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La insignia
5 de dezembro de 2004


EUA em guerra

Terapia de choque (II)


__EEUU en guerra__
2001-2002 2003 2004
Walden Bello
Outras Palavras. Brasil, dezembro de 2004.



Continua havendo alegações críveis de fraude, em particular na contagem de votos no estado de Ohio, mas a maior parte dos EUA, incluindo o partido Democrata, reconheceu que George W. Bush foi reeleito presidente com uma margem de 3,5 milhões de votos contra John Kerry.

Bloco hegemônico?

A verdade terrível, no entanto, é que a vitória dos republicanos, se olharmos de forma imparcial, é sólida. Uma outra fase da revolução política começou com Ronald Reagan, em 1980, e as eleições de 2004 confirmam que o centro de gravidade da política dos EUA repousa não nas mãos da centro-direita mas nas da extrema direita. Contudo, parece ser verdade que o país está dividido equilibradamente de forma amarga. Mas foi a direita republicana que conseguiu emplacar uma ideologia forte, vinda da base, moldando e implementando uma estratégia para vencer o poder em todos os níveis da arena eleitoral, na sociedade civil e na mídia. Enquanto os liberais e os progressistas patinaram, a direita radical uniu, sob uma visão simplista, os diferentes componentes de sua base: o Sul e o Sudoeste, a maioria dos homens brancos, as classes alta e média que se beneficiaram da revolução econômica neoliberal, a américa Corporativa, e os cristãos fundamentalistas. Essa visão é essencialmente subliminar e vem de um país enfraquecido internamente pela aliança dos liberais pró governos fortes, gays promíscuos e lésbicas, imigrantes ilegais, hordas em fúria do Terceiro Mundo e os afetados europeus enciumados da properidade e poder dos EUA.

Há, na verdade, dois EUA, mas um está confuso e desorganizado enquanto o outra exala uma confiança e uma arrogância que apenas uma estratégia e uma organização superior proporcionam. A direita radical conseguiu, com o retorno do idéia de uma comunidade imaginada - algo que remonta as pequenas cidades cristãs estadunidenses da década de 1950 - para construir o que o pensador italiano Antonio Gramsci chamou de bloco hegemônico. e esse bloco está condenado a continuar seu reino pelos próximos 25 anos.

O futuro da democracia, justiça econômica, direitos individuais e direitos das minorias parecem enpalidecidos nos EUA, mas talvez seja apenas por meio de uma segunda terapia de choque -- a primeira ocorreu com a vitória de Reagan, em 1980 -- que a América progressista finalmente irá confrontar o que pode inverter a maré: uma batalha de todas as correntes pela hegemonia ideológica e organizacional, batalha na qual não apenas uma fração deve estar envolvida e nenhuma pode ficar de fora, e na qual erros não podem ser mais admitidos.

A crise do império

Mas ao mesmo tempo que os EUA caminham para a direita, ele não consegue arrastar o resto do mundo consigo. Na verdade, a maior parte do mundo está caminhando na direção contrária. Nada ilustra isso melhor do que o fato de que, na mesma semana em que Bush foi reeleito, uma coalizão de partidos de esquerda assumiu o poder no Uruguai; Hugo Chavéz, o novo nêmesis de Washington na América Latina, levou as eleições na Venezuela e a Hungria virou notícia pela retirada de suas 300 tropas do Iraque. Embora a direita estadunidense esteja consolidando seu poder doméstico, ela não pode conter o despedaçamento da hegemonia global de Washington.

A principal causa do que nos chamamos de crise de super-estenção, ou o descompasso entre objetivos e recursos que afeta a ambição imperial, é o grande erro de cálculo da invasão do Iraque. A crise deve continuar, se não se acelerar, no segundo mandato de Bush. Os sintomas chave do dilema imperial resumem-se a:

Apesar das recentes eleições no Afeganistão patricinadas pelos EUA, o governo Karzai controla apenas partes de Kabul e duas ou três outras cidades. O Secretário Geral da ONU, Kofi Annan disse, apesar das eleições que, "sem intituições estatais que funcionem, capazes de suprir as necessidades básicas da população em todo o país, a autoridade e a legitimidade do novo governo terá vida curta". E já que esse é o caso, o Afeganistão ira precisar de 13, 5 mil tropas dos EUA no país e mais 35 mil como contingente de apoio fora do país.

A guerra ao terror dos EUA foi um tiro pela culatra completo, com Al-Qaeda e seus aliados estando muito mais fortes hoje do que em 2001. Mostrando isso, o vídeo de Osama bin Laden lançado no paríodo pré-eleitoral valeu mais do que mil palavras. A invasão do Iraque, de acordo com o que diz Richard Clarke, ex-czar anti-terror de Bush, descarrilou a guerra ao terror e foi um grande recrutador para a Al-Qaeda. Mas mesmo sem o Iraque, a política de mão pesada de Washington e seus metodos militares de lidar com o terrorismo já estavam alienando milhões de muçulmanos. Nada ilustra isso mais do que o sul da Tailândia, onde o alerta anti-terror dos EUA ajudou a converter os descontentes em insurgentes.

