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| 20 de outubro de 2004 |
A foto de Lula nu
Mário Maestri
A divulgação pelo Correio Brasiliense, em 17 de outubro, de foto do jornalista Vladimir Herzog, nu, no sinistro DOI-Codi, na rua Tutoia, em São Paulo, estarreceu o país pela violência. O jovem diretor de jornalismo da TV Cultura foi possivelmente retratado, em 25 de outubro de 1975, em situação de profunda humilhação, momentos antes de ser torturado e executado.
Na época, o governo ditatorial e a alta oficialidade do Exército afirmaram que Herzog suicidara-se na prisão do quartel, onde comparecera por espontânea vontade, após ser convocado, no dia anterior. Conceituado profissional, Vladimir Herzog era membro do clandestino Partido Comunista Brasileiro, que se mantivera sempre à margem da luta armada contra a ditadura. Não menos estarrecedora foi a nota divulgada pelo alto comando do Exército, após a veiculação da foto. Nela, afirma-se que o Exército brasileiro, com "as demais Forças Armadas, a Polícia Federal e as polícias militares e civis estaduais" constituíram "força de pacificação". Portanto, as "medidas tomadas foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo, optaram pelo radicalismo e pela ilegalidade [...]". Em palavras pobres, justifica-se literalmente a tortura e a execução de sindicalistas, intelectuais, trabalhadores, estudantes, por suas idéias e militâncias, democráticas ou socialistas. Uma visão de mundo que não deve causar surpresa. Tenentes e jovens capitães que participaram direta ou indiretamente dos crimes da ditadura, são hoje majores e generais na ativa. As forças armadas brasileiras jamais foram expurgadas de seus assassinos e torturadores. Não menos indecente é a passividade diante da declaração do comando do governo Lula da Silva, mesmo daqueles que sofreram a repressão da ditadura ou tiveram companheiros aprisionados, torturados e mortos. Certamente a satisfação material e imaterial do gozo do poder justificou o simples muxoxo contra a inconveniência de uma alta oficialidade exibindo suas entranhas. Se a foto da humilhação fria e covarde de Vladimir Herzog feriu profundamente o senso de dignidade humana de todos aqueles que a tem no Brasil, a foto do governo Lula na mais profunda e nua complacência diante da justificativa oficial do crime cometido há três décadas, humilhou profundamente, mais uma vez, a Vladimir Herzog e a todo o país. (*) Mário Maestri, 56, é historiador e participou, como estudante, da resistência ao regime militar. Exilou-se, em de 1970-77, no Chile, México e Bélgica. E-mail: maestri@via-rs.net |
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