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| 27 de janeiro de 2005 |
Rodrigo Gurgel (*)
Ah, o aconchegante inferno dos nossos lares! As rivalidades transfiguradas em piadinhas regadas a arroz, feijão, um bife e salada. As mesquinhas cumplicidades, nascidas em nome de se enganar algum parente, de uma nova dívida para adquirir um bem desnecessário, ou por qualquer outro motivo banal, e que acaba por definhar nesses covis do egoísmo.
Ah, o asfixiante ritual das contas repetindo-se infinitamente, mês após mês. E a pequena sala dominada pela tevê, na qual aprendemos nossos gestos vazios, nossas dissimulações medíocres, nossos beijos semelhantes a um esgar, nossas ânsias obstinadas por alguma inútil novidade. Ah!, essas saletas acolhedoras, onde, sob a invencível carreira de formigas migrando de um ponto a outro da casa, o âncora do jornal nos ensina a mentir sorrindo. Ah!, os lares que nos domesticam, nos quais nos assemelhamos aos cães que salivam e bajulam o dono em troca de comida, ou aos gatos silenciosos e recatados que escondem suas carências sob uma pose aristocrática. Ah, as raras noites de amor, nascidas quase sempre do álcool ou de uma vaga euforia que turva nossos olhos para o corpo que já não nos atrai, para as carnes flácidas em que buscamos alguma alegria, ainda que fortuita e mendaz como o próprio orgasmo. Ah!, esses nossos adoráveis lares!... Nos quais beijamos com um sorriso a pele cujo gosto velho nos repugna, e onde proclamamos nosso amor apenas por temermos a solidão. O que seria de nós sem a segurança dessa porta na qual passamos a chave ao final do dia, acreditando que o mal não nos alcançará? O que seria de nós sem o sexo feito às pressas, com os olhos fechados, imaginando a viagem que nunca faremos ou a solução que jamais chegará? Ah, os abençoados livros em que nos refugiamos do nojo de viver, os abençoados poemas que nos catapultam para longe de nós mesmos, as benfazejas músicas em cujas harmonias aperfeiçoamos a arte de nos enganar, repetindo, como um traiçoeiro refrão, "no fundo, tudo está bem" ou "no fim, tudo dará certo". Ah, estes nossos deliciosos lares, cadinhos de suicidas, poços de insatisfação, criadouros de neuroses, depósitos de desilusões, ralos por onde escoam todos os sonhos. Lares afortunados em que nos deixamos envelhecer certos de sermos heróis, mas colecionando uma nova derrota a cada dia. Onde o novo filho gerado é um salva-vidas lançado ao pântano de angústia em que nos debatemos, onde a noite de sexo é um elo adicionado à corrente que nos aprisiona. Onde, a cada manhã, ao erguermos o corpo do lençol suado, olhamos a janela e nos perguntamos por que não colocar um ponto final. Ah!, nossos amados lares!... Quando a escuridão se apodera do quarto e, dando as costas ao parceiro que ressona, viramos à parede, repetimos a mesma prece, implorando ao deus inexistente que seja a última noite.
(*) Rodrigo Gurgel é escritor e editor. |
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