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| 30 de junho de 2004 |
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EEUU en guerra Império e resistência
Outras Palavras. Brasil, junho de 2004.
Durante o ano passado, eu estive preocupado, assim como muitos de nós, com uma coisa: Iraque. O Iraque, como Bob Woodward frisou em seu livro Plano de Ataque, tem "sugado todo o oxigênio do sistema". É o evento central dos nossos tempos, a nossa Guerra Civil Espanhola, nosso Vietnã, e tudo mais parece ter sido colocado em compasso de espera, tanto aqui quanto em outras partes do mundo. Até que se resolva o terrível drama criado pela invasão e ocupação dos EUA naquele país.
Quando George W. Bush decretou o fim da Guerra a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, em maio do ano passado, Washington parecia estar no auge de seu poder. Muitos comentaristas chamavam a Casa Branca de "Nova Roma", em meio a sentimentos de medo e revolta. Aquela cena foi, como apontou o professor canadense Anthony Hall, a celebração do poder - um espetáculo cuja coreografia foi retirada dos roteiros do hollywoodiano Independence Day e de O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl. Na cena de abertura de Triunfo da Vontade, Adolph Hitler é mostrado aproximando-se, pelo ar, das manifestações do Partido Nazista em Nuremberg, em 1934. O presidente Bush iniciou seu grande espetáculo a bordo do Abraham Lincoln tocando o convés da embarcação num caça S3B Viking. Adornando o pára-brisas do porta aviões, as palavras "Comandante em Chefe". O presidente dos EUA surge, então, em uniforme completo de piloto, evocando o imaginário das dramáticas cenas finais de Independence Day. O presidente norte americano lidera, do cockpit de um pequeno jato, uma coalizão global contra alienígenas que planejam tomar o planeta. Mas a sorte é instável, particularmente em tempos de guerra. Hoje, Bush e seus conselheiros devem estar desejando não ter arranjado aquele espetáculo fotográfico de 1º de maio. Dois eventos que se sucederam soletraram a palavra desastre para a empreitada norte-americana: a resistência na cidade de Fallujah e o escândalo na prisão de Abu Ghraib, envolvendo abuso sexual de prisioneiros, em Bagdá. Abu Ghraib e o Exército dos EUA Abu Ghraib ilustra de tal forma clara a falência moral da guerra de Bush, e a isso não tenho nada a acrescentar. Tudo o que queria dizer é que o episódio de Abu Ghraib e o modo com que se tratou o escândalo é um ponto de inflexão para o Exército dos EUA no Iraque. O jogo aparente do pessoal de Bush é limitar os acusados - discipliná-los e puni-los em função dos abusos - a uma pequena lista de homens e mulheres e talvez alguns oficiais. O abuso será atribuído a algumas poucas maçãs podres e não será considerada "sistêmico". A culpa não subirá a cadeia de comando e não chegará às lideranças civis que planejaram toda a invasão criminosa que criou as condições que levaram aos abusos. Quando alguns altos oficiais precisam ser sacrificados, como no caso o general Ricardo Sanchez, a estratégia parece ser descartá-los. Removê-los da vista do público, ao invés de julgá-los. O único problema desse tipo de tática é que ela pode salvar alguns altos militares e comandos civis, mas pode devastar o moral das tropas. Meu palpite é de que logo veremos o retorno das condições que desmoralizaram o Exército dos EUA no Vietnã. Lá, alguns homens passaram a matar seus superiores com granadas a partir do momento em que não viam mais sentido em arriscar suas vidas em uma guerra que perdera sua legitimidade ou simplesmente por raiva de seus superiores. Há registros de pelo menos 200 incidentes como estes no Vietnã. Até o momento, no Iraque, isso ocorreu apenas uma vez, quando um soldado jogou três granadas na direção de seus oficiais, em 23 de março de 2003. Talvez existam outros casos que não tenham sido relatados. E agora, o fato de se elegerem alguns bodes expiatórios em quem jogar a culpa pelo que aconteceu em Abu Ghraib talvez possa ser um convite a outros atos de rebelião de soldados desmoralizados, que