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| 17 de outubro de 2004 |
José Neumanne
Há uma diferença fundamental entre os grupos que tomaram de assalto a
chamada Música Popular Brasileira dos festivais de meados dos anos 60 -sendo os baianos do Tropicalismo e os mineiros do Clube da Esquina os mais
importantes deles- e a patota de nordestinos que chegou e se "arranchou" no
Sudeste: enquanto aqueles atuavam em grupo, defendendo-se uns aos outros
como se fizessem parte de uma confraria, estes mantiveram sua
individualidade artística e comercial. Nunca fizeram parte de um movimento,
embora tivessem mantido relações pessoais estreitas: Elba Ramalho e Geraldo
Azevedo foram casados, a exemplo de Amelinha e Zé Ramalho, que acompanhou
Alceu Valença, e de Rodger Rogério e Teti, do Pessoal do Ceará; Robertinho
de Recife tocou na banda de Raimundo Fagner e vamos parar por aqui, senão
isto vai terminar virando o poema Quadrilha, do mestre Drummond.
Quando, no fim do século passado, Belchior e eu planejamos escrever um livro para esclarecer a contribuição que essa patota deu ao mercado do espetáculo e à indústria fonográfica no Brasil, escolhemos um título sintético: Os violétricos. É que o fio comum na meada de todos era a fusion entre a viola dos repentistas nordestinos da infância de todos e a guitarra elétrica da adolescência de cada um. Eles cuidaram de transportar a viola ou rabeca dos poetas do sertão para os palcos dos grandes teatros do Sudeste. E o fizeram com empenho e engenho. O mamulengo e a cantriz - Cada um deles encarnou algum personagem do povo em sua imagem de astro. Alceu Valença, pernambucano de São Bento do Una, banca o amarelo das farsas populares, que Ariano Suassuna tornou clássicos do teatro acadêmico. Ele levou para o negócio do espetáculo a graça, os trejeitos e o estilo gestual de um tipo de teatro infantil festejado nas feiras livres do Nordeste, os bonecos de pano, vulgo mamulengos. Em Recife, rumo dos meninos do interior que queriam estudar, cruzou com o violonista Geraldo Azevedo, com quem passou a compor em parceria. E os dois produziram o álbum Quadrafônico (de 1972). O teatro também corre nas veias de Elba Ramalho, paraibana de Conceição de Piancó, no sertão, quase Ceará, e criada na cidade mais cosmopolita do interior nordestino, Campina Grande, a Rainha da Borborema, centro manufatureiro e comercial. Manufatureiro, uma ova! De fato, Campina Grande é o maior pólo de falsificação da região: lá, dizem as más línguas, fabrica-se dinheiro e se destila água de coco. A mocinha do sertão chegou, enturmou-se e foi logo entrando nos corais falados Cecília Meirelles e Manuel Bandeira, fundados e dirigidos pela professora de literatura Betinha Marinheiro. De Campina Grande para São Paulo, foi um salto. No desvario da Paulicéia, conheceu Luiz Marinho e participou, com ele e Tânia Alves, de um dos movimentos de teatro underground mais marcantes da história cultural brasileira - no comecinho dos anos 70, estrelou Viva o cordão encarnado em teatros da Brigadeiro Luiz Antônio e adjacências. No Rio, depois, fez parte do elenco da Ópera do Malandro, conheceu e ficou amiga de Chico Buarque. E foi então que a coriféia virou cantriz. É isso aí: cantora e atriz. Agora, uma pausa para refrescar o recreio. No começo dos anos 70, este escriba imodesto estava passando férias na casa dos pais, em João Pessoa, e resolveu comparecer a um espetáculo estreado por dois artistas de Campina Grande no Teatro Santa Rosa - Elba Ramalho e Tadeu Matias. Tadeu substituía Geraldinho Azevedo, à época marido e parceiro da menina do Vale do Piancó, no show Baião de Dois. Fui, vi, detestei e sapequei: "Elba Ramalho jamais será uma estrela". Este foi o título de meu comentário para o espetáculo, publicado no jornal A União dois dias depois. O texto, feito por encomenda do maestro Pedro Santos, que também detestara o que vira e ouvira, tinha sido inspirado na antipatia que me causara a excelente atriz virar uma mera imitadora de Gal Costa. Não tive humildade nem paciência para perceber como Elba se tornaria uma estrela maior