavam abertas, tudo passava livremente. A liberdade total fez com que, por exemplo, se criassem cerca de cinquenta partidos políticos. Havia à volta de cem jornais, alguns só de uma folha. Ao mesmo tempo o Iraque é um exemplo de que a liberdade sem ordem leva ao caos.

H.V. Acha que desse caos pode sair algo criativo?

M.V.L. Sim, claro, mas só se não se prolongar demasiado.

H.V. Coloca na boca de Flora Tristan a frase: "a nossa pátria deve ser o Universo". Comunga das suas ideias contra os nacionalismos?

M.V.L. Os nacionalismos são adversários da liberdade e da democracia porque entendem uma nação como um campo de concentração e defendem que pertencer a essa nação é o valor supremo de um indivíduo. Para mim, a importância de uma pessoa não pode estar determinado por esse acidente que é o lugar do nascimento. A ambição nacionalista ao sublinhar tal facto faz de um cidadão o escravo de uma colectividade. Creio que o melhor que nos aconteceu é termos evoluído de tal forma que, agora, cada um de nós pode construir a sua própria identidade em função das suas escolhas. Ser-se português ou peruano é um acidente. O que é importante é que possamos ser o que queremos, indivíduos que criam a sua própria soberania a partir de eleições livres. É por isso que eu sou totalmente a favor de tudo o que faça diluir fronteiras, razão pela qual eu defendo a Europa, uma ideia muito bela e generosa que irá integrar uma comunidade de povos, de tradições, de toda uma fraternidade. Os nacionalismos tentam o contrário, tendem a separar-nos, a excluir-nos uns aos outros. Por detrás disso há um acto de fé quase fundamentalista.

H.V. Escreveu algures que a sociedade evoluiu de tal forma que agora é quase impossível o totalitarismo. Está a ser optimista?

M.V.L. A ideia totalitária foi derrotada pela realidade, pela história. Claro que há alguns nostálgicos que ainda pensam nesses termos mas creio que o totalitarismo como fenómeno colectivo importante já faz parte do passado. Pode ser que ressuscite mas como o mundo evoluiu, é um anacronismo total.

H.V. Foi essa ideia da cultura da liberdade o que o indispôs contra Garcia Marquez, por exemplo?

M.V.L. Quando uma pessoa é comunista e outra é liberal há uma incompatibilidade muito profunda. Não deveria impedir o diálogo mas há diferenças fundamentais.

H.V. O chamado "realismo mágico" é um fenómeno que distingue a Literatura Sul-Americana e que tem sido adoptado por, por exemplo, escritores indianos e africanos. Será porque foram países colonizados que mantiveram uma ligação com as suas raízes primitivas, com a cultura popular?

M.V.L. É um estereótipo pensar-se que a literatura sul-americana está só representada por esse realismo mágico. Essa corrente existe, como existem muitas outras. O mais provável é que o realismo mágico se tenha implantado na América latina, não através das culturas primitivas mas sim importado da Europa. A primeira pessoa a mencioná-lo foi Alejo Carpentier, um escritor muito bom mas totalmente formado em França e marcado pela literatura surrealista. O conceito do realismo mágico é um conceito surrealista. É muito divertido que seja considerado sul-americano quando na realidade o importámos de França.

H.V.: É Presidente da Fundação Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. É apoiante das novas tecnologias para a divulgação da literatura?

M.V.L. Pude constatar o serviço magnífico que esta Livraria Virtual presta. Vi, por exemplo, quem a consulta, no Peru: pessoas em pequenas cidades, em lugares remotos de província onde não há bibliotecas ou onde estas são insuficientes. Graças à "Biblioteca" há milhares de peruanos que podem ter acesso a uma bibliografia que dantes lhes era completamente vedada. Aí vejo uma prova concreta do enorme serviço que a informática pode prestar

H.V. Sente-se peruano ou europeu? Nunca teve, como Flora e Gaugin a sensação de exílio?

V.L. Sou peruano mas sinto-me em casa na Europa. Nunca me senti exilado em parte nenhuma. Onde estou é a minha casa. Sou um cidadão do mundo. É uma definição que me agrada muito.



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