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| 14 de janeiro de 2005 |
La Insignia. Brasil, janeiro de 2005.
Porque não sabes
que comigo venceram milhares de olhos que não podes ver, milhares de pés e peitos que andaram comigo, que não sou, que não existo, que sou somente a fronte dos que vão comigo, que sou mais forte porque levo em mim não minha vida breve, porém todas as vidas, e ando seguro para a frente porém tenho mil olhos, golpeio com peso de pedra porque tenho mil mãos e minha voz se ouve nas margens de todas as terras porque é a voz de todos os que não falaram, dos que não cantaram e cantam hoje com esta boca que te beija -"Os versos do Capitão". Pablo Neruda-
A farsa não se limitou a um veículo, ou mesmo, a um país apenas. Festejada nos círculos de poder do Ocidente, a derrota do povo palestino foi degustada com prazer pelas elites, e servida para a chamada "sociedade civil global" como momento festivo da vitória da razão sobre todos os fundamentalismos.As cinzas do patrimônio político , acumulado em décadas de resistência às forças sionistas, pôde, enfim ser apresentada como " festa que há muito os palestinos não faziam".São tempos inglórios para os que combatem por um mundo mais justo. Mas a dialética ensina que não há pontos finais quando se é forjado na luta. A história política dos países modernos sempre foi marcada por avanços e retrocessos. Pontuada por revoluções seguidas de restaurações conservadoras, insurreições imprevistas, perda e resgate de soberanias e direitos fundamentais, a dinâmica histórica avança por linhas sinuosas, desmentindo,para desespero de não poucos, que obedeça a uma legalidade objetiva. Compreendê-la em seus acasos e formular um plano de intervenção estratégico é o que norteia a práxis transformadora. No entanto, a contribuição mais recente dos centros hegemônicos pretende embaçar a leitura crítica da realidade.O esforço empreendido pelas megacorporações midiáticas desses países apresenta retrocesso como expressão de avanço e, quando necessário, opera em sentido inverso. Despida de suas conotações históricas, a palavra democracia presta-se a legitimar interesses expansionistas, não guardando qualquer relação com seus pressupostos institucionais clássicos que, mal ou bem, possibilitam a criação de um espaço público para o agenciamento de demandas conflitivas. Como destaca Norberto Bobbio em Estado, Governo, Sociedade ( Editora Paz e Terra) "qualquer discurso sobre democracia não pode prescindir de determinar as relações entre ela e as outras forma de governo, pois somente assim é possível individualizar o seu caráter específico". A astúcia da mistificação atual reside nesse ponto: negligenciar contextualizações e mediações fundamentais ao processo democrático. Trabalhar com o termo esvaziado de suas significações mais caras. A eleição do ex-primeiro ministro Mahmud Abbas (Abu Mazen) para a presidência da Autoridade Nacional Palestina(ANP) com 62,32 % dos votos, contra 19,8% de seu principal rival, o candidato independente Mustafah Barghouti, é, antes de tudo, uma capitulação a regras impostas por Israel e Estados Unidos.A declaração do premier israelense Ariel Sharon de que Mazen "será qualificado segundo a forma com que combater o terrorismo" não permite que paire qualquer dúvida quanto a quem está dando as cartas no jogo. A legitimidade não derivará da soberania popular, mas da visão dos dirigentes das forças ocupantes. Qual a verdade de um processo eleitoral realizado em uma região coalhada de postos de controle do exército israelense, cortando todo o território da Cisjordânia ? O que podemos depreender das palavras de Benyamin Netanyahu, dirigente do Likud, segundo as quais "a liderança palestina deve dar prova de sua coragem renunciando a reivindicação de retorno de milhares de refugiados" ? A ANP só conseguirá a paz se mantiver na diáspora o seu próprio povo. Eis o rescaldo do que setores da imprensa chamam de festa da democracia palestina. Irregularidades nas listas de votação e problemas de deslocamento impostos por soldados israelenses em Gaza e Jerusalém fizeram parte do que os mais de 800 observadores internacionais chamaram de "eleições limpas e transparentes". Em sã consciência, alguém pode chamar isso de exercício de democracia interna? E face ao boicote dos dois grupos islâmicos mais expressivos (Hamas e Jihad), qual a representatividade de Mazen? Segundo o portal mundoarabe.org, somente em 2004 foram assassinados, por soldados israelenses, 950 palestinos, incluindo 172 crianças e 36 mulheres. Várias colônias ilegais e postos avançados têm sido criados ou ampliados à custa de expropriações da população local. Sem fronteiras reconhecidas, com todas as ruas patrulhadas por um exército estrangeiro, sobre que base territorial legislará o recém-eleito ? A realização do pleito coroa os esforços propagandísticos de Sharon/Bush. Os de justificar massacres por falta de instituições representativas do território ocupado.E o empenho recorrente em apresentar a miséria em Gaza e Cisjordânia, não como resultado do desmantelamento da infra-estrutura palestina, mas como evidência da incúria administrativa de dirigentes árabes. Assustador é o silêncio da comunidade internacional. Não há qualquer manifestação de peso contra o extermínio em andamento. Um processo de purificação étnica acontece sem que qualquer medida punitiva seja aventada contra seus autores. Sepultado em Ramala não está apenas Yasser Arafat, cuja causa da morte permanece um mistério. As eleições de 9 de janeiro talvez comportem um enterro de proporções simbólicas amplas: o do sonho do grande estadista, expresso no mais rico movimento de resistência contemporâneo. Se sobrar como alternativa apenas o imaginário do Hamas, o pesadelo de Israel estará decretado como dado constitutivo da própria existência. Aos povos dos Livros restará a danação eterna. Apesar de historicamente datada. (*) Gilson Caroni Filho é professor-titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso ( Facha). |
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