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| 25 de janeiro de 2005 |
Com os pés na terra e em ação
Envolverde/IPS. Brasil, janeiro de 2005.
Rio de Janeiro- Intensificar as articulações para a ação pode ser o lema do V Fórum Social Mundial, que este mês volta a Porto Alegre com grandes mudanças em sua estrutura, empurrados pela irrupção em 2004, na Índia, de pobres e marginalizados. Será um encontro maciço como os anteriores, com a presença esperada desta vez de 120 mil pessoas, mas com modificações em sua organização e metodologia para estimular propostas concretas de campanhas de luta, mobilizações e soluções para os problemas da humanidade.
"Na realidade, o FSM sempre o fez porque é sua finalidade, mas agora o fará com mais afinco, para que hajam muito mais propostas e todas melhor preparadas e articuladas para as ações", explicou á IPS Francisco Whitaker, membro do Comitê Organizador Brasileiro. No programa desta quinta edição, que acontece a partir de quarta-feira até o dia 31, foram reservadas as duas primeiras horas da manhã para assembléias em cada um dos 11 "espaços temáticos", onde se buscará consensos sobre programas de luta e se dará maior visibilidade às propostas, que serão divulgadas em um diário-mural instalado em cada espaço, acrescentou o ativista. A organização que Whitaker representa, a Comissão de Justiça e Paz, se unirá à sua similar de Barcelona em iniciativas contra a guerra, informou, a título de exemplo. Uma forte campanha a ser lançada neste fórum, que contará, inclusive, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é o Chamado Global à Ação contra a Pobreza, promovido por uma aliança de cem organizações não-governamentais de todos os continentes. É um chamado no sentido de pressionar os líderes mundiais a tornarem efetivas políticas para reduzir a pobreza. Os ativistas usarão uma faixa branca e já se prevê que neste fórum a organização de manifestações para o dia 1º de julho e início de setembro, aproveitando uma reunião do Grupo dos Oito (G-8) países mais poderosos e o quinto aniversário da aprovação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aprovados pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas. Uma forte ansiedade por passar dos diagnósticos e denúncias às soluções parece dominar os ativistas. As mudanças tornaram-se urgentes a partir da irrupção dos pobres e discriminados no FSM do ano passado, realizado na cidade indiana de Mumbai. É necessário "apontar três ou quatro ações consensuais" para mobilizar a população e não se isolar "no debate acadêmico", afirmou à IPS João Felício, secretário-geral da Central Única de Trabalhadores (CUT), coincidindo com avaliações de muitos outros. O combate contra a pobreza e a corrupção, taxação dos fluxos de capital especulativo e ações dirigidas a mobilizar a juventude são algumas das iniciativas que podem ser impulsionadas nesse âmbito, se existir consenso, afirmou. "A riqueza do FSM é a diversidade", discordou Guacira de Oliveira, co-diretora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), refletindo a posição dos organizadores do FSM, que defendem sua permanência como um espaço de diálogo e articulação, horizonte e não-deliberativa. "Que sejam apresentadas milhares de propostas, se algumas congregam muitas organizações, excelente", mas também é positivo que tenham oportunidade as que têm menos adesões, porque é importante que "questões menos amplas não sejam esquecidas", argumentou. O Fórum abre oportunidades de expressão de todos os movimentos, sem discriminação nem hierarquia. Selecionar algumas prioridades levaria a uma "disputa" pela escolha, negando seu espírito, observou Guacira. As atividades deste V FSM resultam de um esforço de ajustamento entre centenas de organizações para superar a dispersão. A questão da água, por exemplo, se discutia em mais de cem eventos isolados. Agora se buscou aglutinar as atividades, promover convergências entre grupos e redes afins. As consultas cruzadas no ano passado permitiram construir um programa mais participativo, "de baixo para cima". Todas as atividades foram propostas pelos participantes, nenhuma imposta pelos organizadores, que antes decidiam sobre as grandes conferências, seus temas e palestrantes convidados. Prevê-se a realização de aproximadamente 2.500 atividades, um novo recorde. Entretanto, se conseguiu agrupá-las em 11 eixos temáticos, definidos no processo de consultas e que terão seus lugares definidos no chamado Território do FSM. A questão dos direitos humanos concentrará a maior quantidade de ativistas, cerca de 500. A busca de coerência com os propósitos do Fórum levou a outras mudanças, reforçadas pela experiência na Índia e por um estudo comprovando que os participantes destes encontros até agora foram uma elite ilustrada. A sede principal do encontro se mudou da "elitista" Universidade Católica de Porto Alegre para um prédio ás margens do rio Guaíbas, onde foram construídos 205 auditórios e 295 tendas de campanha, boa parte com material reciclado ou natural. Cerca de 15% do orçamento de US$ 5 milhões veio da economia solidária, com a compra de produtos e serviços de cooperativas, associações e empresas autogerenciadas. Uma moeda, como o nome indígena txai circulará no encontro. O FSM deixou de convidar alguns palestrantes, que antes tinham todos suas despesas pagas. Por outro lado, criou um fundo de solidariedade e estimula as organizações a criarem outros, para financiar as viagens e os gastos de representantes de comunidades pobres e distantes, como os indígenas. Os organizadores explicam isso como uma inversão de prioridades, para buscar facilidades para a participação popular e não apenas de personalidades. Também se busca "mundializar" o Fórum, onde a presença local é esmagadora. Nas três primeiras edições, de 2001, 2002 e 2003, todas em Porto Alegre, 85,9% dos participantes eram brasileiros. Algo semelhante ocorreu na Índia. Já está acertado que o FSM de 2007 acontecerá na África, embora se espere dificuldades para escolher o país. Para o próximo ano, os organizadores brasileiros defendem a descentralização com a concretização de fóruns simultâneos em vários países e um caráter mais temático. |
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