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La insignia
29 de julho de 2004


Sobre jornalismo, futebol e a origem do craque


Felipe A. P. L. Costa (*)
La Insignia. Brasil, julho de 2004.


Jornalistas profissionais não gostam de ser criticados ou corrigidos, muito menos em público, nem mesmo quando escrevem bobagens e erram. Não que nós outros não tenhamos também nosso amor-próprio ou uma certa dose de soberba, mas essa aversão parece ser algo incrustado na pele da grande maioria dos jornalistas. Arrisco mesmo a afirmar que isso tem a ver com os afazeres de repórteres e editores no dia-a-dia das redações: eles estão habituados a lidar diretamente com os fatos, embora apresentem apenas uma parte disso ao público (leitores, ouvintes, telespectadores). Em outras palavras, seja por conveniência (pessoal, do editor-chefe ou da empresa onde se trabalha) ou por falta de espaço (afinal, matérias diferentes competem entre si por uma quantidade limitada de espaço), os jornalistas habitualmente se comportam como verdadeiros filtros entre os fatos ("nus e crus") e o público.

Em quase todos os casos, os jornalistas sabem que aquilo a que o público está tendo acesso não é exatamente a fina flor da realidade. Além de omissões freqüentes, distorções grosseiras costumam ser deliberadamente introduzidas no que se divulga sob o rótulo genérico de NOTÍCIA. Isso para não ter que mencionar o que nos dias de hoje bem poderia ser classificado como uma verdadeira maldição: o predomínio do jornalismo preguiçoso ou jornalismo do press-release - i.e., a publicação, quase ipsis litteris, de notas divulgadas pela assessoria de imprensa de órgãos do governo, de empresas privadas ou mesmo de pessoas físicas.

Como ninguém é de pedra, toda essa situação termina gerando em muitos profissionais uma recorrente sensação de frustração ou mesmo de impotência. [Não deve ser por predisposição genética que jornalistas na ativa estão entre os profissionais que mais consomem drogas "relaxantes", notadamente álcool.] Todavia, o fato de se comportar como filtro tende também a exacerbar entre eles um certo sentimento de onipotência - seja porque o jornalista tem consciência de que sempre sabe mais do que o público sobre os acontecimentos que aborda em suas matérias, seja porque ele termina se vendo como um personagem que também pode influenciar o rumo dos acontecimentos.

No chamado jornalismo ambiental, por exemplo, é comum que repórteres e editores dêem uma mãozinha na divulgação de notícias oficiais positivas, muitas vezes caindo em um insosso jornalismo chapa-branca ou simplesmente descambando para o ridículo. Um dos meus exemplos favoritos é o caso de uma matéria publicada em um jornal da Zona da Mata mineira, anos atrás, envolvendo três personagens: uma turma de alunos do Ensino Fundamental, o gramado de uma agência bancária e uma única muda de palmeira. As crianças se deslocaram da escola até o gramado da agência e lá plantaram ou ajudaram a plantar a muda de palmeira. O que o jornal fez? No dia seguinte, publicou uma foto com uma legenda embaixo, dizendo que o banco fulano de tal estava promovendo a educação ambiental entre as crianças da cidade. (De minha parte, fiz questão de ligar para a agência local do banco e dizer que aquele tipo de coisa era motivo mais do que suficiente para que eu jamais abrisse uma conta lá.)

Mas talvez seja no jornalismo esportivo (leia-se, futebol) que os últimos resquícios de razão que herdamos de nossos primos antropóides estejam sendo jogados na lata de lixo. Não é fácil encontrar entre os profissionais de projeção nacional um exemplo de jornalista esportivo que seja (ao mesmo tempo) razoavelmente bem-informado, crítico e isento. A maioria comporta-se como torcedor de algum time ou de alguns jogadores ou, o que é pior, como porta-voz de dirigentes (de clubes ou federações), quando não dos próprios patrocinadores! De resto, comentaristas e observadores estão habituados a analisar uma partida de futebol ou um campeonato inteiro usando apenas o senso comum, às vezes nem isso. Chuta-se em todas as direções, na esperança de que a bola, quem sabe, ao menos bata na trave...

É raro, por exemplo, ver ou ouvir alguém, durante uma transmissão ao vivo de uma partida de futebol, reconhecer e pedir desculpas por um erro cometido - o que seria mais do que esperado; mas não: há sempre uma desculpa esfarrapada para as maiores barbeiragens que si diga. Como todos (ou quase todos) os profissionais agem assim, a verdade em torno dos fatos, inclusive em torno de questões polêmicas, que mexem mais com o torcedor - quem é o melhor jogador em atividade no país?; qual é o melhor time do Campeonato Brasileiro [1]?; e assim por diante -, torna-se apenas o resultado de um segundo campeonato: a "verdade" é apenas o berro da turma que grita mais alto, em meio a uma gritaria generalizada. De acordo com a emissora sintonizada, o torcedor pode ouvir opiniões e comentários diametralmente opostos. E, assim, o nosso jornalismo de esportes prospera em meio a um caldo ralo, que mistura provincianismo e tendenciosidade com doses generosas de surrealismo.

Acha que estou exagerando? Pois, tente obter com algum jornalista esportivo respostas fundamentadas (i.e., não valem respostas do tipo "é porque é") para as seguintes questões: quem foi o maior jogador de todos os tempos? E o mais habilidoso? Qual foi o melhor time de todos os tempos? A chamada seleção brasileira de fato representa uma seleção dos melhores? E mais: as escolinhas de futebol servem para formar craques? Como os craques são formados? Há uma predisposição genética para ser ou não um craque? Em caso afirmativo, haveria algum tipo físico particular mais favorecido? Seriam os afrodescendentes, por exemplo, inerentemente mais habilidosos com a bola do que os não-afrodescendentes?