Com seu apoio total à estratégia "sem-vitória" de Ariel Sharon, de sabotar o surgimento de um Estado palestino, Washington rifou todo o capital político que ganhou entre os árabes por bancar o hoje defunto acordo de Oslo. Já a estratégia de juntar-se à Sharon, junto com a ocupação do Iraque, deixou os aliados de Washington entre as elites árabes expostos, desacreditados e vulneráveis.

A aliança Atlântica está morta e, no período futuro, conflitos de comércio combinados com diferenças políticas levarão os EUA e a Europa a distanciarem-se ainda mais. A Europa é chave para a sustentabilidade do império americano. De acordo com as observações do escritor neoconservador Robert Kagan, "os EUA precisarão da legitimidade que a Europa pode proporcionar, mas os europeus podem muito bem não garanti-la"

O movimento à esquerda da América Latina será ainda mais acelerado. A vitória da coalizão de esquerda no Uruguai é apenas a mais recente de uma série de vitórias eleitorais das forças progressistas, seguidas da Venezuela, Equador, Argentina e Brasil. Junto com a virada eleitoral à esquerda, podem se multiplicar ainda mais as inssureições em massa como a que ocorreu na Bolívia, em outubro de 2003. Falando da virada à esquerda e na direção oposta à do império, um dos amigos dos Estados Unidos, o ex-ministro de Relações Exteriores do México, Jorge Castañeda, aborda a situação de uma maneira acurada: "Os amigos dos EUA... estão sentindo cada vez mais a fúria dos anti-EUA.Eles estão se vendo forçados a mudar sua retórica e atitude para tirar o pé do freio de políticas de defesa vistas como pro-EUA ou por ele inspiradas, além de se verem forçados a endurecer sua resistência às demandas e desejos de Washington."

Iraque: crucial à resistência global

O Iraque, é claro, é a causa principal da queda do Império. A resistência do povo iraquiano não apenas frustrou a ocupação colonial do país. Igualmente importante, ela revelou uma nova geração de anti-imperialistas por todo o mundo para os quais o Vietnã é a história do passado que mostra como é possível levar o Império a um impasse ou eventualmente à derrota.

Não existem sinais, de qualquer forma, de que o Governo Bush vá tomar conhecimento do que está escrito nas paredes. Ele irá tomar Fallujah com a ilusão desesperada de que irá destruir o centro operacional dos rebeldes. Fallujah, porém, não é o centro operacional e sim um centro simbólico que já cumpriu o seu papel, e a sua "queda" não impedirá que a resistência descentralizada se espalhe e se aprofunde no Iraque. Mais ainda, os insurgentes de Fallujah irão se retirar antes de enfrentar a batalha, deixando a defesa da cidade, como já fizeram em Samara, para os mercenários iraquianos.

Com 55 cidades já na lista dos zonas proibidas para as tropas dos EUA, o governo Bush logo irá perceber que retomar e ocupar centros urbanos simplesmente não funciona. Existem hoje cerca de 130 mil soldados no Iraque. Para enfrentar a guerrilha, sem avanços, seria preciso 500 mil soldados para o nível atual da resistência. Isso não será possível, a menos que Bush torne o serviço militar obrigatório, e isso produziria desobediência civil capaz de ameaçar a atual hegemonia republicana.

A alternativa de Washington seria retirar-se para bases super-fortificadas e sair em incursões planejadas para mostrar serviço. Ao mesmo tempo que isso seria uma derrota para os EUA, também significaria que a resistência do povo iraquiano não tem o controle legal sobre o território para declarar sua soberania e começar o processo de um verdadeiro governo nacional.

Desafios aos movimentos

Apoiar a luta do povo iraquiano por um território soberano e por um governo nacional à sua escolha continua sendo uma das duas principais prioridades do movimento global anti-guerra. A outra é o fim da ocupação israelense na Palestina e do desrespeito aos direitos dos palestinos. Neste momento, que conjuga o fortalecimento da direita nos EUA e a contínua crise global do Império, o que será preciso para alcançar esse objetivo?

Antes de mais nada, é preciso ir além das manifestações espontâneas e alcançar um novo patamar de coordenação entre os movimentos, um nível que vá além dos sincronizados protestos anuais contra a guerra. Não será possível fazer a diferença sem uma onda global de protestos, similar à que marcou as mobilizações contra a guerra do Vietnã, entre 1968 e 1972 - com milhões de pessoas em constante ativismo. Coordenação, além disso, significa não apenas mobilizações de massa coordenadas, mas também desobediência civil, trabalho na mídia global, e educação política. Uma coordenação mais efetiva e, sim, a profissionalização do movimento anti-guerra, precisa ser alcançada sem custos para os processos participativos que são a marca registrada do nosso movimento.

