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La insignia
24 de setembro de 2004


Quem seqüestrou as duas Simonas?


Naomi Klein e Jeremy Scahill (*)
Outras Palavras. Brasil, setembro de 2004.

Tradução:Tiago Soares


Expectativa e comoção tomaram a Itália, e se espalharam pelo mundo, desde a tarde de quarta-feira, 22/9. Duas supostas organizações islâmicas, ambas desconhecidas -os "Seguidores de Al-Zawahri" e a "Organização Jihad Islâmica"- publicaram mensagens na internet assumindo o seqüestro de Simona Torretta e Simona Pari, duas ativistas pela paz italianas levadas de sua casa, em Bagdá, semanas antes. Também anunciaram a decapitação das reféns. As afirmações, de origem obscura e não confirmadas até quinta à noite, consternaram os movimentos pela paz na Itália, mobilizados desde o início do episódio pela libertação das duas Simonas, e dos dois iraquianos levados com elas.

A autoria dos crimes permanece envolta em mistério. No texto abaixo - escrito antes do anúncio da alegada decapitação-- Naomi Klein e Jeremy Scahill levantam, com base em fatos muito concretos, uma suspeita terrível. Elas perguntam: e se o crime tiver sido cometido por serviços de espionagem norte-americanos, interessados em desacreditar o movimento pacifista e justificar o recrudescimento da violência contra os iraquianos?


Quando Simona Torretta retornou a Bagdá em março de 2003, bem em meio ao "choque e pavor" dos bombardeios aéreos, seus amigos iraquianos consideraram-na louca ao lhe dar as boas vindas. "Eles estavam tão surpresos ao me ver. Disseram, 'por que você está vindo pra cá? Volte para a Itália. Você é louca?'".

Mas Torretta não voltou. Ela permaneceu durante toda a invasão, dando continuidade ao trabalho humanitário iniciado em 1996, quando visitou o Iraque pela primeira vez, na companhia da ONG anti-sanções "Uma Ponte para Bagdá". Quando Bagdá caiu, mais uma vez Torretta decidiu permanecer, desta vez trazendo água e remédios para os iraquianos que sofriam sob a ocupação. Mesmo depois que os guerrilheiros da resistência passaram a ter estrangeiros como alvo, o que levou à fuga da maioria dos jornalistas e trabalhadores vindos de outros países, ela mais uma vez retornou. "Não posso permanecer na Itália", disse a documentarista, de 29 anos.

Hoje, a vida de Torretta corre perigo, assim como a de outra italiana que a acompanhava no trabalho humanitário, Simona Pari, e as de seus colegas iraquianos, Raad Ali Abdul Azziz e Mahnouz Bassam. Oito dias atrás, os quatro foram seqüestrados sob a mira de armas em seu lar-escritório em Bagdá, tendo sumido sem qualquer notícia desde então.

A quem interessa o crime?

A falta de comunicação direta por parte dos seqüestradores alimenta a controvérsia política em torno do incidente. Defensores da guerra fazem uso do ocorrido para pintar os pacifistas como ingênuos, gente que apóia candidamente uma resistência iraquiana que responde à solidariedade internacional com seqüestros e decapitações. Em meio a tudo isso, um número cada vez maior de líderes islâmicos sugere que o ataque repentino à ONG não foi obra dos mujahidim, mas de agências estrangeiras de inteligência interessadas em desacreditar a resistência.

Nada a respeito deste seqüestro segue o padrão das outras abduções, em sua maioria ataques oportunistas em trechos de estrada mais traiçoeiros. Torretta e seus colegas foram friamente caçados em seu próprio lar. Além disso, enquanto os mujahidim do Iraque são cuidadosos ao esconder suas identidades, assegurando-se de que seus rostos estejam bem envolvidos por xales, estes seqüestradores mostravam suas caras, sem barba, alguns em ternos de homens de negócios. Um dos assaltantes era chamado pelos outros de "senhor".

Estranhas circunstâncias

No Iraque, as vítimas de seqüestros têm sido, em sua esmagadora maioria, homens. Mas, neste, três dos quatro seqüestrados eram mulheres. Testemunhas dizem que os funcionários do edifício foram interrogado pelos pistoleiros até que ambas Simonas fossem identificadas pelo nome; e que uma mulher iraquiana, Mahnouz Bassam, foi arrastada pelo véu, gritando, uma chocante transgressão religiosa para um ataque supostamente executado em nome do Islã.

Mais extraordinário era o tamanho da operação: em vez de executado como normalmente, por três ou quatro guerrilheiros, vinte homens armados seguiram até a casa em plena luz do dia, aparentemente com pouco medo de ser pegos. A operação, realizada a poucos quarteirões da Zona Verde, uma área altamente patrulhada, ocorreu sem qualquer interferência da polícia iraquiana ou do exército dos EUA -- embora a revista norte-americana Newsweek tenha informado que "aproximadamente 15 minutos depois, um comboio de Humvees (veículo utilizado pelo exército norte-americano) passou a cerca de um quarteirão de distância".

