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| 25 de setembro de 2004 |
Do outro lado da Bienal
Rita Freire
A Bienal Internacional de São Paulo, que abre agora sua 26 edição, sempre foi resultado de uma importante mobilização de recursos públicos para a promoção das artes plásticas: mais de R$ 20 milhões este ano, somados R$ 19 milhões do governo federal e complementos de estatais como a Petrobrás.
Entra também, com mais um quinhão honroso, a Prefeitura Municipal de São Paulo, que oferece a sede no Ibirapuera, graciosamente, e injeta R$ 2,5 milhões para manter a instituição funcionando durante o ano. Enfim, o povo do Brasil pode se orgulhar de sustentar um evento que, regularmente, influencia o panomara internacional das artes, selecionando, consagrando ou celebrando valores. Seria de supor que a orquestração de um momento tão decisivo estivesse sob orientação principal de um conselho de artistas, em nome da sociedade, e não da iniciativa privada -- que aparentemente não gasta na Bienal muito mais do que o necessário para reforçar suas marcas e logotipos. Por conta de um conselho artístico deveriam estar os critérios para identificação e promoção do que melhor se produz no Brasil, além de convidados internacionais. Nesta edição da Bienal,um evento paralelo resultante das mobilizações iniciadas em 2003 por artistas visuais brasileiros fará o público se dar conta de que a história não tem sido bem assim. Longe do Ibirapuera Um dia depois de a Bienal abrir as portas no Parque do Ibirapuera, uma grande exposição na antiga Casa das Retortas, na região central da cidade, convidará o público para ver um pouco da arte brasileira que não cabe no evento oficial. O I Salão Aberto Paralelo chega com o charme do evento homônimo que acompanha as Bienais de Veneza e contrasta com a organização da Bienal de São Paulo, a começar pelo quilate de seu conselho. Nomes como Maria Bonomi, Aldemir Martins, Guto Lacaz, Mario Gruber, Vania Toledo e José Roberto Aguilar no Conselho do I Salão Aberto chamam a atenção por brilhar mais que o seu equivalente na exposição oficial, onde as estrelas são empresários e banqueiros. A iniciativa que esses artistas notáveis promovem mostrou importância bastante para que a própria Bienal tenha decidido abençoá-la, indicando um nome para compor sua curadoria quíntupla (os outros quatro curadores do salão foram eleitos por artistas de todo Brasil). Acentos tomados A história que o público visitante passará a conhecer melhor, com a realização do salão, é que as cadeiras dos artistas no Conselho de Arte Cultura da Fundação Bienal de São Paulo lhes foram tiradas durante a ditadura militar no Brasil, época em que os estatutos foram modificados e os acentos cedidos aos dirigentes do setor privado, que não os deixaram mais. Passam por eles os critérios e a seleção de países para figurar no evento que altera a cotação internacional de seus artistas e obras, projeta produções nacionais escolhidas, estabelece dividendos mercadológicos. O I Salão Aberto no Brasil vai mostrar que o mundo das artes quer de volta o lugar ocupado pelo jogo do mercado, e procura a aliança do público. "Nós, artistas visuais, vimos nossas conquistas sumirem durante os anos de exceção e cabe a nós readquirí-las...Com a ditadura a voz se perdeu. Agora, estamos aprendendo outra vez a falar, a discutir, a dialogar". A declaração faz parte de um manifesto que está na origem da proposta do salão aberto. Seleção alternativa O critério de participação no I Salão Aberto acabou criando uma trilha alternativa, ao tentar evitar artistas já consagrados e conduzir diretamente aos talentos que o mercado talvez rejeite ou não tenha ainda descoberto: artistas com até 35 anos -- geralmente considerados pouco maduros; ou que não fizeram mais do que três exposições individuais nem tiveram oportunidades em mais do que cinco exposições coletivas. "Hoje, para que o artista tenha espaço, ele deve se adaptar ao conceito de arte dos críticos e curadores, correndo risco de ficar preso aos rótulos", diz um dos curadores do salão, Antônio Peticov. A ideia dos organizadores da exposição na Casa das Retortas é "oferecer uma radiografia da produçao brasileira sem interferência externa". As inscrições para o I Salão Aberto foram feitas entre 26 de julho a 31 de agosto, com apoio de instituições regionais e nacionais, como a Funarte, em todo país, "evitando privilegiar o eixo Rio-São Paulo", como explica a diretora de Difusão, Edna Prometheu. De 461 artistas inscritos, todos com direito a votar em curadores para a exposição, cerca de 100 foram selecionados para o salão, resultando ao mesmo tempo em mostra e mapeamento da atual produção brasileira nas áreas de pintura, escultura, gravura, desenho, fotografia e foto-imagem, instalação, intervenção, performance, vídeo, imagem digital e "outras linguagens consideradas fronteiriças ou híbridas com as novas mídias". Um ano de barulho A exposição, que será aberta a convidados no domingo, e ao público em geral na segunda, é o produto mais recente da mobilização iniciada pela Cooperativa de Artistas Visuais do Brasil, criada em 2003 para tentar defender um dos mais importantes espaços de exposições independentes da cidade, a Casa das Rosas, desativada pelo governo do Estado de São Paulo a revelia dos artistas. Depois de muito barulho na Avenida Paulista, onde fica a Casa das Rosas, e de conseguir, pelo menos, que o lugar não fosse transformado em livraria (sua destinação permanece assunto não resolvido), os cooperados passaram a reivindicar o espaço perdido ou negado na gestão das artes visuais do Brasil, especialmente as Bienais de São Paulo e do Mercosul. "Constatamos o encolhimento do número de artistas escolhidos e sentimos em nossa carne uma exclusão cada vez maior... Mas o que mais nos machuca é outro tipo de exclusão - o da não participação na formulação das normas que regem cada evento. Principalmente quando esses eventos são beneficiados por leis de incentivo fiscal, com dinheiro público, com o nosso dinheiro" , diz um documento dos artistas ativistas. Ares de mudança Algumas novidades que os artistas festejam na Bienal deste ano é a gratuidade do acesso para o público, sem distinção e durante todos os dias "aparentemente uma exigência do Ministério da Cultura."Não deveriam faltar mecanismos para garantir que a sociedade brasileira que financia e promove a grande mostra tivesse pleno direito de usufruir o que é exibido nela", diz Edna Prometheu. Outra novidade considerada bem vinda é a formação obrigatória de monitores entre estudantes de arte, para atender e orientar o público" e aproveitar os preparativos da Bienal como investimento na formação dos jovens estudantes. Com apoio formal do Ministério da Cultura, da Prefeitura de São Paulo, da 26 Bienal e da Funarte, os rebeldes da Bienal apostam mais no diálogo que no confronto. "Temos uma proposta para a Bienal de São Paulo, para a Bienal do Mercosul e para todos os outros grandes eventos", afirmam os organizadores. O cerne da proposta é a representatividade dos artistas brasileiros no comando de tudo isso. |
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