Sobre a origem do craque de futebol

Em fevereiro deste ano, no artigo "Gerando bobagens com o bom senso", publicado aqui mesmo em LA INSIGNIA [2], apresentei uma lista com exemplos de afirmações inconsistentes comumente encontradas na mídia brasileira. Afirmações construídas apenas com a ajuda do "bom senso" podem parecer corretas para quem faz uma leitura apressada ou superficial, mesmo quando escondem argumentos inconsistentes. Um dos exemplos que usei tem a ver justamente com a questão da origem do craque de futebol, a saber: Jogadores de futebol afrodescendentes são inerentemente mais habilidosos do que os não-afrodescendentes, pois a ginga de corpo é uma característica própria de negros e mulatos.

Esta afirmação é inconsistente e está errada. Não sou especialista em comportamento humano, embora me interesse pelo estudo do comportamento animal (insetos, em particular). Ainda assim, tomo a liberdade para especular e, nos parágrafos que se seguem, apresento uma hipótese explicativa para a questão da origem do craque, entendido aqui como um jogador fisicamente mais habilidoso que os demais.

Todos aqueles trejeitos de corpo que fazem com que um jogador seja considerado um grande craque de futebol (ou de outros esportes, como o basquete) não têm nada a ver com a cor da pele, a geografia, a origem social ou qualquer outras dessas explicações mixurucas que costumamos ouvir na mídia ou no boteco da esquina. Aqui, como em tantos outros casos, a contribuição da genética é pífia ou apenas indireta [3]. Tudo ou quase tudo que faz a diferença entre um grande craque e um jogador que é, digamos, apenas aplicado teria a ver com um outro processo: a aprendizagem por imitação. E isso incluiria desde o jeito de chutar até a maneira de conduzir a bola com os pés, passando pelos dribles usados para deixar para trás os adversários.

Explicando melhor: trejeitos de corpo são aprendidos por imitação, quando somos ainda bem pequenos, a exemplo do que ocorre com outras habilidades, incluindo, por exemplo, o jeito de falar ou gesticular com os braços. Quando somos pequenos, capturamos muita coisa do ambiente de modo inconsciente, através do que parece ser uma "janela de oportunidades". Com o amadurecimento, porém, essa janela se fecha e aí não há mais como absorver as coisas do mesmo jeito de antes. É por isso que na idade adulta achamos tão difícil aprender certas coisas - nós refletimos conscientemente sobre o processo, ao invés de simplesmente absorver as novidades. De modo semelhante, seria muito difícil se transformar em um craque de futebol a partir de uma certa idade.

Os pais que matriculam seus filhos em "escolinhas de futebol", imaginando que um adolescente perna-de-pau pode vir a se transformar em um Dirceu Lopes, por exemplo, estariam, portanto, simplesmente jogando dinheiro fora. É bom enfatizar: praticar esportes em uma escolinha pode ser algo saudável e prazeroso. Mas a questão aqui é outra: o que estou querendo dizer é que essas escolinhas de futebol não poderiam efetivamente cumprir o que anunciam, isto é, não poderiam formar craques. Por quê? Porque a transformação de um "não-jogador" em um "craque" seria essencialmente um processo de aprendizagem por imitação, mais ou menos restrito à idade infantil.

Para alguém vir a se tornar um craque, deve contar com um certo conjunto de atributos físicos favoráveis, não há dúvida (miopia, por exemplo, atrapalha, embora não impeça), mas precisa principalmente aprender no lugar certo. Nesse sentido, a melhor escola de craques seria um campo de várzea (ou uma quadra de esportes) de livre acesso, especialmente quando em torno dele há uma certa mistura de gerações: crianças pequenas, por exemplo, esperam sua vez de jogar enquanto assistem partidas entre jogadores mais velhos. Nesse momento, as crianças têm chance de aprender (mesmo sem ter consciência disso) duas coisas fundamentais: primeiro, repetir aquilo que os craques fazem; e, segundo, não cometer os mesmos erros dos pernas-de-pau. (Não se iluda: em muitas cidades brasileiras, o acesso aos poucos campos de várzea disponíveis não é livre. Ao contrário, é pago - i.e., os jogadores pagam para jogar, com um detalhe curioso: os goleiros pagam menos! No fim das contas, cria-se também um círculo vicioso: como o acesso aos campos é controlado, os controladores terminam sendo personagens políticos importantes - digamos, cabos eleitorais poderosos. Conheço casos assim, aqui na Zona da Mata mineira.)

Vale notar que essa hipótese explicativa tem um desdobramento demográfico, a saber: se craques surgem por imitação, então o número de craques deve aumentar em razão do aumento no número de campos de livre acesso existentes (em uma cidade ou em um país, por exemplo). Concluindo, o Brasil seria o "país do futebol" - do mesmo modo como os EUA seriam o "país do basquete" (esporte que também envolve trejeitos e ginga de corpo) - por razões que nada têm a ver com etnia, como querem crer muitos de nossos cronistas esportivos mais ufanistas.


Notas

(*) Biólogo meiterer@hotmail.com, autor do livro ECOLOGIA, EVOLUÇÃO & O VALOR DAS PEQUENAS COISAS (2003).

1. Apesar do nome pomposo, o Campeonato Brasileiro - que já foi chamado Copa Brasil e, acredite, Copa União, por conta de um hilário contrato com patrocinadores - não reúne times que representem todas ou sequer a maioria dos 27 estados brasileiros.
2. Clique em http://www.lainsignia.org/2004/febrero/cyt_003.htm
3. Ver Lewontin, R. 1984. La diversidad humana. Barcelona, Editorial Labor.



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