encontram cada vez mais resistência em uma guerra na qual muitos não enxergam sentido algum. Fallujah: o ponto de inflexão Gostaria de deter-me um pouco mais sobre o significado de Fallujah. No começo de abril deste ano, a cidade tornou-se o ponto de inflexão da guerra no Iraque. Localizada uma hora a oeste de Bagdá, Fallujah abriga 300 mil habitantes às margens do Eufrates. Ao contrário da propaganda militar norte-americana, Fallujah nunca foi uma trincheira pró-Saddam Hussein. A cidade tornou-se um centro de resistência quando o exército reprimiu a tiros uma manifestação pacífica contra a presença estrangeira, em 29 de abril de 2003. Aquele massacre colocou a cidade contra os EUA, fazendo com que "sob ataque constante, as tropas dos EUA se retirassem da cidade", sob o pretexto de passar importantes funções de segurança à polícia iraquiana e defensores civis, de acordo com o Financial Times. No final de março de 2004, quatro mercenários dos EUA ligados à companhia de segurança Blackwater, que fora recrutada pelas forças armadas, foram atacados por membros da resistência iraquiana e tiveram seus corpos mutilados. Em uma decisão que será lembrada como uma das piores das autoridades de ocupação dos EUA, dois mil soldados cercaram Fallujah para capturar e punir os envolvidos no incidente. O vice-diretor de operações militares no Iraque, o general Mark Kimmit, prometeu uma "resposta esmagadora", dizendo: "Vamos pacificar aquela cidade". "Fallujah é cemitério dos norte-americanos", era o slogan desafiador repetido pelos moradores da cidade durante os meses de ocupação. No mês de abril, o lema virou realidade, com 102 combatentes norte-americanos mortos. Mas há um sentido maior nesta palavra de ordem: Fallujah se tornou o cemitério da política dos EUA no Iraque. A batalha pela cidade não havia terminado, em nove de abril, quando as forças dos EUA declararam uma "suspensão unilateral das operações da ofensiva". Mas a resistência iraquiana já havia vencido a batalha psicológica. Soldados de última hora, energizados apenas por sua coragem, foram capazes de lutar contra a elite das legiões coloniais dos EUA, mantendo-os fora da cidade. Mais ainda, tão frustrado ficou o comando dos EUA que autorizou ataques indiscriminados, levando à morte cerca de 600 pessoas, a maioria mulheres e crianças, de acordo com testemunhas. Transmitidos por televisões árabes, estes acontecimentos criaram profunda raiva que acabou sendo traduzida em apoio à resistência. Diante da carnificina e vendo os efeitos do ataque em massa a civis, o general britânico Michael Jackson, tratou de distanciar-se do banho de sangue: "Precisamos estar capacitados a lutar com os norte-americanos. Isso não significa lutar como os norte-americanos", disse ele. "É um fato que o modo britânico de tratar o pós-conflito é diferente do praticado pelos EUA". As forças dos EUA foram confrontadas por um dilema inviável: aderir a um cessar-fogo, que os iraquianos poderiam interpretar como um sinal de incapacidade de lidar com Fallujah, ou avançar e tomar a cidade, arcando com o terrível custo para os civis iraquianos e para si próprias. Não havia dúvidas de que os marines, fortemente armados, poderiam entrar em Fallujah, mas os custos ultrapassariam a vitória. Optou-se pelo menor desastre, em um acordo que criou uma nova força policial, conhecida como Exército de Proteção de Fallujah, para entrar na cidade e dar segurança. Este consiste em cerca de 1.100 antigos soldados do regime de Saddam. Como a nova unidade poderia funcionar não era claro, porém membros da resistência de Fallujah seriam vistos logo em seguida patrulhando as ruas da cidade. Não há dúvida de que alguns deles participaram da emboscada aos mercanários da Blackwater. Sejam quais forem os argumentos, o que importa é notar que Fallujah foi vista como uma derrota para os EUA, e seu impacto pressumível é de um aumento nas fileiras da já crescente resistência iraquiana. (*) Discurso proferido na Universidade da Califórnia, dia 8 de junho 2004. |
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