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La insignia
12 de março de 2004


Espanha: Atentados em Madrid*

O silêncio mortal de Madrid


__Especial__
Madrid, 11-M
Eduardo Dâmaso
Público. Portugal, 12 de março.


Atocha: O que viu António Manãs

Madrid.- Para chegar à estação ferroviária de Atocha é preciso atravessar o centro de Madrid. Mas ao princípio da tarde de ontem também era necessário enfrentar um silêncio de morte. Nunca a Gran Via tinha conhecido tamanha quietude em hora de ponta.

Pairava uma estranha mistura entre o silêncio dos cemitérios e da raiva contida. Os carros de um trânsito menos caótico do que o habitual não apitavam. As pessoas não sorriam e caminhavam silenciosas ou sussurravam entre si.

Num passeio próximo da estação juntavam-se grupos dispersos. Em Atocha via-se o movimento próprio das ressacas das tragédias: polícias andavam para cá e para lá, bombeiros e homens da protecção civil limpavam material e gritavam instruções uns aos outros.

Num dos grupos de homens que conversavam baixinho destacava-se o desalento de António Manãs. Não tinha perdido nenhum familiar nos atentados. Os seus estavam todos contactáveis e reagrupados a meio da manhã.

O mal de António Manãs era mais o que tinha visto logo pelas sete e meia da manhã. A sua casa é próxima da linha ferroviária onde explodiu um dos comboios e foi abalada pelo estrondo. Vidros partidos, portas danificadas, móveis dispersos pela casa. Saiu de imediato e viu o fumo que anunciava a tragédia.

António Manãs e alguns vizinhos tiveram o impulso de correr de imediato para o local da explosão, saltaram um muro da Renfe e encontraram o inferno que se adivinhava: ferros retorcidos, corpos humanos, gente a gritar, bocados humanos espalhados em redor.

"Nunca mais vou esquecer, nunca mais me vai abandonar a dor de toda esta gente... a minha dor também", diz o operário António Manãs, que emprestou mãos e braços para tirar feridos que agonizavam sob o peso de homens, mulheres e jovens já mortos. "Eram corpos sobre corpos..."

Hospital Gregório Maranõn:
Maria Carmen não dá notícias

Jesus Guerrero não sabia onde meter as mãos. Ora no bolso, na cara ou agarrando a cabeça, o homem não escondia a ansiedade e o nervosismo. Junto às urgências do hospital Gregório Maranõn esperava há uma hora por notícias de Maria Carmen, sua mulher e mãe do seu único filho.

Administrativa numa empresa de Las Rozas, Maria Carmen tinha saído de manhã cedo da localidade de S.Fernando no comboio que a conduziria para a estação de Atocha, onde mudaria para o seu destino de trabalho. "Tenho tanto medo que ela não me chegue a casa hoje...", confessava Jesus Guerrero que andava a meio da sua investigação pelas listas dos mais de mil feridos entrados nas duas dezenas de hospitais de Madrid que receberam os feridos dos atentados.

Jesus Guerrero já tinha passado por meia dúzia de hospitais e não queria admitir a si próprio que, aos poucos, os seus passos se encaminhavam para o abismo final, traduzido na sala mortuária improvisada no recinto da Feira de Madrid, onde se recolhiam os cadáveres e se procediam às identificações.

O simples pensamento dessa possibilidade abria-lhe a comporta das lágrimas e balbuciava umas palavras sobre o filho de dez anos que estava entregue a uns parentes. "Não consigo pensar nos olhos do meu filho se não lhe levar hoje a mãe..."

Ao lado de Jesus Guerrero concentrava-se um grupo de pessoas que na sua maioria já sabiam notícias dos seus. Uns estavam internados em estado grave, outros rejubilavam ao saber que familiares seus iriam receber alta. Já anoitecia quando finalmente Jesus Guerrero soube que a sua mulher não estava ali internada.

Saiu cabisbaixo a chorar e dizendo baixinho que já não aguentava mais. Meteu-se num carro e limitou-se a dizer a um amigo que o acompanhava. "Chega, vou para a Ifema..." Traduzindo: Ifema é a designação mais corrente para o recinto de feiras Juan Carlos I, ontem a gigantesca morgue de Madrid.

Parque Juan Carlos I
Engarrafamento de carrinhas funerárias a caminho da sala da morte

179 cadáveres, 50 identificados, 6 bolsas de plástico com restos mortais. Gente, muita gente de caras fechadas, lágrimas a correr silenciosamente, outros de gestos delicados e perguntas sussurradas. Não podia haver relação mais dramática entre o balanço provisório da tragédia e o ambiente que se vivia ontem às 18.00 no recinto de feiras Juan Carlos I (Ifema) e imediações onde foi montada uma sala mortuária gigante. Aqui, foi montada também uma sala de apoio psicológico onde mais de 100 profissionais prestaram auxílio aos familiares das vítimas.

O acesso à sala da morte estava rigorosamente restringido a funcionários, psicólogos, polícias e agências funerárias. O trânsito das carrinhas de transporte de urnas era, aliás, uma das imagens mais impressivas da tarde de ontem no recinto, entrecortada com episódios de maior comoção protagonizadas por pessoas que acabavam de receber a confirmação da morte de pessoas queridas. As carrinhas funerárias chegaram a enfileirar em pequenos engarrafamentos que davam uma dimensão irreal ao local.

Ao longo de toda a tarde foram vários os episódios de quebra emocional ocorridos com familiares de vítimas que tiveram de ser assistidas no local ou transportadas para hospitais. Já noite cerrada em Madrid, um homem saía aos gritos da sala da morte: " Meu filho, meu filho, que não te verei mais..."


(*) Artículo aparecido en Público, de Portugal. La redacción de este diario recuerda a sus lectores que en nuestras páginas sólo tienen cabida los textos externos que cuenten con los debidos permisos de reproducción de autores y/o publicaciones. Cualquier excepción, como la actual, se hace siempre en virtud del carácter no lucrativo de La Insignia, ante situaciones de evidente interés informativo o social y a condición de no provocar perjuicio alguno a la fuente de origen.



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