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| 22 de janeiro de 2005 |
FSM 2005
Temístocles Marcelos Neto (*)
O Fórum Social Mundial (FSM) consolidou-se definitivamente como referência política mundial, um espaço de debate, articulação e síntese de lutas, experiências e opiniões trazidas por milhares de ativistas e militantes de todos os cantos do planeta. Diante da globalização neoliberal, preponderante nas últimas décadas, o FSM estabeleceu enquanto contraponto a globalização da solidariedade e da resistência. "Um outro mundo é possível!".
Esse lema, na verdade ao mesmo tempo um grito de guerra e uma afirmação de esperança, vem conquistando corações e mentes das mais diferentes culturas, dos mais diferentes povos, demonstrando a cada evento anual do FSM que a pluralidade, longe de ser obstáculo à realização de uma perspectiva comum, é condição precípua para que se realize. O FSM 2005 ocorre num momento especial desta primeira década do século 21. Um momento que poderia ser considerado como verdadeira encruzilhada para o destino da humanidade. Afinal, nestes primeiros anos do século presenciamos eventos históricos de magnitude ímpar, que condensaram e sintetizaram os grandes dilemas que temos que enfrentar. Somos testemunhas do mais elevado grau de barbárie a que se pôde chegar sob a égide de um sistema em que as forças destrutivas se sobrepõem às forças criadoras e produtivas da humanidade, subordinando-a à lógica coisificadora e desumanizadora do mercado. Nunca, como nos dias de hoje, o Ter se sobrepôs ao Ser no plano da ética humana, em tal dimensão que todas as coisas, materiais ou imateriais, são avaliados a partir do seu valor-de-troca. Um tempo em que o Império, sob governantes grotescos como Bush, justifica a guerra em nome da democracia e do combate ao terrorismo. A violência, em sua forma mais crua e cruel, destrói e comete genocídios ao arrepio dos mais caros princípios éticos e políticos da civilização humana, com a naturalidade de quem realiza o gesto mais simples e banal possível. O FSM 2005 vai ocorrer em uma época em que a manifestação das forças naturais, sejam terremotos, tsunamis, secas e outros flagelos, expressam não apenas o limite do ser humano diante da Natureza, mas também os próprios limites de uma exploração predatória que enxerga na Natureza um simples depositório de matérias primas e futuras mercadorias. Nesta encruzilhada em que nos encontramos percebemos como todas essas questões, todos esses dilemas se sintetizam num único dilema que coloca em xeque não mais o destino desta ou daquela nação, desta ou daquela cultura, mas o destino da Humanidade como um todo. E provavelmente nada traduz de forma mais contundente a consciência cada vez maior de que uma hecatombe do planeta em que vivemos não é mais apenas uma ficção possível num futuro remoto, mas uma calamidade iminente que deve ser impedida de concretizar-se. Para nós está claro que esses desafios só podem ser enfrentados mediante os debates, as buscas conjuntas por respostas, a extensão da solidariedade para além das fronteiras nacionais, a intervenção global e globalizadora de homens e mulheres do mundo todo dispostos a lutar por um outro mundo possível necessário. E refletindo todos esses dilemas, torna-se claro que o FSM e todos os movimentos sociais, culturais e políticos que o integram devem incorporar a luta pela sustentabilidade, pela salvação do planeta e da humanidade. Sustentabilidade que não se reduz à mera preservação dos "recursos naturais", mas que redimensiona a própria relação do ser humano com a Natureza, que restabelece a dimensão de uma práxis que articule as lutas por justiça social, pela defesa da Natureza, pelos resgates dos valores éticos que se oponham aos valores mesquinhos do neoliberalismo, em uma única luta. E para isso, opor à globalização do capitalismo neoliberal a globalização da Esperança, da solidariedade e das lutas por um mundo diferente, justo, igualitário, sem exploração e nem opressão. (*) Temístocles Marcelos Neto é Coordenador da Comissão Nacional de Meio Ambiente da CUT, Secretário executivo do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Desenvolvimento Sustentável (FBOMS). |
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