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La insignia
22 de agosto del 2004


EUA em guerra

Quanto pior, melhor?


__EUA em guerra__
2001-2002 2003 2004
Norman Solomon e Jeff Cohen
Outras Palavras. Brasil, agosto de 2004.



A natureza auto-centrada da política nos EUA freqüentemente afeta a esquerda do país. É difícil distanciar-se o suficiente de certos padrões mentais de modo a compreender as implicações das decisões tomadas dentro de casa. Os efeitos das políticas dos EUA são tão grandes no resto do mundo que algumas pessoas sugerem -com algum sentido- que todas as pessoas da Terra deveriam participar das eleições presidenciais dos EUA.

Na esquerda internacional, ninguém tem mais credibilidade, como oponente decidido da política externa dos EUA, do que Tarik Ali. Criado no Paquistão, foi líder da oposição britânica à guerra do Vietnã nos anos 1960. Hoje, em Londres, é um proeminente autor e editor na New Left Review. Entre seus livros recentes estão "Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque" e "Confronto de Fundamentalismos: Cruzadas, Jihads e Modernidade". Enquanto os progressistas dos EUA tentam compreender a atual disputa presidencial, a perspectiva de Ali sobre o significado global do destino eleitoral de Bush merece consideração.

"Eu viajo muito, por todos os continentes, e penso que, em todo lugar aonde vou, há uma crescente angústia pelo que a Casa Branca fez no Iraque. A guerra foi lançada, os civis foram mortos, a confusão está criada, até pela incapacidade de vocês para compreender a escala do que foi feito", disse Ali durante uma entrevista no começo de agosto a uma rádio de Nova York. "E, deste ponto de vista, se a população dos EUA não votar para tirar Bush do governo, eu penso que o impacto global será tremendo... As pessoas poderão dizer que este sujeito levou o país à guerra, cercado por neoconservadores que desenvolveram falsos argumentos e mentiras para ir à guerra contra o Iraque. Ele mentiu e fez mau uso das informações de inteligência. Os cidadãos devem votar para afastá-lo. Se isso ocorrer,haverá um impacto tremendo na opinião pública mundial".

Ali acrescenta: "A derrota de um governo militarista em Washington pode ser vista como um passo à frente. Eu não arrisco mais, mas não há dúvida que isso teria um impacto global".

Claro que John Kerry tem sido contundente ao vender o seu próprio estilo de militarismo, um fato que está muito claro para os progressistas dos EUA. Entrevistando Ali em um programa de rádio, Doug Henwood, editor da Left Business Observer levantou a questão: "Muitas pessoas na esquerda dos EUA, em particular, dizem que Kerry não é muito melhor [que Bush], que ele é um imperialista e um militarista assim como seus antecessores e que no fundo não existe muita diferença. Kerry -que transformou o discurso de lançamento de sua candidatura numa saudação militar- pode ser apenas um pouco mais disso tudo. O que você diz disso?"

"Estamos falando de um governo que levou os EUA à guerra", Ali respondeu. "... Se [Al] Gore fosse eleito presidente, ele provavelmente iria à guerra com o Afeganistão se o 11 de setembro tivesse acontecido, mas pessoalmente eu duvido que ele tivesse feito a guerra contra o Iraque. Isso é uma agenda muito neoconservadora, dominada pela necessidade de colocar as mãos no petróleo, como sabemos, mas também para agradar Israel, que tem sido muito grato a essa guerra. Esta guerra em particular é uma coisa muito própria deste governo. Um fracasso de Bush pode ser uma derrota do partido da guerra".

Falando de uma perspectiva internacional, Tariq Ali não hesita em desafiar a estranha noção de que "quanto pior, melhor". "Vejo, entre parte da esquerda dos EUA, um argumento mais ou menos assim: 'Bush acabou unindo o mundo contra o império dos EUA, e isso é uma coisa boa'. Não gosto de teorias como essa". Ali segue: "Este é um argumento que você pode usar no conforto da sua sala de estar ou na sua cozinha nos EUA, mas o fato é que este regime provocou a morte de pelo menos 37 mil civis no Iraque, sem contar os membros do antigo exército.

Trinta e sete mil civis morreram e para eles isso não é uma questão abstrata. A derrota de Bush poderia ser saudada em várias partes do mundo como uma pequena vitória. Isso não significa que alguém tenha ilusões sobre Kerry. Eu, certamente não tenho. Estou bastante descontente com o militarismo na convenção do Partido Democrata. Mas apesar disso tudo -e nós sabemos quem são os democratas, e que guerra eles levaram adiante- nossas opções no momento são limitadas. Derrotaremos o governo militarista ou não? Faremos o melhor para que isso aconteça?"

Ali prossegue: "Creio que há muito a ser feito no momento. Meu sentimento é de que uma derrota de Bush poderá criar uma atmosfera diferente na cultura política dos EUA e mostrar que pode isso ser feito. Isso fará as pessoas muito mais críticas".

A análise de Tarik Ali vem em um momento crucial para a esquerda dos EUA. Por um lado, estamos sendo encorajados pelos democratas a fingir que a chapa Kerry-Edwards é a chapa progressista de nossos sonhos; uma noção sem base no real que não se tornará realidade, não importa quantas vezes seja repetida. Por outro lado, há uma tendência perigosa a se dizer que não há grande diferença ter mais quatro anos de Bush ou quatro anos com Kerry na Casa Branca. Ali articulou uma questão que devemos responder, com as nossas ações: "Devemos derrotar o governo militarista ou não?".



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