É bom atentar também para as armas utilizadas. Os atacantes estavam armados com AK-47s, rifles, pistolas com silenciadores e disparadores de choque elétrico - algo bem distante do Kalashnikov enferrujado padrão utilizado pelos mujahideen. O mais estranho de tudo é este detalhe: testemunhas disseram que vários dos seqüestradores vestiam uniformes da Guarda Nacional Iraquiana e tinham se identificado como a serviço do primeiro-ministro em exercício, Ayad Allawi.

A suspeita que a mídia esconde

Um porta-voz do governo iraquiano negou que o escritório de Allawi estivesse envolvido. Mas um porta-voz do ministério do interior, Sabah Kadhim, concordou que os seqüestradores "usavam uniformes militares e coletes à prova de balas". Seria este então um seqüestro realizado pelas forças de resistência ou uma operação policial secreta? Ou seria algo pior: um renascimento dos desaparecimentos promovidos pelo mukhabarat (serviço secreto) de Saddam Houssein, nos quais agentes capturariam inimigos do regime dos quais nunca mais se teria notícias? Quem teria executado uma operação tão coordenada -- e quem se beneficiaria de um ataque a esta ONG anti-guerra?

Na segunda-feira, a imprensa italiana passou a divulgar uma possível resposta. Um xeque membro da principal organização clerical sunita do Iraque, Abdul Salam al-Kubaisi, disse a repórteres em Bagdá ter recebido a visita de Torretta e Pari um dia antes do seqüestro. "Elas estavam com medo", contou o clérigo. "Disseram-me que alguém as havia ameaçado". Perguntado sobre quem estaria por trás das ameaças, al-Kubaisi respondeu: "suspeitamos que seja alguma agência de inteligência estrangeira".

Culpar a CIA ou o Mossad por ataques impopulares vindos das forças de resistência é papo comum em Bagdá. Vinda de Kubaisi, porém, a reivindicação ganha peso raro; ele tem ligações com setores dos grupos de resistência e mediou a libertação de vários reféns. As alegações do xeque foram largamente noticiadas pelos meios de comunicação árabes, bem como na Itália -- mas estiveram ausentes da imprensa de língua inglesa.

A maior operação da CIA desde o Vietnã

O medo de serem rotulados como teóricos de conspiração faz com que jornalistas ocidentais tenham ojeriza a conversas sobre espiões. Mas espiões e operações secretas não são conspiração no Iraque -- são uma realidade presente a cada dia. De acordo com o diretor assistente da CIA, James L. Pavitt, "Bagdá é palco para a maior operação da CIA desde a guerra do Vietnã", com algo entre quinhentos e seiscentos agentes em área. O próprio Allawi é espião de longa data, tendo já trabalhado com o MI6, a CIA e o mukhabarat, especializando-se nem dar sumiço em inimigos do regime.

A ONG "Uma Ponte para Bagdá" não faz concessões em sua oposição ao regime de ocupação. Durante o cerco a Falluja, em abril, a entidade coordenou missões humanitárias bastante arriscadas. Isso quando o exército dos EUA havia fechado a estrada para Falluja e banido toda a imprensa - ações que preparavam terreno para que a cidade fosse punida pela matança hedionda de quatro mercenários da empresa Blackwater. Em agosto, quando marines dos EUA cercaram Najaf, "Uma Ponte para Bagdá" esteve novamente presente num local onde as forças de ocupação não queriam qualquer testemunha. E, no dia antes de seu seqüestro, Torretta e Pari disseram a Kubaisi que planejavam outra missão de alto-risco em Falluja.

Nos oito dias desde seu seqüestro, todas as fronteiras culturais, religiosas e geográficas foram cruzadas por apelos que pedem sua libertação. O grupo palestino Jihad Islâmica, o Hizbullah, a Associação Internacional de Estudiosos Islâmicos e vários grupos de resistência iraquianos expressaram seu ultraje. Um grupo de resistência em Falluja declarou que o seqüestro sugere a "colaboração de forças estrangeiras". Algumas vozes são, ainda, eloqüentes em sua ausência. Na Casa Branca e no escritório do primeiro ministro, Ayad Allawi, nenhuma palavra foi dita.

Sabemos do seguinte: se essa captura de reféns acabar em derramamento de sangue, Washington, Roma e seus substitutos iraquianos serão rápidos em usar a tragédia para justificar a ocupação brutal -- uma ocupação à qual Simona de Torretta, Simona de Pari, Raad Ali Abdul Azziz e Mahnouz Bassam se opuseram pondo em risco suas próprias vidas. Resta-nos apenas indagar se não foi este o plano todo o tempo.


(*) Jeremy Scahill é ativista da ONG "Democracy Now", jornalista free-lancer e colaborador de rádios e TVs independentes nos EUA. Naomi Klein, escritora, é autora de "No Logo" e "Cercas e Janelas".



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