| Mapa del sitio | Portada | Redacción | Colabora | Enlaces | Buscador | Correo |
|
|
|
| 1 de outubro de 2004 |
|
EUA em guerra Espólios de uma outra guerra
Outras Palavras. Brasil, outubro de 2004. Tradução: Tiago Soares.
"Guerras, conflitos - é tudo business", suspira Monsieur Verdoux no filme de mesmo nome dirigido por Charlie Chaplin, em 1947. Poucos são os que precisariam ser convencidos dos vínculos entre as corporações norte-americanas que se fartam dos bens de Estado do Iraque e a máquina militar que forçou a abertura do país ao mercado global. Bem menos conhecida, porém, é a existência de um processo bastante similar acontecendo em outra parte do mundo. Um lugar onde, até bem pouco tempo atrás, bombas caiam de B52s envolvidos numa outra missão de "libertação".
Segundo a versão ocidental vigente, a falha da delegação sérvia em assinar o tratado de paz de Rambouillet teria sido o gatilho para o bombardeio -- liderado pelos EUA -- sobre a Iugoslávia, em 1999. Essa história, porém, segura-se tanto quanto a fábula segundo a qual a o Iraque teria sido o responsável pela invasão sofrida no último ano por sua falta de cooperação com os inspetores de armas. O anexo secreto B do acordo de Rambouillet -- responsável pela ocupação militar de toda a Iugoslávia -- teria sido, segundo admitido frente ao comitê de defesa do Parlamento Inglês por seu ministro do exterior, Lord Gilbert, inserido deliberadamente para provocar rejeição em Belgrado. Também bastante revelador quanto à "abrangência" dos interesses ocidentais é o capítulo quarto do acordo, totalmente voltado à economia de Kosovo: seu Artigo I, pede uma economia de livre mercado; e, em seu artigo II, a privatização de todos os bens de propriedade do governo. Na época, a retardatária Iugoslávia -- então não-membro do FMI, nem do Banco Mundial, da OMC ou do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento -- era a última economia do centro-sul da Europa ainda não-colonizada pelo capital ocidental. Predominavam ainda as "empresas cooperativas", modelo de autogestão por trabalhadores da qual Tito foi pioneiro. A Iugoslávia tinha empresas públicas de petróleo, mineração, automóveis e tabaco, 75% das quais estatais ou cooperativas. Em casos de privatização, uma lei de 1997 estipulava que, em casos de privatização, um mínimo de 60% das ações deveria ser alocado em favor dos trabalhadores da companhia em questão. Isso deixou o alto clero do neo-liberalismo bem pouco contente. Na reunião de Davos de 1999, Tony Blair mostrou-se bem pouco entusiasmado com Belgrado. Sua indignação, porém, tinha bem menos a ver com situação na qual se encontrava Kosovo, que com a relutância de Belgrado em embarcar em programas de "reforma econômica" -- o que, na linguagem da nova ordem mundial, significa a venda dos bens de Estado e uma economia administrada segundo o interesse das multinacionais. Na campanha de bombardeio empreendida pela OTAN, em 1999, foram as companhias estatais (em vez das instalações militares) os alvos específicos das nações mais ricas do mundo. A OTAN destruiu apenas 14 tanques -- no mesmo período, 372 indústrias foram alvejadas (incluindo uma montadora de carros Zastava de Kragujevac, deixando milhares de pessoas desempregadas). Nenhuma companhia privada ou estrangeira foi bombardeada. Após a retirada de Slobodan Milosevic, o ocidente conseguiu finalmente que um governo empossado em Belgrado tocasse as tão desejadas reformas "fast-track". Um dos primeiros passos da nova administração foi a revogação da lei de privatização. Investidores estrangeiros podiam agora adquirir até 70% das ações de companhias privatizadas - aos trabalhadores, foram reservados apenas 15%. Feito isso, o governo abraçou os programas do Banco Mundial, pondo fim de uma vez por todas à independência financeira do país. Enquanto isso, como concluiu o diário The New York Times, "um prêmio de guerra resplandecente" esperava pelos conquistadores. Kosovo tem a segunda maior reserva de carvão da Europa, além de enormes depósitos de lignite, chumbo, zinco, ouro, prata e petróleo. A cereja do bolo era o gigantesco complexo minerador de Trepca - estimado, em 1997, em US$ 5 bilhões. Logo após a guerra, seus trabalhadores e administradores foram expulsos do complexo por mais de 2.900 soldados da OTAN armados com balas de borracha e gás lacrimogêneo, numa extraordinária manobra de pilhagem. Passados cinco anos do ataque da OTAN, a Kosovo Trust Agency (KTA) -- órgão que, sob jurisdição da missão da ONU em Kosovo (Unmik, na sigla em inglês), tem sido responsável pelo processo de privatização no país -- é "grata em anunciar" o programa de privatização das cerca de 500 cooperativas sob seu controle. A data final para os lances ocorreu semana passada: foi batido o martelo para 10 companhias, incluindo gráficas, um centro de compras, um negócio agrícola e uma fábrica de refrigerantes. O complexo minerador e siderúrgico Ferronikeli, com capacidade de produção de 12.000 toneladas de níquel ao ano, está sendo vendido separadamente, com leilões marcados para o dia 17 de novembro próximo. Para tornar as cooperativas mais atraentes aos investidores estrangeiros, a Unmik alterou o modelo de apropriação da terra em Kosovo, permitindo a concessão, pela KTA, de empréstimos de terra de duração de 99 anos. Os contratos, que permitem a transferência ou utilização dessas terras para empréstimos ou seguros, têm sido classificados, até mesmo pelo governo pró-ocidental de Belgrado, como "roubo de propriedade pertencente ao Estado". Formidáveis oportunidades serão garantidas às companhias ocidentais interessadas em avançar sobre o país, tudo dentro de um ambiente garantido pelo KTA como "bastante amigável ao investimento". São poucas, porém, as conversas sobre os direitos dos donos morais das empresas - os trabalhadores, administradores e cidadãos da antiga Iugoslávia, cuja propriedade foi efetivamente tomada em nome da "comunidade internacional" e da "reforma econômica". Segue no mesmo ritmo a tomada corporativa das ruínas de Bagdá e Pristina, Enquanto isso, nem a "libertação" do Iraque, nem o bombardeio "humanitário" da Iugoslávia, conseguem mostrar que o cínico anti-herói de Chaplin estivesse errado. (*) Neil Clark é escritor e jornalista especializado em questões relativas aos Bálcãs. |
||