| Mapa del sitio | Portada | Redacción | Colabora | Enlaces | Buscador | Correo |
|
|
|
| 1 de fevereiro de 2005 |
Por vias transversas
La Insignia. Brasil, fevereiro de 2005.
Eu peço com insistência
Não diga nunca - isso é natural
Sob o familiar,
Que tudo o que é considerado habitual A história não caminha com a linearidade que alguns acreditam. Por vias transversa, muitas previsões, acabam se confirmando. Não enquanto afirmação de um mundo acabado, síntese última, corolário dos corolários. Assim, talvez Fukuyama tenha acertado o desfecho de tramas que, durante décadas, marcaram Davos como epicentro de uma lógica destrutiva. Se é fato que o capitalismo contemporâneo consolidou-se pela ação de forças e condições materiais identificáveis, temos um sistema passível de intervenção. Se, tal como as formações que lhe antecederam, foi formado em circunstâncias históricas determinadas, sua superação não só é factível como desejável. Em suma, o lema "um outro mundo é possível" está longe de prenunciar que cinco mil organizações, redes e movimentos de 150 países tenham ido a Porto Alegre participar de uma festiva "feira ideológica". Um happening dos que não agregam valor e são incapazes de avançar além de protestos inconseqüentes. A necessidade, destacada por Emir Sader, de buscar formulações propositivas, deixando para trás "concepções liberais de ONGs que tratam de restringir a luta por uma nova era ao que chamam de 'sociedade civil" é indiscutível. Outro ponto que merece destaque é a importância de se desvencilhar da armadilha ideológica que propõe articulação superestrutural sem intervenção nas relações de dominação. Não há dúvida que é hora de transformar a massa crítica acumulada em uma teoria geral do capitalismo contemporâneo que se pretende combater. Não se trata de, como destacou o sociólogo belga François Houtart, fazer do Fórum Social Mundial uma " Quinta Internacional", mas transformá-lo no norte de ação para os vários tipos de atores que dele participam. Se nos restringirmos, pelos limites exigidos para a publicação desse artigo, à América Latina, teremos um quadro esclarecedor da necessidade de um pensamento crítico que corresponda às exigências da realidade histórico-social do subcontinente. Após duas décadas de neoliberalismo, presenciamos economias estancadas pela reconversão de suas estruturas produtivas, taxas recordes de desemprego e a mais alta porcentagem de pobreza da história da região. Pagamentos de juros externos equivalentes a 2,4% do PIB regional superam, por cinco anos consecutivos, os créditos obtidos. É dessa desdita que surge o cenário contra-hegemônico e seus novos atores. Os movimentos indígenas que, em alguns países, exigem a redefinição de Estado Nacional, os piqueteros que, face à crise argentina obtêm adesão de segmentos médios, e o MST que, longe de se limitar a uma demanda por redistribuição de terras, luta por uma nova gestão de propriedade e de governo. São subjetivações sociais, forças emergentes ainda desprovidas da capacidade que, segundo Gramsci, definiria hegemonia: a de exercer uma direção intelectual e moral sobre o conjunto da sociedade.É para elas que o colossal conjunto de redes que compõe o FSM pode, pela articulação horizontal, fortalecer a consciência internacionalista que viabilize ganhos políticos vindouros. A luta contra a primazia do cálculo financista sobre a vida e da compreensão desta como apêndice da geração de valor é crucial para o futuro da humanidade. O capital global e seu Estado hegemônico têm imperativos infinitos de expansão. A necessidade de controlar a maior quantidade possível de recursos naturais estratégicos é , juntamente com o uso indiscriminado de sua capacidade militar, a materialidade solicitada pela reprodução ampliada. Os déficits gêmeos e a desvalorização do dólar não apontam para o surgimento de novos blocos capitalistas que lhe tomariam a primazia. Uma nova ordem monetária com o euro fazendo o papel de moeda-petróleo só seria exeqüível com equilíbrio bélico. O refinanciamento da dívida estadunidense pode levar de roldão toda a economia capitalista. Portanto, não esperemos que venha da Europa, pelo menos no atual bloco histórico, qualquer resistência efetiva à sanha imperialista.. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu às vaias de um grupo reduzido da platéia do FSM dizendo tratar-se de "um gesto democrático feito pela boca daqueles que não têm paciência de ouvir as verdades". Em seguida, rumou para o Fórum Econômico de Davos. Foi ouvir as verdades do capital. O pseudo-rigorismo da matematização dos problemas sociais. Não se sabe se lhe contaram da ameaça que representa o capital orbital de US$ 3 trilhões que gravita em torno do planeta. É provável que a pressão política do FSM tenha levado lideranças governamentais e corporativas a anunciar,sem qualquer compromisso de levar a cabo, a taxação de transações financeiras e a tributação de paraísos fiscais. Contudo, apesar de todo esforço cênico-diplomático, a ponte entre os dois fóruns é historicamente inviável. Não há como unir um "outro mundo possível" com a terra sem sonhos do capitalismo.. A sociedade fundada na lei do valor não pode mais superar a si própria. Para eles a história acabou. (*) Gilson Caroni Filho é professor titular de Sociologia da FACHA (Brasil). |
|||