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La insignia
25 de janeiro de 2005


FSM 2005: Entrevista com José Saramago

«O amanhã é a única utopia assegurada»


__Especial__
FSM 2005
Transcrição da entrevista para o programa O Mundo do Fórum.
Fórum Social Mundial. Brasil, janeiro de 2005.


(...) A situação do mundo... o quinto encontro do Fórum Social Mundial, dá-lhe, eu diria, de uma importãncia excepcional. Excepcional porque no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, vão se reunir milhares e milhares de pessoas que, se têm algum interesse, e certamente têm muitos, mas há um que, com certeza, ocupa em seu espírito um lugar importantíssimo que é a preocupação em que se encontra, não quer dizer só o mundo em geral, como uma forma que é , ao mesmo tempo, enfim, real e abstrata, porque nós vivemos num mundo e a palavra que fica aí é uma palavra, mas aquilo que se passa efetivamente em cada lugar e em cada momento é o que constituiu e neste momento, enfim, sempre foi assim, mas neste momento atinge um grau de negatividade que, de fato, se constitui como uma das preocupações fundamentais de qualquer pessoa e, por uma ou mais razões, em toda a gente que vai se reunir em Porto Alegre.

Eu penso que o Fórum Social Mundial este ano deveria ser um lugar onde não nos limitássemos simplemente a reivindicar, enfim, com todas as razões e com todos os melhores motivos que se possa imaginar. A idéia de que um outro mundo é possível, mas em lugar de pôr este rótulo, este desejo num futuro - porque efetivamente quando nós estamos a dizer um outro mundo é possível é uma coisa que estamos a colocar no futuro - enfim, se pensas que um dia chegaremos à concretização deste outro mundo possível que hoje mal se define nas nossas prórias idéias, na nossa própria consciência, mas que de qualquer forma se apresenta como um objetivo a alcançar. Eu creio que o estado do mundo, enfim, a consciência de que- e cada vez mais forte, aliás, não é porque eu tenha dito, mas a verdade é que ando a dizer há uns quantos anos que a globalização é uma forma nova de imperialismo. Por trás dessa idéia aparentemente simples de uma globalização econômica, esconde-se, hoje nem sequer esconde-se, uma ambição imperialista que nos mostra os sonhos de poder dos Estados Unidos, o sistema capitalista que, enfim, tem um objetivo claro. A globalização econômica é uma arma nova dum projeto imperialista que passa, com certeza, por um novo tipo de exploração mundial e se não nos prepararmos para enfrentar- não quer dizer que não tenhamos enfrentado já, muitas e muitas vezes- mas há, penso eu que há e, enfim, se não é assim eu peço sinceramente que me desculpem, há um dispersão de vontades.

De uma maneira, durante três ou quatro dias, todos envolvidos aí, que têm interesse nessa mudança do mundo e depois, enfim, acaba o Fórum e cada um regressa à sua vida, ao seu trabalho. Não quer dizer, evidentemente, que durante o ano seguinte, até o próximo Fórum, não haja atividades, que são muitíssimas, mas eu creio que chegou a hora de que o Fórum, embora por outro lado eu entenda que essa mesma dispersão pode significar que nem todos os objetivos dos participantes são coincidentes o que, por outro lado, é um riqueza, mas que pode converter-se num obtáculo para aquilo que me parece indipensável se queremos efetivamente uma presença, que se fale do Fórum todos os dias do ano e não apenas nos três ou quatro dias que ele dura, ou enfim um esboço, um embrião de uma organização que, não estou a dizer que o Fórum Social Mundial deve se transformar num partido político, evidentemente, não se trata disso, trata-se simplesmente de que a gravidade da situação do mundo exige que se o Fórum Social Mundial, que até agora tem desempenhado um papel importantíssimo na consciência universal das pessoas, tenho uma idéia que pode estar equivocada, evidentemente, mas tenho esta idéia de que é necessário passar a um outro estágio que implique ao longo do ano a presença das propostas e dos objetivos consensuais, evidentemente, porque, repito, são milhares de organizações que se reúnem aí, os objetivos não são todos os mesmos, os meios que tem para concretizá-los tambem não são, mas é necessário chegar a uma base de acordo, a uma espécie de plataforma de trabalho comum que permita que, efetivamente, o tal mundo possível não fique, enfim, pra não se sabe que tempo e pra não se sabe que lugar, mas que, de alguma forma, se apresente não para amanhã, não para já, mas como algo que não só é possível conseguir, como também, que a partir de agora, iriámos inventar o caminho que nos levaria lá. Se chegamos ou não, só o futuro saberá. Mas se não fizermos hoje, tambem não haverá futuro.

***

(...) As baterias têm que funcionar para pôr o motor a funcionar. Esta é a minha idéia.Teria de inventar, em Porto Alegre, enfim, algo que não fosse uma ONG, que se dilui na quantidade quase astronômica de ONGs, mas que fosse, efetivamente, que se apresentasse como um fórum de debates de idéias não simplemente que as pessoas se encontram e vão ter idéias e ficam, enfim, contentes com isso e vão aprender algo, e comunicar algo, mas que seja mais do que isso. Que seja um instrumento para a ação.Agora, se o modelo ou o figurino é o tipo Organização Não Governamental isso eu não sei. Isso seria um debate para envolver todos os participantes no próximo Fórum.

