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La insignia
17 de julho de 2005


Donna Tartt: Uma obra de culto


Helena Vasconcelos
Storm. Portugal, julho de 2005.

"A História Secreta", de Donna Tartt.
Ed. Dom Quixote, Lisboa,2005, 699 págs., 27,76 euros
Em colaboração com o Suplemento Mil Folhas,
edição do Jornal Público, Lisboa, 16 de julho, 2005.


Quando, em 1992, Donna Tartt, publicou "A História Secreta", um primeiro e extenso romance recheado de referências literárias, o êxito foi instantâneo. O livro foi considerado como um exemplo da recuperação da grande tradição da ficção russa, de Tolstoy a Dostoievsky, com o seu plot complicado e tenebroso, personagens a braços com crimes e castigos e em permanente estado de guerra de nervos.


A personalidade de Tartt contribuiu para o verdadeiro "culto" a que esta obra estava destinada. A sua diminuta figura - "sou exactamente do tamanho de Lolita e, em pequena, vestiam-me roupas de boneca", afirmou numa entrevista - o cabelo cortado à Louise Brooks, sotaque sulista, uma postura de reclusa e a firme decisão de se dedicar inteiramente à escrita, pondo de lado o casamento ("Je ne vais jamais me marier,"), a juntar ao facto de ser amiga de Bret Easton Ellis, fizeram dela um ícone do universo literário. Os críticos extasiaram-se com a sua erudição, o seu gosto por línguas estrangeiras e a aplicação directa que faz, com invejável desenvoltura, dos temas e técnicas da já longa história do romance.

" A História Secreta" abre com duas citações: um "sofisma" de Nietzsche e um passo da "República" de Platão que exorta a que se contem histórias "aos nossos heróis" para que eles "se eduquem". São ecos de autores ilustres como Sterne - a citação em grego de Epictetus na primeira página de "Tristram Shandy" que quer dizer algo como "os homens são perturbados não pelas coisas mas pela opinião que têm das coisas" - e como Fielding que, em "Tom Jones", vai buscar à "Ars Poetica" de Horácio, a frase, "ele conheceu os costumes do mundo", a adaptação latina da primeira linha da "Odisseia" de Homero, que refere a sabedoria adquirida por Ulisses/Odisseus. Está dado o mote para a acção, com ecos de tragédia grega. A autora começa com um prólogo chocante e violento, um artifício que irá repetir no seu segundo romance, "The Little Friend"(2002). O leitor fica a saber que houve um crime e quem o praticou. Depois, a câmara faz um "zoom" para o que aconteceu oito anos antes, uma técnica utilizada por escritores de thrillers psicológicos, como James Ellroy e Henning Mankell.

À primeira vista, a trama parece improvável: quatro alunos de Cultura Clássica do Hampden College em Vermont - uma zona elitista da Nova Inglaterra - influenciados pelo professor Julian Morrow, levam a cabo uma celebração dionisíaca durante a qual, matam e desmembram um camponês local, numa cena que recria o acto de Pentheus, em "As Bacantes" de Eurípides. O crime é descoberto por outros dois estudantes do grupo: Edmund ("Bunny") Corcoran, que inicia uma descontrolada acção de chantagem, principalmente na pessoa de Henry, o líder carismático, e Richard Pappen, o narrador.

Richard é californiano e um estranho na sociedade fechada da costa leste mas consegue juntar-se ao restrito círculo de alunos de Cultura Clássica, tutorado pelo excêntrico, diletante e snobe Julian Morrow. Os jovens em questão - Camilla e Charles, gémeos e órfãos, Francis, "Bunny" e Henry - fazem questão de demonstrar que se guiam por rituais e normas totalmente alheios aos do resto dos estudantes. Vestem-se e agem de forma diferente, decalcando os seus maneirismos sofisticados de Oscar Wilde ou inspirando-se em personagens como Dorothea Brooke, em "Middlemarch" de George Eliot. Quanto à única rapariga do grupo é consistentemente descrita como diáfana, luminosa, magnética, irreal. É evidente que a vemos através dos olhos de Richard que nutre por ela um fascínio obsessivo e condenado ao fracasso.

A narração prossegue em jeito de confissão como se Richard fosse a lente de uma câmara de cinema que nos arrastasse num longuíssimo "travelling". Ele é inteligente e perceptivo mas, a pouco e pouco, algumas das suas idiossincrasias tornam-se incómodas. Na sua ânsia por ser aceite pelos seus novos e sofisticados amigos, inventa um passado glamoroso e compõe uma persona bem diferente da real. O verdadeiro herói desta história é o brilhante, manipulador e sinistro Henry, a personagem trágica por excelência, a quem todos ficam ligados, para o bem e para o mal, "até que a morte os separe".