Em segundo lugar, em termos de tática, é preciso engajar-se em novas formas de protesto. Sanções e boicotes são métodos que precisam ser levados em consideração. No Fórum Social Mundial, em Mumbai, Arundhati Roy sugeriu começar com uma ou duas empresas dos EUA que estivessem obtendo benefícios diretos da guerra como a Halliburton e a Bechtel e mobilizar-se para fechar suas operações mundo a fora. É momento para levarmos a sério sua sugestão, não apenas em relação a empresas dos EUA mas também de Israel.

Mas, além disso, o nível de militância precisa crescer, com mais e mais desobediência civil e interrupção não-violenta dos negócios. Precisamos dizer a Washington e seus aliados que não pode haver negócios como normalmente enquanto a guerra continuar. O tipo de debate que acontece na Inglaterra, se é mais útil fazer manifestações pacifistas ou engajar-se em atos de desobediência civil, é infrutífero, já que ambos são essenciais e precisam combinar-se em modos efetivos e inovadores.

Nos EUA, os ativistas podem basear-se na imensa e poderosa tradição de desobediência a leis injustas que motivou pessoas como os abolicionistas, Henry David Thoreau, os Quakers e os irmãos Berrigan. Sem dívida, este tipo de resistência pode ser a chave para impedir o avanço do império, mas também em relação às restições das liberdades políticas e democráticas. Em nenhum momento como hoje, quanto a opinião eleitoral se foi, é mais do que necessário resistir à lei do império de modo não-violento invocando uma lei maior.

Em terceiro lugar, está claro que a Inglaterra e a Itália - a Inglaterra especialmente - são os principais pontos de apoio da política de guerra de Bush fora dos EUA. Bush constantemente evoca esses governos para legitimar a aventura norte-americana. O que acontece na Itália afeta o que ocorre na Inglaterra e vice-versa. Ambos os países contam com sólidas maiorias anti-guerra que precisam ser agora transformadas em uma força poderosa para afetar os negócios nestes países governados por cúmplices na guerra dos EUA. Ambos os países têm a sagrada tradição da greve geral que, combinada com a desobediência civil em massa, podem aumenta significativamente os custos de apoio de seus governos a Washington.

Quando perguntados sobre os motivos de as manifestações de 20 de março de 2004 terem levado tão poucas pessoas às ruas, em comparação com as de fevereiro de 2003, muitos ativistas na Inglaterra e na Itália responderam: porque as pessoas sentiram que suas ações não são capazes de prevenir os EUA de ir à guerra. Este tipo de derrotismo e de desmoralização pode ser combatido apenas ao não diminuir as demandas populares, e sim animando-as, fazendo com que entrem na batalha através de movimentos de resistência civil não-violentos.

Em quarto lugar, com o Oriente Médio passando a ser um campo de batalhas estratégico nas próximas décadas, é essencial que o movimento global pela paz faça contatos com o mundo árabe. Os governos do Oriente Médio são pouco resistentes aos EUA, isso pode ajudar a fortalecer, entre os movimentos civis, os laços de solidariedade, que devem ser a principal fonte de energia desse esforço. Isso será na verdade um passo corajoso e controverso, já que alguns dos mais fortes movimentos anti-EUA no Oriente Médio são chamados de "terroristas" ou de "simpatizantes de terroristas" pelos governos dos EUA e da Europa.

É importante não deixar definições impostas pelos EUA colocarem-se no caminho do trabalho conjunto dos movimentos. Assim como é crucial para o movimento palestino e para os movimentos pacifistas e anti-sionistas de Israel ir além dos rótulos impostos pelos governos e encontrar meios de cooperação pelo fim da ocupação. Nesse sentido, a Assembléia Anti-Guerra de Beirute, que ocorreu em setembro de 2004, com forte representação do movimento pacifista global e dos movimentos sociais do mundo árabe, foi um passo importante nessa direção.

Conforme entra em seu segundo mandato, a agenda de Bush segue a mesma: dominação global. Nossa resposta é a mesma: resistência global. Existe apenas uma coisa que pode frustrar dos obscuros objetivos imperiais no Iraque, na Palestina e em todos os lugares: a solidariedade militante entre as pessoas do mundo. Fazer dessa solidariedade algo real, poderoso e vitorioso é o desafio que temos pela frente.


(*) Walden Bello é diretor executivo da Focus on the Global South e professor de Sociologia e Administração Pública na Universidade das Filipinas.



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