justamente por levar aos palcos de classe média do Sudeste a tradição antes circunscrita aos forrós da periferia e defendida com competência e galhardia pela campinense Marinês. Mas tive a pachorra de me confessar um mau profeta ao assisti-la brilhar como poucas no céu da canção. O almuadem que berra aboios - Como Elba Ramalho, Raimundo Fagner nasceu muito perto de onde nasci (eu no sertão seco de Uiraúna, Paraíba, ele às margens do açude de Orós, no Ceará). Do sertão, migrou para Fortaleza e de Fortaleza para o universo batizado de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde virou ídolo cult, daqueles compositores mais lidos que ouvidos, ao lançar sua canção (em parceria com Belchior) Velas do Mucuripe pela patota do Pasquim, que tinha editora e selo. Essa canção seria gravada por Elis Regina e Roberto Carlos (é pouco ou quer mais?) e serviu de plataforma para lançar o astro de Orós num LP magistral, Manera frufru manera, de 1973. O disco contém as regravações antológicas do clássico nordestino O último pau de arara e do totem pop Nasci para chorar (Born to cry). Mas ficou conhecido mesmo por um plágio: uma fã lhe havia dado um poema que ele musicou: era Canteiros, de Cecília Meirelles, e ele não sabia. Gravada a canção, que faz sucesso até hoje, os herdeiros da poeta entraram na justiça e, durante anos, o disco foi uma raridade de colecionadores, até a família da autora entrar em acordo com o artista. Fagner é um compositor que gosta de poesia erudita (é parceiro de Ferreira Gullar, Florbela Espanca e agora Francisco Carvalho, entre outros) e de poesia popular (é o maior responsável por seu conterrâneo matuto Patativa do Assaré ter virado moda urbana), mas sua maior importância no panorama da MPB é como intérprete. Ele é um almuadem, aqueles pregoeiros muçulmanos que cantam orações, que berra aboios. E traduz como ninguém um sentimento sertanejo por excelência, a urgência. No rastro de suas pegadas, num programa de auditório da TV Record, Mixturação, produzido por Walter Silva, do Pick-up do picapau, e pelo empresário Mário Buonfiglio, surgiram artistas de primeira grandeza, tais como Nei Matogrosso (Secos & Molhados), Simone, Raul Seixas (o Raulzito da banda de Jerry Adriani), Marcus Vinicius & Anah (Dédalus), Pekim e o Pessoal do Ceará. Este bando, composto por Rodger Rogério, Teti e Ednardo, lançou Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem, em 1973, e logo se desfez. Mas Ednardo faz sucesso até hoje com Pavão misterioso, tema da telenovela global Saramandaia, escrita por Dias Gomes. O Chuck Berry do Brejo do Cruz - O sucesso de Fagner levou sua gravadora à época a apostar em seu talento de produtor de discos. O cearense tinha noção de que aquela patota estava mudando o rock, ao injetar nas veias do gênero americano doses maciças de poesia sertaneja. E quem fez isso com mais talento, sucesso e precisão foi o paraibano de Brejo do Cruz José Ramalho Neto. Na fazenda do avô, Zé ouvira violeiros pelejarem noites inteiras; e, em bandas de rock de João Pessoa, entre elas a lendária Os Quatro Loucos, fizera cover dos Beatles e dos Rolling Stones. Após gravar um disco mítico (Paêbiru: o caminho do sol, com Lula Côrtes) e de acompanhar Alceu Valença tocando viola sertaneja num festival da Globo (em Vou danado pra Catende), Zé teve gravada sua obra prima Avohai, primeiro por Vanusa e depois por ele mesmo num LP de estréia em que era acompanhado por Bezerra da Silva no zabumba e Elba no backing vocal. Zé Ramalho, o Chuck Berry de Brejo do Cruz, é um bicho bruto, um poeta intuitivo, puro, natural. Belchior, cearense de Sobral, lançado num LP com seu nome, que contém A palo seco, em 1974, conhece poesia erudita e popular como poucos. Mas essa erudição toda empalidece se comparada com o fato de ter ele escrito dois ícones do cancioneiro brasileiro em qualquer época: Como nossos pais e Velha roupa colorida, canções lançadas por Elis Regina, quando o autor era apenas um retirante. E, por falar em retirante, chegou a hora de este aqui se retirar. Inté! |
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