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La insignia
22 de agosto de 2005


A música regional argentina


Luís Nassif
La Insignia. Brasil, agosto de 2005.


Recebo material do arquiteto e radialista argentino José Luiz Ajzenmesser. Ele é produtor e apresentador do programa "La Guagua", na rádio FM Palermo, e um grande divulgador da música brasileira em Buenos Aires. Por seu intermédio, o público argentino já conheceu dezenas de artistas brasileiros. Indicado Há anos, tenta construir uma ponte musical entre Brasil e Argentina.

O material que me enviou confirma a enorme importância do conjunto "Los Hermanos Abalos" na construção da moderna música regional argentina. O mais velho deles, Napoléon Benjamin, nasceu em La Plata, em 1913; o mais novo, Marcelo Raúl Abalos, em Santiago del Estero em 1923.

Segundo depoimento que recolhi do grande Eduardo Falú, no final do ano, os Irmãos Abalos foram a porta de entrada da música folclórica em Buenos Aires, conseguindo furar o monopólio do tango. E consagram também sua terra, Santiago del Estero, como o grande centro seminal da música regional argentina.

O conjunto nasceu em 1938, ano que em Adolfo Abalos compôs "Nostalgias Santiaguenas". O conjunto já se especializara em composições e recompilações de músicas do noroeste e do altiplano argentino. Criou um centro de tradições folclóricas em 1943, o "Achalay", cuja influência se prolongou por três décadas na Argentina. Em 1951 começou a excursionar pelo exterior, incluindo vinte apresentações nos Estados Unidos, começando pela Rádio City Music Hall.

O estilo de música que disseminou está presente no famoso "Alô, Amigos" desenho de Walt Disney, que projetou o Rio de Janeiro e a música brasileira no mundo. Recentemente relançado, o desenho-documentário mostra a equipe de Walt Disney vindo para a América do Sul, desembarcando no Chile, Argentina e, depois, Brasil. Na Argentina, em vez do tango, apresentam a música folclórica dos pampas, incluindo cenas engraçadíssimas com Pateta simulando quadros do faroeste.

A música regional argentina acabou não pegando porque, na seqüência, os gringos desembarcaram no Rio de Janeiro, e literalmente caíram de joelhos ante a musicalidade e a festa que era o Rio daqueles tempos.

"Los Hermanos Abalos" não desenvolveram aquele estilo típico de interpretação gauchesca, de sotaque muito acentuado. Seria uma espécie de Bando da Lua, com o uso mais sofisticado do piano e do violão que a música regional tradicional.

É a partir dessa base que vão se desenvolvendo outros artistas, especialmente os -para mim- dois mais importantes desse estilo: Eduardo Falú, violonista, compositor e cantores de primeiríssima (autor do clássico "Tonada del viejo amor", entre outras) e o pianista Ariel Ramirez (autor de "Alfonsina e o Mar" e da "Missa criolla").

Mas há uma infinidade de compositores e cantores de peso. Um nome extraordinário é Armando Tejada Gomes, autor de uma música que não canso de ouvir, o "Regreso a la tonada", gravado por Mercedes Sosa e pelo Coral do Sedaic (o órgão de arrecadação dos direitos autorais da Argentina). Mas há muito mais, inclusive no movimento de renovação da música folclórica argentina. Um dos pioneiros é Juan Falú, que andou pelo Brasil durante alguns anos, exilado, tocou no conjunto Tarancon, que fez relativo sucesso na época. De volta a Buenos Aires, juntou-se a músicos como Hilda Herrera, Jorge Marziali, Eduardo Logos, renovando a música local com harmonias típicas da música brasileira.

Não chegaria ao ponto de dizer que a música folclórica argentina é tão rica quanto à brasileira. Diria que é como se fosse um galho, à altura dos melhores galhos da grande árvore musical brasileira.

Suas chacareras, baillecitos, sua tonada -um pouco mais ritmada que a nossa toada, mas igualmente nostálgica--, e, principalmente, sua escola de violão, compõem um todo riquíssimo. Só agora, através de Yamandú Costa, o violão argentino começa a penetrar no violão brasileiro. Até agora, tinha uma influência expressiva sobre a música gaúcha, especialmente sobre Vitor Ramil, e sobre a música do centro-oeste, o grupo de Almir Satter.

Se a embaixada argentina, as empresas argentinas no Brasil, as brasileiras na Argentina, se unissem, haveria uma mútua fecundação de ambas as músicas, da qual poderiam nascer parcerias musicais inesquecíveis.



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