***

O que pode acontecer é que amanhã ou depois o Fórum Social Mundial se encontre num beco sem saída onde não fará mais do que repetir aquilo que já foi feito antes e isso, francamente, seria uma perda enorme se acontecesse. Eu creio que não acontecerá, estou convencido de que não acontecerá, mas temos que começar a investar algo novo porque, senão, enfim, repetiremos as nossas boas e justas razões infinitamente. Podemos seguir, continuar repetindo-as, mas se não transformarmos em alavancas de transformação real então continuaremos com toda a razão, quer dizer, continuaremos a perder batalhas sem chegar nunca a ganhar a guerra. Isso será, realmente, o pior que poderia suceder.

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Se eu pudesse riscava a palavra utopia dos dicionários, mas claro não posso, não devo e nem o faria. Eu penso que nós, e há que reconhecer que os jovens são muito sensíveis à idéia da utopia, mas como toda a gente sabe, digamos, a utopia é algum coisa que não se sabe onde está. O próprio termo está a dizê-lo: U e topos. Portanto, algo que não se sabe onde está. Que se supõe que existe mas não se sabe onde está. Repara: há uma contradição interna no conceito de utopia, sobretudo no uso que se faz dele como algo que, de repente, toda a gente diz ou diz-se muitas vezes, todos nós precisamos de uma utopia. Eu acho que não precisamos de uma utopia. E além disso, parece-me, quando estamos a dizer, pois isso que nós teríamos não podemos ter agora, mas, enfim, um dia será, um dia acontecerá. Em primeiro lugar, esquecemos que aquilo que nós desejamos hoje desejamos porque não temos, evidentemenre.

Portanto, há um idéia que está projetada num futuro que é, no fundo, quando ela se concretizar no futuro satisfaria os nossos desejos hoje. Mas isso que, aparentemente é o mais lógico, enfim, sofre de termos que pensar, que é óbvio, mas a verdade é que muitas vezes o obvio é aquilo em que menos se repara. Quem é que nos garante,como é que eu posso ter a certeza, de que uma utopia, por exemplo, realizável, enfim, no sécuko XXIII, em que estaria finalmente realizado, concretizado, ao alcance de toda gente aquilo que nós hoje temos consciência que falta à humanidade. Em princípio, como disse antes, isso parece perfeitamente correto. Simplesmente falta aqui uma coisa, que é saber se as pessoas que estarão vivas no século XXIII, quando nenhum de nós ou quando todos nós já estaremos mortos, não podemos saber se estas pessoas que vão viver no século XXIII estão interessadas naquilo que, para nós, era esse desejo, essa formulação utópica de algo que necessitamos hoje e, portanto, imaginamos que poderíamos vir a ter neste século.

Mas repito: não podemos ter certeza e sabemos que o mais certo é que não coincida os nossos desejos com aquilo que o mundo, a vida e tudo o mais representar para estas pessoas no século XXIII (....) enfim, o que acontece? Estaremos cultivando utopias (....) pondo-as não se sabe onde, não se sabe quando, e não nos perguntamos se as pessoas que vão viver neste tempo estão interessadas em alguma coisa daquilo que nós, por nós, desejaríamos. Então, quando digo que riscaria a palavra utopia e (....) se eu tivesse que substituí-la, então, enfim, substitui-lo-ía por uma palavra que já existe: esta palavra é simplesmente amanhã. É para amanhã o trabalho que hoje se faz. Portanto, coloquemos aquilo que é utopia, aquilo que é o conceito, não o coloquemos em lugar nenhum.

Coloquemos no amanhã e no aqui. Porque o amanhã é a única utopia (...) assegurada, porque ainda estaremos vivos, mais ou menos, ou quase todos ou na grande maiora e, portanto, do trabalho de hoje nos beneficiaremos amanhã. Agora, colocar num tempo e num lugar que não se sabe onde está, nem quando aquilo que são os sonhos e as aspirações e a satisfação das ansiedades da humanidade hoje, parece-me, francamente, um ponto de vista, enfim, muito suspeitável e, evidentemente não estou a dizer que não, mas não lhe tiro daí nenhuma vantagem, não parece um ponto de vista construtivo e parece sim que o pode ter alguma importância é a ação contínua, tendo como meta não o século XXIII, mas simplesmente o amanhã e já veremos como lá chegamos e já veremos que resultados podemos conseguir depois do trabalho de hoje. Esta, se quer que lhe diga, é a minha utopia.

***

Sempre há alguém que pergunta: "Qual é a solução que o senhor tem pra isso?". E eu respondo: "Mas eu não tenho uma solução. Se eu tivesse soluções e se elas fossem todas boas e, supondo que as pessoas estariam de acordo, pois já teríamos transformado o mundo. Não, eu não tenho soluções, eu ponho a questão, e nada mais. E para chegar às soluções, há que discutir muito, discutir muito e temos que discutir todos e, pra isso, francamente, o Fórum Social Mundial é um bom lugar e um bom momento para que estas questões se levantem.



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