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| 1 de julho de 2005 |
Luís Carlos Lopes
Quando o velho Marx falava da acumulação primitiva do capital, não havia o passeio em um reino de cavaleiros e donzelas castos e detentores de uma moralidade exemplar. Havia, sim, o percurso dantesco dos horrores da escravidão, do colonialismo explorador e da mais alta taxa de mais valia absoluta possível de ser produzida. Para enriquecer e preparar o advento do capitalismo industrial moderno foram necessárias a macro-exploração do trabalho e das riquezas alheias, sem qualquer pejo ou temor. As religiões da época das revoluções industriais estimularam (protestantismos) ou se adaptaram (catolicismo) aos requisitos da nova ordem burguesa.
No capitalismo estabelecido, nenhum mecanismo jurídico ou político demonstrou-se completamente eficaz no controle das paixões que o mercado, o consumo e o desejo de enriquecer criam na sociedade. Nos países onde o capitalismo está posto desde o século XIX, a lei e os costumes mais recentes procuram limitar a voracidade do capital (enquanto instituições e pessoas interessadas em possuí-lo). Há um consenso sobre a necessidade de impedir que as razões do capital controlem completamente às necessidades humanas. Sabe-se que isto significaria a erosão do tecido social e o baixo nível de governabilidade. Sociedade e Estado, absolutamente controlados pelo capital, seriam obras de ficção, destinadas a uma entropia inexorável. Imagine-se se os capitalistas e políticos pudessem fazer o que bem entendessem, em países com um nível mais elevado de acumulação. São necessários freios e inúmeros tipos vigilâncias (as mídias podem ser usadas neste sentido) disseminadas pela Sociedade e pelo Estado, evitando-se que tudo retorne ao passado e que se viva uma 'terra sem lei ou pecado'. Neste lugar, certamente desejado pelos políticos e empresários mais ávidos e corruptos, imperaria a desordem social e o mais absoluto irracionalismo. O capitalismo, enquanto modo de produção e formação social, sempre viveu esta contradição: funciona em bases irracionais na busca sem perdão do lucro a qualquer preço; porta, não sem ambigüidades, a maior possibilidade humana de uso da razão, jamais conhecida em outros períodos da história. Nem mesmo a experiência do século XX do chamado 'socialismo realmente existente', que chegou a incorporar um em cada três seres humanos do planeta Terra, foi capaz de usar a razão de modo tão abrangente, tal como o que ocorreu no capitalismo dos países mais ricos. O desenvolvimento da ciência, bem como das técnicas e das artes, foi importante nos países do Leste, mas se demonstrou inferior, em comparação ao que se deu, no mesmo período, no Ocidente. Até mesmo o marxismo floresceu mais no Ocidente do que no Oriente. Uma espécie de maldição do pensamento marxiano foram os fatos de sua petrificação e de sua baixa operacionalidade nos estados socialistas. A exuberância, em dois exemplos, da teoria crítica e do marxismo britânico, cresceu sem nada dever ao Leste, a não ser por efeito da função crítica ao socialismo real. Hoje, nos países outrora socialistas, com poucas exceções, vive-se o império de um tipo de capitalismo precário, 'selvagem', isto é, onde tudo é possível e válido para acumular. Se por um lado, esta nova situação remete à origem do capitalismo, há evidências que a corrupção generalizada (veja-se o caso russo) já estava estabelecida, quando a nova ordem ainda não havia sido criada. Misturar-se-iam nestas situações, como o vinho e a água, os desmandos da burocracia de estado às 'necessidades' de acumulação presentes. O 'monstro' teria sido gerado em lugar impensável, sendo reforçado pelos sujeitos da nova ordem burguesa, colocada no espaço vazio da decadência dos regimes do Leste. Não é exagero dizer que em todo o universo do capitalismo, que abrange a maior parte das sociedades contemporâneas (as exceções são as dos países pré-capitalistas ou, ainda, socialistas), os maiores desejos socialmente compartilhados são os do enriquecimento e consumo. Nem poderia ser diferente, o estabelecimento do capitalismo emula estes sentimentos em escala universal, tentando contornar as resistências que se tentam organizar. É bem verdade que consumir para a maioria significa ter o básico (comida, roupas e habitação). Para outros, consumir significa ter o supérfluo ou aumentar suas fortunas pessoais. Ser rico, para alguém muito pobre, é comer todos os dias... Já para as classes médias, o enriquecimento tem significado muito distinto. Ainda mais diverso, é o significado da riqueza para os que já são ricos. Nos países, onde o capitalismo em seu formato mais desenvolvido e completo, conformou-se no último meio século, a corrupção social (criminalidade, prostituição etc) e a estatal (subornos, desvios de verbas públicas etc) tendem a ser de maior monta, comparando-se com os países mais ricos. O risco é que a desordem social e governamental, derivadas de elevados níveis de corrupção, chegue a tal ponto, que estas sociedades e países percam os seus rumos e corrompam suas próprias histórias. Daí a importância de desenvolver uma consciência crítica e uma ação que compreendam o fenômeno e discutam formas efetivas de seus controles sociais, políticos e culturais. Não é verdadeiro que a corrupção seja parte da natureza humana e por isso 'natural' e impossível de ser detida. No mundo dos homens e das mulheres há um espaço para optar por caminhos diferentes. Este espaço não é privilégio de todos. O ladrão que passou fome a vida inteira, não teve casa, família e alimentação regular é, sobretudo, um fruto das desigualdades sociais. Os países que diminuíram os crimes sociais foram os que melhoram o padrão de distribuição de renda e de acesso ao trabalho. É notável que com tanta miséria no hemisfério sul, a criminalidade ainda não seja maior. Normalmente, ela cresce nos países mais urbanizados, onde o apelo ao consumo é quase insuportável. Existe uma correlação forte entre o crime, a publicidade, o consumo e a corrupção de Estado. Os ladrões de colarinhos brancos são dos mais diferentes tipos. Existem os burgueses ou pequeno-burgueses que vêem nos governos um meio de aumentarem seus patrimônios pessoais. São históricos e tradicionais. Alguns são discretos e comedidos. Outros ostentam sem pudor o resultado de seus crimes. Nos países pobres e mesmo nos ricos, o Estado sempre foi um espaço de manutenção ou de expansão de fortunas. Um novo tipo de corrupto, em evidência, é o dos que ascendem socialmente com a política, e são tentados a imitarem os padrões dos patrões de toda uma vida. Mudam os costumes, os lugares e coisas que consomem etc. Este novo quadro de suas vidas os seduzem para a roubalheira. Alguns não enganam a ninguém, praticamente dizem a que vieram e porque querem estar na função pública. Outros, quando são pegos com a boca na botija, apresentam mil e uma razões, sempre escondendo a mais importante: a mudança de classe social. Tem-se aí um problema, o capitalismo é capaz, em sua voracidade, de fazer apodrecer e transformar em pó qualquer certeza sólida. |
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