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| 8 de outubro de 2006 |
O acidente da Gol
Cláudia Rodrigues
O acidente da Gol que matou 154 pessoas durante um vôo doméstico foi causado pelo choque com um avião de fabricação brasileira, de propriedade de uma empresa americana, pilotado por um americano, que conduzia cinco passageiros americanos. O acidente ocorreu durante tráfego aéreo sobre uma base militar brasileira. São fatos. Antes da batida o jato Legacy, que transportava os americanos, não havia respondido a cinco chamadas feitas pela torre de controle, mas os aparelhos de rádio do Legacy estavam em perfeitas condições de funcionamento logo após o acidente, quando o piloto conseguiu permissão para pouso de emergência na base área militar da Serra do Cachimbo. O piloto não seguiu as instruções do plano de vôo e não atendeu as chamadas para dar sua posição, desrespeitando duas praxes internacionais da aeronáutica.
A empresa aérea proprietária do avião, que é fabricado pela Embraer, contratou um advogadão para defender seus interesses. A mídia americana partiu para o ataque tendo como voz principal o jornalista americano que estava no jato fazendo uma matéria sobre o Legacy. Segundo a mídia americana, que o Brasil reproduz em série no JN, na Folha, no Estadão, no Ig e em todos as grandes corporações, o nosso sistema de radares é falho, o avião da Embraer estava em testes e apresentou defeito, os pilotos estão correndo perigo detidos no Brasil como testemunhas e por aí vai. Os releases são recebidos e repassados e as fontes brasileiras são confrontadas com a verdade dos releases americanos. É a especulação da notícia, nada mais. Há um jogo óbvio de subjugação que aparece em frases do tipo "finalmente apareceu alguém que falava inglês", como se não devesse ser o contrário, "infelizmente não somos bons em português ou espanhol". As autoridades brasileiras demonstram maturidade diante da imprensa depois do choque inicial, mas não são ouvidas como "nosso lado," não temos lado, somos portadores da notícia higienizada, pasteurizada, ditada por uma espécie de fofoca que parte sempre do topo da pirâmide. Esse é o segredo da pirâmide invertida, o lide é só para disfarçar. É o que eles dizem e o que os outros rebatem abaixo. No caso nós somos os outros, as 154 pessoas que morreram são os outros e o nosso lado é o lado deles, do pessoal do Legacy, o pessoal do outro lado de fato. Será que vai ser isso mesmo até o fim? Não tomar lado na briga sangrenta do petróleo até dá para engolir, mas assim, na carne da gente, tão perto... Muitos de nós assistimos e lemos notícias da mídia capitalista sem sentir na pele o poder de fogo dos primos da América do Norte. Começou logo após a "vitória" na Segunda Guerra, em 1945, quando herdaram as idéias de propaganda de Hitler e Goebbels, mas intensificou-se em velocidade crítica após a queda do Muro de Berlim, em 1989. A maior arma tática da fome e da guerra é a mídia. Tudo é dito para que se entenda sob um único enfoque, o dos interesses capitalistas. Todas as guerras em que influíram, inflaram, participaram direta e indiretamente, foram apoiadas pelo sistema de mídia que eles adotam e nós copiamos. O acidente não foi interpretado como uma declaração de guerra, o governo brasileiro não está entendendo assim, mas e se fosse o contrário, um avião de propriedade brasileira em cima de uma base aérea americana, com piloto e passageiros brasileiros sem o domínio da língua inglesa? O acidente está sendo apurado, as pessoas mortas ainda nem foram identificadas, o país está tomando medidas legais para apurar os fatos, ninguém foi torturado ou detido em presídio para responder a um suposto ataque. Ao acusar as autoridades brasileiras de negligentes e os serviços aéreos de péssimos, a mídia americana escancara sua face até então oculta para muitos de nós. Os tempos de neo liberalismo já foram, no capitalismo selvagem, em vez de solidariedade pela perda de 154 vidas e comprometimento para cobrir os prejuízos, caso seja apurada a responsabilidade dos pilotos do Legacy, a ordem é o ataque na primeira instância. O ministro da defesa, Waldyr Pires, pelo menos nesse momento não está nada anti-bush. Teria razão para tomar medidas mais drásticas, poderia aproveitar a deixa para desfazer alguma cláusula do contrato firmado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com os militares primos do norte. A assessoria de imprensa da empresa dona do avião divulgou nota, que foi publicada no Brasil como notícia, que seus advogados iriam provar a inocência dos pilotos, calando rumores e falsidades a respeito do acidente. Rumores e falsidades, no caso, são os indícios apurados nos nossos centros de controle, de que houve falha do comandante da aeronave americana. A mídia brasileira, vergonhosamente, ao publicar press release da empresa americana que não diz coisa com coisa, perde a oportunidade de fazer matérias sobre a Base Militar da Serra do Cachimbo e do Campo de Treinamento Aéreo Brigadeiro Velloso. Foi nessa área, zona militar brasileira, que ocorreu o acidente; não é apenas uma floresta densa, com árvores gigantes. E nessa zona, bem nessa, houve problemas com o transponder do Legacy, que desapareceu do sistema de controle de tráfego aéreo. Releases plantados aqui mesmo nessa terra fértil, afirmam que o transponder falhou por mau contato e depois com a batida, quando os pilotos precisaram de autorização para um pouso de emergência, voltou a funcionar. Essa é a notícia que os americanos estão plantando também mundo afora, exatamente como as que plantam sobre vários outros assuntos. Agora sentimos na carne o que é ser vítima da mídia americana. Tudo é colocado para fazer sentido, por menos que faça, e para isso são necessários advogadãos e meios de comunicação, nada mais. O que um avião americano com piloto americano e passageiros americanos fazia de fato em cima do espaço aéreo militar brasileiro? O que cada uma dessas pessoas estava fazendo no avião que bateu no jato da GOL causando a morte de 154 pessoas? Como funciona o convênio entre militares brasileiros e americanos firmado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso? Por que o ministro da Defesa, Waldyr Pires, é acusado de ser anti-bush? O que aconteceu na base área naquele dia? É verdade que 400 militares americanos estariam passando pelo espaço aéreo brasileiro naquela sexta-feira, em direção à base aérea que os Estados Unidos mantêm no Paraguai? Não seria uma boa oportunidade para a mídia brasileira divulgar as ações militares dos Estados Unidos aqui na América do Sul? Que negócios interessantes...Por que nem os jornais de economia de nosso país cobrem esses negócios? Por que não estamos cobrindo direito esse acidente? Por que os pilotos do Legacy e os outros passageiros do jato não foram entrevistados? Isso tudo interessa tanto ou mais aos Homers fluoretados em suas poltronas do que a expectativa sobre o conteúdo das caixas pretas. Depois de tantos caixas 2, agora que estamos perto da caixa preta, enterrada no coração do Brasil, vamos continuar cegos, surdos e mudos? |
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