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| 2 de abril de 2004 |
De 11-M a 14-M
La Insignia. España, abril de 2004.
11 de março, uma quinta-feira, um dia como outro qualquer na vida de Paula, que é espanhola, vive em Alcalá de Henares e deveria ir à Universidade em Madri. Ou na vida de Yussuf, que é marroquino e vive no subúrbio de Coslada e que deveria ir ao trabalho em uma lanchonete de Kebabs na Praça de Espanha. Ou de Pepe, um yunkie espanhol que vive, melhor dizendo, sobrevive em El Pozo. Ou mesmo de João, que é brasileiro, pedreiro de profissão, ilegal na Espanha, mas que trabalha todos os dias ainda que a previdência social faça caso omisso do seu suor. Todos deveriam pegar o mesmo trem, por volta das 7h, cada um em uma estação diferente e desembarcar na Estação de Atocha, ou Atocha Renfe, a mais central da cidade de Madri.
Mas o dia 11 de março não foi uma quinta-feira qualquer, desde às 8h da manhã meu telefone não parava de tocar. Amigos de todos os lados, minha família, conhecidos, companheiros de trabalho, todo queriam saber como eu estava. Eu também deveria pegar aquele trem, mas não cedo, apenas três horas depois. Todas as redes de televisão davam a mesma notícia, atentado na Renfe de Madri, mais de cem mortos, mais de mil feridos, terrorismo do ETA. Nem eu mesma tinha dúvidas, acho que nenhum espanhol tinha, todas as análises apontavam para uma única direção, o grupo terrorista vasco ETA, que costuma cometer atentados antes das eleições, que seriam apenas três dias depois, no dia 14 de março. Mas este era um massacre de proporções gigantescas inclusive para os etarras, que quase sempre disparam seu ódio na direção de um alvo político ou policial. Na mesma manhã, Arnaldo Otegi, líder do ilegalizado Batasuna, partido vasco que representa a voz política do ETA, foi a televisão para dizer algo que nunca tinha dito em toda sua história política, condenar um atentado, condenar a violência terrorista. Há pouco tempo estourou um escândalo político na Espanha quando se descobriu, por meios mais ou menos lícitos, que Carod Rovira, líder de um partido independentista e republicano catalão, sócio de governo do Partido Socialista na Catalunha, havia tido um encontro com representantes do ETA para negociar uma trégua que, segundo Carod, seria para toda Espanha e, segundo alguns meios, apenas para Catalunha, criando um eixo nacionalista Catalunha - País Vasco. Este escândalo ganhou força quando se descobriu que este encontro aconteceu sem o conhecimento do Partido Socialista. O PP, Partido Popular espanhol, a direita que se encontrava no poder central com maioria absoluta, acusou a Carod de negociar às escondidas com terroristas e ao Partido Socialista, de aliar-se com partidos independentistas que negociam com terroristas. O escândalo ganhou dimensões imensas quando chegou à luz um comunicado do ETA que anunciava uma trégua da luta armada apenas na Catalunha. Apesar dos socialistas terem demitido imediatamente Carod e acusado o PP de utilizar informações do serviço secreto para fazer política, a bomba desta vez estourou no colo de Zapatero, candidato a presidência pelos socialistas para as eleições do 14 de março. Uma eleição que muitos consideravam perdida para os socialistas, apesar do seu notável crescimento nas pesquisas. No máximo e na melhor das hipóteses, os analistas políticos consideravam que o PP e seu candidato, Mariano Rajoy, voltariam a ganhar, mas sem a maioria absoluta do atual presidente, o também pepista José Maria Aznar. Antes da compreender a importância deste escândalo na história do atentado de 11M é preciso entender um pouco da vida política espanhola. Apesar de suas pequenas dimensões, a Espanha é um país dividido, com partidos nacionalistas fortes que governam as principais e, diga-se de passagem, mais ricas comunidades autônomas, como é o caso do País Vasco, reduto de ETA, e de Catalunha. Resquícios funestos da ditadura de Franco, que fez nascer uma Espanha cada vez mais dividida, resquícios também do próprio governo Aznar, que em seus últimos quatro anos tratou de manter as piores relações possíveis com os nacionalistas, praticamente demonizando estes partidos e seus líderes junto aos meios de comunicação. É importante também deixar claro que tanto a Catalunha como o País Vasco são comunidades altamente desenvolvidas, que protegem suas tradições, sua língua e cujos governantes possuem um elevado grau de