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| 1 de abril de 2005 |
Luís Carlos Lopes
O propósito de qualquer artista é o de produzir artefatos que possam atingir à sensibilidade física e mental de sua audiência. O belo, o feio e suas inúmeras gradações são os objetos de trabalho de qualquer tipo de arte. Ao produzi-la, os artistas expõem publicamente o que sentem, explicitando como interpretam determinado fenômeno. O público, ao receber os efeitos da obra, necessariamente a reinterpreta, concordando com o artista ou aduzindo novos pontos de vista. A relação dialética entre a peça de arte e seu público é de muita complexidade, variando no tempo e no espaço onde ela é exibida.
O belo filme espanhol, intitulado Mar adentro, já encontrou o seu lugar na memória do grande público cinematográfico internacional. Além das suas qualidades estéticas, a obra coincidiu com os contornos dos debates que se fazem em vários países sobre a eutanásia. Dizem a vida imita a arte e que os artistas funcionariam como uma espécie de sensores dos problemas dos homens e das mulheres. Seriam capazes de antecipá-los ou de chamar à atenção para suas existências encobertas ou reprimidas. Trabalhando no domínio do pathos, a obra de arte seria capaz de reunir com maior vigor as características dos problemas humanos, servindo de farol para a crítica racional e objetiva. O filme Mar adentro fala da imensa solidão de nossos corpos, perdidos em determinações sociais que não controlamos, permeadas por opções de vida com as quais tentamos nos livrar das pressões sociais. O personagem central do filme, ao sobrevoar a terra e o mar, realiza a metáfora da liberdade do espírito. Fala de nossa possibilidade de lutar pela liberdade mesmo em condições extremas e cruéis. Não cai na pieguice e no sofrimento sem solução. Lembra que se pode, em determinadas condições, dar-se um sentido para as nossas vidas. O filme também fala do outro lado da moeda. A sociedade civil e a sociedade política são invenções que aprisionam corpos e mentes. Esta prisão pode ser sutil e, ao mesmo tempo, dantesca. Manejar corpos é uma forma de controlar mentes. Fala-se em liberdade e direito, mesmo quando, paradoxalmente, nega-se a opção de escolher entre a vida e a morte, nos casos dos pacientes terminais, de vida vegetativa ou de sofrimento prolongado e sem solução. Este direito é negado em nome da civilidade e da religião. Não está nos códigos, tal como se nossos corpos tivessem donos e fossem marcados a ferro em um curral. Terri Schiavo faleceu. O papa está quase morto. Todos morreremos um dia. Nossos antepassados viraram pó e nós os acompanharemos inexoravelmente. Nada melhor do que poder morrer em paz, usando a ciência médica para o conforto e a diminuição do sofrimento. Este mesmo conjunto de conhecimentos de ponta pode nos manter mais ou menos vivos, sem dar nenhuma esperança. Não se deveria obrigar uma pessoa a aceitar passivamente esta situação. Ela deveria ter o direito de escolha. Se sua consciência desapareceu definitivamente, isto é, se ela sequer não pode mais optar e se seu sofrimento físico é imenso, alguém próximo deverá decidir. Não se trata somente de discutir o que é a vida humana, um tema polêmico onde religiões e ciências discordam radicalmente. O verdadeiro fulcro do problema é o que é uma vida humana com dignidade em condições aceitáveis, mesmo que socialmente injustas. Nisto, ateus e crentes podem mais facilmente estar de acordo, isto se forem homens ou mulheres de boa vontade. O filme Mar adentro problematiza, imitando a vida que corre pelos leitos das mídias de nosso tempo. Além de sua beleza plástica, o filme demonstra que nem tudo está perdido no horizonte das indústrias culturais contemporâneas. Ainda é possível, neste conturbado e altamente lucrativo ramo dos negócios, ver algo que contribui para a nossa humanização. A barbárie não consegue ser absoluta e controlar completamente as artes e as culturas atuais. |
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