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| 24 de novembro de 2004 |
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EUA em guerra Bush, segundo ato
IPS/Envolverde, novembro de 2004.
Lisboa.- Começo com uma necessária autocrítica: me enganei! Previ, em público, a vitória de John Kerry. Mais ainda: a desejei, por considerá-la um bem para os Estados Unidos e o mundo. Principalmente porque a vitória de Kerry significaria a derrota de George W. Bush. Entretanto, a maioria dos norte-americanos decidiu, soberanamente, o contrário. Como democrata, devo inclinar-me perante esta vontade, quaisquer que tenham sido suas motivações, embora saibamos que pode ter havido interferência de fatores de duvidosa racionalidade, como o medo, uma informação deformada ou uma particular percepção dos interesses próprios e da realidade internacional.
Agora, Bush procura mostrar-se magnânimo e faz um chamado ao eleitorado democrático, mas não deixa espaço para ilusões sobre o prosseguimento de sua política. Confortado pela folgada vitória pessoal e pela maioria que obteve o Partido Republicano nas duas câmaras, nenhum obstáculo se antepõe a ele. Contudo, o líder da maior nação do mundo está agora convocado a resolver os enormes problemas que, em boa parte, criou durante seu primeiro mandato: Iraque, a imensa hostilidade do mundo árabe-muçulmano ferido em sua dignidade, o conflito israelense-palestino, o aumento previsível do terrorismo global, o exponencial déficit externo, a desconfiança, quando não a rejeição, do mundo em geral. O certo é que os Estados Unidos estão profundamente divididos em dois campos irredutíveis, extremamente diferenciados e de dimensões quase iguais. Trata-se de uma polarização geográfica, sociológica, cultural e política muito perigosa em termos de futuro. Os mapas da primeira eleição de Bush, e os da segunda, bem como os de algumas eleições anteriores, quase se sobrepõem. De um lado estão, majoritariamente, os Estados do meio oeste e os do Sul; do outro, os Estados das duas costas - leste e oeste - e a região dos Grandes Lagos. E a América do Norte rural, tradicionalista, ultra-religiosa, das cidades do interior, fechadas em sim mesmas, em contraposição à das grandes cidades cosmopolitas, das indústrias de ponta, das ciências, das artes, do conhecimento e das mais reputadas universidades. A vitória de Bush está ligada à obsessão pelo terrorismo, alimentada desde os atentados de 11 de setembro, à fixação malsã nos problemas de segurança e, finalmente, ao medo, que por irracional que seja, os meios de comunicação converteram em um sentimento avassalador. Também contou uma certa preocupação moralista - em crescimento - e uma enorme participação das religiões e dos evangélicos em particular. Chama a atenção o fato de que, em um país como os Estados Unidos, os desastrosos resultados econômicos - desemprego, aumento do preço do petróleo e o ingente déficit - não tenham tido peso maior nas opções eleitorais. E agora? Ninguém pode ignorar que para centenas de milhões de pessoas no resto do planeta a vitória de Bush constitui uma profunda decepção. No mundo muçulmano, na América Latina, na África, em vastas extensões da Ásia e na Europa. Sei que podem me dizer que isto não tem importância, pois só o que conta é o voto dos norte-americanos. Respondo que, em um mundo globalizado, os grandes movimentos de opinião condicionam em grande parte, como se viu, as posições dos governos e especialmente dos governos ocidentais, que operam em sociedades abertas. Portanto, se Washington mantiver a arrogante política imperial dos últimos quatro anos, deverá enfrentar grandes dificuldades e confronto, inclusive na frente interna. Bush será capaz de reconhecer a necessidade de mudar sua política e voltar ao multilateralismo, a um diálogo aberto com a Europa, a uma presença participativa nas Nações Unidas, à aceitação do Tribunal Penal Internacional, ao respeito dos direitos humanos e a uma política ambiental coerente? Perceberá as reticências da Rússia de Putin - aparentemente tão amiga de Bush - e as exigências crescentes da China? Poderá conviver pacificamente com o Irã? Sinceramente, tenho sérias dúvidas. Oxalá me equivoque, pois, do contrário, os próximos quatro anos serão extremamente difíceis, violentos e penosos, tanto para os Estados Unidos como para o mundo. (*) Mário Soares foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996. |
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