autogoverno com relação ao poder central, ou seja, não se trata de locais pobres e perseguidos ou sem liberdade de expressão, mas sim todo o contrário. No País Vasco existe o agravante do ETA e de um nacionalismo mais radical, que efetivamente distorce a vida política e as relações entre governos. Por tudo isso, o PP tratou de centrar parte de sua campanha em uma espécie de nacionalismo espanhol centrista e uma luta contra os diferentes nacionalismos autonômicos. Por tudo isso, na manhã do dia 11 de março todos acreditávamos que o culpado pelo atentado era o ETA. E o governo do PP acreditava nesta versão mais que todos. O primeiro comunicado do Ministro do Interior, aproximadamente às 13:30h dava como certa a linha de investigação etarra e desqualificava as declarações de Otegi sobre a possibilidade Al Qaeda. O governo Aznar havia entrado na guerra do Iraque contra a vontade de mais de 90% da população espanhola, ao lado dos Estados Unidos e do Reino Unido, e o atentado poderia ser uma resposta a este posicionamento espanhol. Friamente falando, a culpabilidade do ETA beneficiaria o PP e a culpabilidade de Al Qaeda beneficiaria os socialistas, o PSOE, nas eleições do 14 de março. Aproximadamente às 16:30h, no segundo aparecimento do Ministro, já haviam sido descobertas provas eloqüentes, como um furgão na cidade de Alcalá de Henares, de onde partiram os trens, onde haviam detonadores e uma fita com passagens do Alcorão, que já permitiriam um desvio na linha de investigação para a possibilidade de que fosse um atentado do Al Qaeda ou de um grupo islamita radical. O ETA desmente o atentado a uma televisão vasca, um grupo islamita assume o atentado no Reino Unido, mas o governo do PP insiste em dizer que a principal linha de investigação segue sendo o ETA e que todos os demais poderiam ser tentativas da banda terrorista vasca em desviar a linha da investigação e confundir a polícia espanhola. Zapatero e o partido socialista solicitam uma conciliação dos diferentes partidos espanhóis para uma tomada de decisão frente ao país. O PP decide organizar uma marcha para o dia seguinte sem esta conciliação. O título da marcha: "Contra o terrorismo e pela constituição". Vocês se perguntarão, o que a constituição tem a ver com isso? Foi o que eu também me perguntei e a resposta é simples. Os nacionalistas pedem reformas na constituição, com este lema, outra vez, havia uma indicação clara de que a população deveria fixar suas atenções no nacionalismo radical, ou seja, no ETA. Às cinco da tarde, meu telefone voltou a receber uma avalanche de chamadas do Brasil, todas com o mesmo tema, o atentado foi obra da Al Qaeda. Enquanto alguns meios noticiosos espanhóis e seus governantes seguiam insistindo na hipótese do ETA. Na noite de sábado, através de mensagens nos telefones celulares se organizou uma manifestação espontânea na frente da sede do PP na rua Gênova de Madri, exigindo claridade nas investigações e contra a manipulação das informações. O candidato do PP, Mariano Rajoy, declarou que esta manifestação era ilegal e ilegítima. No dia 13 de março parecíamos viver em um país desencaixado do mundo, que navegava náufrago e descomunicado da civilização, porque antes mesmo de ser anunciado na Espanha, jornais como o New York Times já davam como certa a hipótese do terrorismo islâmico. No seu mais relevante aparecimento frente os meios de comunicação, o Ministro de Interior anunciou um avanço na investigação com a prisão de cinco suspeitos, três marroquinos e dois espanhóis de origem hindu, mas ainda assim não foi capaz de dizer que a linha de investigação havia tomado uma nova direção, deixando todas as possibilidades, ou seja tanto ETA como Al Qaeda, em aberto. O presidente Aznar foi à tevê para fazer um comunicado, deixando claro que o governo não tratava de enganar a população civil, que a hipótese ETA era a mais coerente, exatamente porque era o terrorismo que atuava usualmente na Espanha. Alguns jornalistas criticaram este aparecimento, recordando o recente atentado na Casa da Espanha em Marrocos. Um atentado onde o governo também tratou de insistir que não se tratava de uma retaliação pela guerra de Iraque, e que agora parece ter muita conexão com o massacre de 11M. As críticas também foram duras no que diz respeito a insistência do governo em culpar o ETA, uma insistência que, em um primeiro momento, era compreensível, mas que depois começou a parecer cada vez mais