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| 24 de janeiro de 2005 |
Reforma da ONU causa tensão
Marcela Valente
Uma iniciativa para discutir a reforma do sistema da Organização das Nações Unidas no V Fórum Social Mundial de Porto Alegre gera tensão entre os participantes. Alguns defendem fortemente esse debate, enquanto outros temem uma "armadilha reformista" para moderar a ação do movimento social. "Concentrar a energia nesse debate é uma estratégia errada que pode custar caro ao FSM em termos de mobilização, porque nessa iniciativa o que se defende são interesses dos Estados, não dos povos", disse à IPS o sociólogo Emilio Taddei, do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso).
Taddei representa o Clacso no Conselho Internacional do FSM, composto por cerca de 200 organizações e que se reúne periodicamente para orientar debates, fazer balanços e propor metodologias de discussão. Às vésperas do V Fórum, que acontecerá entre 26 e 31 deste mês, o acadêmico explicou que a proposta de reforma do sistema da Organização das Nações Unidas, defendida por alguns grupos, não será o único tema de debate na assembléia, mas é "o que melhor cristaliza as diferentes cosmovisões expressas no Fórum". Segundo sua visão, o FSM é um coletivo muito heterogêneo onde convivem "setores anticapitalistas e setores do reformismo progressista" vinculados com partidos de esquerda, que combatem os efeitos do neoliberalismo. Em alguns casos, os vínculos são com partidos da social-democracia européia, e em outros com partidos de países latino-americanos, entre eles o Partido dos Trabalhadores. "As iniciativas reformistas não têm o apoio de organizações importantes de base como o Movimento dos Sem-Terra, mas são apoiadas por outras menores, com recursos econômicos e relação com os governos", disse Taddei. Norma Fernández, também integrante do Conselho Internacional representando a Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), disse à IPS que "uma reforma superestrutural" como a das Nações Unidas "não deveria impedir nenhuma mobilização" e considerou que "pode ajudar" os objetivos do FSM. "Tudo soma", afirmou, acrescentando que "não há caminhos únicos. Mesmo se se conseguir uma reforma da ordem internacional, não servirá para deter a guerra e a fome se ao mesmo tempo as organizações sociais não se mobilizarem". Para entender o panorama deste debate é preciso analisar o cenário internacional de 2004 e o impacto que teve no movimento social internacional, propõe o sociólogo da Clacso. Neste sentido, explicou que a degradação que sofreu a invasão dos Estados Unidos no Iraque ao longo do último ano, e depois a reeleição de George W. Bush, afetaram negativamente a dinâmica do movimento mundial, que teve um refluxo em relação ás demonstrações maciças de 2003. Estas, sem precedentes na história da humanidade, não bastaram para evitar a guerra. "Isso afetou o ânimo e a capacidade de mobilização", e o novo triunfo de Bush aumentou ainda mais esse sentimento, admitiu Taddei. A seu ver, a debilidade relativa na qual ficou o movimento se manifestou no impacto menor que tiveram as mobilizações diante de um fato de "extrema gravidade" como foi a "invasão do Haiti", disse se referindo à decisão dos governos latino-americanos de intervir nesse país."Propus discutir a crise do Haiti no Conselho Internacional, e teria sido ideal uma declaração, mas, evitou-se esse debate e acredito que é porque há organizações sociais no FSM muito ligadas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que encabeçou a missão militar conjunta" nessa nação, disse Taddei. O sociólogo alegou que esse contexto de "refluxo relativo" do movimento foi aproveitado por governos europeus que buscam "desmobilizar a resistência ao neoliberalismo de guerra", e através de diferentes organizações começaram a incentivar a iniciativa de reformar o sistema das Nações Unidas. A organização que mais trabalhou nessa proposta é a italiana Mesa da Paz, integrada por diversas organizações sociais e que em novembro realizou um seminário "para uma ordem internacional mais justa, pacífica e democrática" na cidade italiana de Pádua. O encontro contou com o apoio de numerosas organizações, entre elas a argentina CTA, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas e a Associação pela Taxação das Transações Financeiras e a Ação Cidadã. Os participantes elaboraram um documento intitulado "Reclamemos nossas Nações Unidas", que servirá de base para a discussão em Porto Alegre. Esse texto critica o unilateralismo e pede "soluções globais para problemas globais". Os que aderiram ao documento consideram indispensável recuperar a ONU, "seqüestrada por governos poderosos", e não rechaçam a ação do movimento social, pois a consideram vital para impulsionar as reformas. O secretário de integração do CTA, Juan González, disse à IPS que não só a ONU deve ser reformada e que no Fórum haverá múltiplos debates sobre mudanças no sindicalismo e nas estruturas de integração. As organizações sindicais não dão resposta ao crescimento mundial do desemprego e da exploração trabalhista, e tampouco os processos de integração regional contemplam a participação ativa da sociedade civil. Por isso a discussão é mais ampla, antecipou. Na opinião de González, dentro do FSM "sempre há setores aos quais interessa que haja somente reformas superestruturais", mas há também organizações com propostas radicais de ação. "Os perigos de deformação sempre estão latentes, o importante é que se discuta tudo dentro do Fórum", salientou. Taddei acredita que para superar essa tensão deve-se ver como "relançar um processo de mobilização em nível internacional em torno da luta contra a guerra e das conseqüências das políticas neoliberais dentro de cada país". Seria uma armadilha para o movimento concentrar o debate na reforma da ONU, porque os Estados Unidos, que sabem que sua estratégia internacional de "cavaleiro solitário" tem um limite, poderia tomar essa iniciativa a seu favor porque lhe convém voltar a contar com o sistema multilateral", advertiu. Taddei disse ainda que desde a origem do FSM há uma tensão entre os que querem dotar o fórum de uma estrutura mais orgânica e os que buscam mantê-lo como um espaço de debate aberto. Mas assegurou que quando há clareza na ação, as questões organizacionais não ocupam o tempo dos participantes. Nesse sentido, o especialista considerou que o Conselho Internacional avançou muito ao dotar o fórum de uma melhor estrutura para a discussão através de consultas a organizações, mas insistiu que "sem um debate político, não se conseguirá". Para o representante do Clacso, o conselho tem um funcionamento "burocrático" e discute assuntos "pouco relevantes". Responsabilizou por isso o Comitê Brasileiro que cuida da organização do FSM. "Talvez se evite a discussão de fundo por medo de uma divisão, mas sou partidário de que as idéias são expressas e processadas", concluiu. |
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