A acção decorre durante um ano lectivo, começando no Outono e terminando quando as férias de verão se aproximam. A mudança de estações tem grande importância para o ritmo dos acontecimentos e autora aproveita para fazer magníficas descrições das alterações na Natureza e na alma - negra - dos seres humanos. As montanhas e bosques que circundam o campus contribuem para a ideia de isolamento, para a definição de uma cosmogonia onde se forma uma célula que pretende reflectir o ideal clássico de beleza, eloquência, força e equilíbrio, na qual os seres humanos são permanentemente impulsionados por uma força a que se chama "destino". Toda a história tem como objectivo dar a conhecer os factos que levaram os seus intervenientes ao culminar da tragédia e a forma como as suas personalidades, ainda mal formadas (ou melhor, deformadas) são literalmente arrebatadas por forças poderosas. Os "Mistérios" do mundo grego são parte do ambiente que eles desejam recriar mas essa vontade, para além de trágica, tem qualquer coisa de afectado. Os protagonistas trocam palavras em grego, latim, italiano e francês e pontuam o seu discurso de clichés como "o tempore, o mores" "amor vincit omnia", "requiescat in pace", ou "et tu, Brute". "Salve amice", é uma das saudações habituais e Henry atende o telefone com um murmurado "Khairei!".

São personagens que surgem do escuro, aparecem repentinamente de lado nenhum, fazem perguntas embaraçosas, desaparecem em momentos críticos e respondem sempre de uma forma enganadora. Tudo - gestos, palavras, olhares desviados, insinuações sibilinas - servem para enfatizar o mal-estar generalizado, a tibieza e a desconfiança. "Bunny" é sacrificado porque faz troça do "sagrado" e quebra as regras do jogo. Torna-se imprevisível, ameaçador, impulsivo, desregrado e não muito diferente da maioria dos outros estudantes "normais": rapazes e raparigas que não se dedicam seriamente ao estudo, passam o tempo em festas, consomem álcool e drogas e vivem um quotidiano de promiscuidade, roupa suja, sexo e outras actividades tipicamente estudantis. Os pais são figuras relegadas para um buraco negro - servem para suprir dinheiro e nem sempre - os professores são caricaturas. Julian, que inicia as aulas com a seguinte frase: "E agora, espero que estejamos todos prontos para deixar o mundo dos fenómenos e entrar no reino do sublime", é a figura paternal que se destaca nesse universo de banalidade.

Richard despreza os pais - que lhe pagam da mesma moeda - Charles e Camilla são órfãos e mantêm uma ligação incestuosa, Henry, Francis e os gémeos são católicos e "Bunny" aborrece-os com piadas acerbas e boçais sobre religião. Francis é homossexual, Charles é alcoólico em último grau e Camilla é uma allumeuse, embora tais detalhes sejam pouco explícitos. É preciso não esquecer que Richard, apanhado na teia do encantamento, está completamente "apaixonado" pelos amigos, totalmente rendido ao que eles lhe proporcionam - um escape à monotonia, um mundo ideal exótico e utópico, baseado nos princípios platónicos da "República" e nas suas múltiplas sequelas, de Thomas More a H.G. Wells.

Encerrados na "ilha" que é o campus e os seus territórios limítrofes - a casa de campo de Francis funciona como uma colónia, uma arcádia ideal - vivem uma espécie de sonho (ou pesadelo) onde as leis comuns não se aplicam. Da cantina para a biblioteca, dos quartos dos alunos às salas dos professores, dos caminhos solitários aos relvados comunais, o narrador deambula continuamente num estado de semi-inconsciência, provocado por longas horas insones, drogas, álcool e anfetaminas e por essa espécie de entorpecimento causado pelo medo. A universidade é um autêntico gulag, um espaço circunscrito, com leis e costumes próprios, encerrado sobre si mesmo, esquecido do que é "a vida lá fora". Os alunos formam clãs com uma cultura específica e rituais próprios: os hippies, os desportistas, as raparigas atrevidas e, é claro, o dos alunos de grego, principais heróis desta história que é essencialmente "secreta" porque os seus protagonistas, arrastados pelas suas próprias alucinações, funcionam como uma máfia. A espiral vertiginosa de Bunny, ao tombar na ravina é apenas o prenúncio de outras quedas, tanto físicas como morais.

"A História Secreta" é um exercício de virtuosismo que funciona como uma sátira ao sistema universitário americano que por vezes, reproduz as leis de jogo de uma seita. É, também, num âmbito mais alargado, um livro sobre o exercício do poder, por parte de uma elite endinheirada e supostamente esclarecida, sobre quem não preenche os requisitos de um "ideal". O despotismo encantatório de Henry leva a meditar sobre a forma como se manipulam as pessoas até ao ponto de as levar a fazer o impensável. Tartt consegue, ainda, mostrar lampejos de um humor negro no rasto de Flannery O'Connor, outra escritora sulista com quem ela partilha o gosto pela expressão da alienação humana.



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