e mais descabida. Zapatero voltou a fazer a mesma promessa que marcou sua campanha, se ganhasse as eleições tiraria as tropas de Iraque. No dia 14 de março houve um comparecimento massivo às urnas, mais de 75% da população foi votar, todos com o mesmo argumento diante da tragédia - é necessário oferecer uma resposta democrática. Na Espanha o voto não é obrigatório e os eleitores de esquerda, descontentes com as propostas do PSOE, deixaram de ir às urnas desde o último mandato do socialista Felipe Gonzalez. Na pesquisa de boca de urna, divulgada às 20h do domingo, a incerteza ainda era total. Alguns resultados davam a vitória PP, mas sem maioria absoluta e outros, davam uma sutil vitória socialista. A incerteza dominou a noite na sede dos dois partidos e, pouco a pouco, a partir da contagem dos votos, os socialistas foram ganhando mais e mais espaço. Às onze da noite os resultados já eram conclusivos e a rua Ferraz, onde está localizada a sede do PSOE, já estava lotada de gente que gritava unida: "Las tropas a casa" e "Vivir sin Aznar, que felicidad". Zapatero ganhava as eleições em um evento único na história política espanhola. Umas eleições marcadas pela tragédia e que ressaltavam, mais que a vitória de Zapatero e dos socialistas, a derrota de Aznar e da sua maneira de fazer política. Da sua dureza, de uma visão mais voltada à macroeconomia que ao social, da prepotência que fez o país entrar em uma guerra, ainda que a maioria da população estivesse contra e, principalmente, da pouca democracia que denotam as maiorias absolutas no congresso espanhol, sejam do PP ou do PSOE, e que oferecem aos governantes uma supermacia para tomar decisões sem precisar negociar. A vitória de Zapatero deixa transparecer algumas mudanças e a expectativa mais otimista é que a saída das tropas espanholas de Iraque possa influenciar aos EUA a aceitar uma participação maior da ONU. Também valoriza um eixo Alemanha - França - Espanha dentro de uma Europa menos dividida. O novo governo já anuncia mudanças sociais progressistas como a legalização dos casamentos homossexuais ou uma maior participação feminina nos altos cargos de governo. Também implica em um risco, o PSOE, como é o caso de muitos partidos de esquerda, está muito dividido e diferentes forças internas podem chocar-se dentro do novo governo, além da pouca experiência prática de Zapatero como governante. Definitivamente, para os imigrantes, a vitória socialista é um fator de esperança, porque com a última lei de estrangeiros do PP, mais que integração social, o imigrante estava exposto à perseguição, com poucas possibilidades de conseguir papéis de trabalho. Para o Brasil também pode ser um bom sinal, já que Aznar era um feroz defensor das empresas espanholas na América Latina, enquanto que Zapatero, antes mesmo de assumir o poder, já se comprometeu a ajudar o desenvolvimento econômico da Argentina, evitando as pressões do governo anterior. Seguramente esta também deverá ser a tônica para o Brasil. A verdade é que a eleição de Zapatero na Espanha marca não só uma mudança interna, mas também uma mudança que afetará toda a Europa e, talvez, todo o jogo do xadrez político dos países do ocidente. Assim como a eleição de Lula no Brasil marcou uma mudança não apenas no país, mas em toda a América Latina. O certo é que, como também no caso de Lula, teremos de aguardar e pagar para ver como este novo governo espanhol desempenhará sua função nos quatro anos que lhe correspondem. O dia 11 de março não foi uma quinta-feira como outra qualquer. Paula não foi a faculdade porque, justamente neste dia, estavam em greve. Yussuf perdeu seu trem por cinco minutos e teve que pegar o seguinte. Pepe estava em um vagão que não foi atingido pelas bombas e João tinha o dia livre no trabalho, por isso desceu em San Fernando para visitar uns amigos. Neste dia cada um acompanhou o atentado de uma maneira diferente, assim como eu, pela televisão da minha casa, pelas ruas lotadas de gente no dia da passeata contra o terrorismo e depois pelas teclas do meu computador, escrevendo este texto. Neste dia também decidi que não queria contar a história dos mortos, e sim dos sobreviventes. (*) Carla Guimarães reside na Espanha desde o ano 2000, é dramaturga da Companhia Teatral Cuasiteatro, tradutora e escritora. Atualmente é aluna do Doutorado em Teatro na Universidade de Alcalá de Henares. |
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