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La insignia
24 de outubro del 2003


Theodor Adorno e a arte da escrita sem concessões


Rodrigo Gurgel (*)
La Insignia. Brasil, outubro de 2003.


Poucos textos guardam, na trama de suas idéias, o poder do esclarecimento. E é ainda mais raro o ensaio ou o livro que, passado o tempo, permanece atemporal, como se o autor ainda o atualizasse dia após dia, acompanhando as revoluções, as mudanças aparentemente insignificantes, as iluminações e os retardos do pensamento, negando-se a pactuar com a recalcitrante tentativa humana de chafurdar no obscurantismo.

Esclarecer, aclarar, tornar compreensível a realidade, revelando, camada sob camada, o palimpsesto de ilusões pelo qual somos engolfados a cada segundo das horas em que permanecemos despertos, é uma tarefa, certamente, quase impossível. Ela requer, de quem se dispõe a tal intento, uma vida em constante estado de alerta e desconfiança - uma vida capaz de, incansavelmente, repudiar os erros de percepção a que somos induzidos, sempre com maior intensidade, pelos meios de comunicação de massa.

Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969), um dos expoentes da Escola de Frankfurt - e de quem comemoramos neste ano o centenário de nascimento -, alcançou em seus escritos essa rara qualidade: a de conceder à razão uma estupenda força crítica. E, em sua obra, o melhor exemplo desse exercício encontramos em Minima Moralia - reflexões a partir da vida danificada (Editora Ática), um conjunto de fragmentos nos quais o estilo do filósofo, engastado por uma inesgotável sede de devassar diferentes e mínimos aspectos do real, triunfa sobre o leitor, não para condenar-nos à perplexidade, mas para erguer-nos a um novo patamar de análise e, portanto, de consciência.

Em "Atrás do espelho", por exemplo, o fragmento de número 51, ele disserta sobre o ato de escrever. Conhecemos, então, mais do que supostas regras para aprimorar o estilo, a disciplina que o verdadeiro escritor se auto-impõe. Segundo Adorno, "nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la". No substrato de sua agradável teimosia no sentido de que jamais sejamos mesquinhos ao cortar, ao suprimir, encontramos a recusa à indolência do texto fácil, repleto de clichês, pois essa maneira descomprometida de escrever denuncia "uma linguagem insípida", sem qualquer rigor.

De acordo com o filósofo, não há nada mais salutar no exercício da escrita do que manter, a cada idéia, a cada vocábulo, uma "insistência desconfiada". A atenção de quem escreve deveria voltar-se, portanto, aos objetivos que pretende alcançar e, simultaneamente, à sua própria maneira de ver o real, tendo a humildade de reconhecer que "não é fácil distinguir sem maiores considerações entre a vontade de escrever de maneira densa e adequada à profundidade do objeto, a tentação de ser incomum e o desmazelo pretensioso". Para Adorno, a "força" e a "plenitude" da técnica de escrever "beneficiam-se precisamente dos pensamentos reprimidos".

Todo esse esforço, no entanto, não tem por finalidade apenas construir um arcabouço esteticamente agradável, mas, sim, um conjunto de idéias do qual se exigirá relevância, profundidade e perspicácia. A lição de Adorno não deixa dúvidas: "(...) Quem não quer fazer concessão alguma à estupidez do senso comum, tem que se precaver para não enfeitar estilisticamente pensamentos em si mesmo banais."

Mas as recomendações acima não significam que o escritor deve ser tímido. Ao contrário, deve aventurar-se. Deve buscar a originalidade de seus pensamentos e da forma de expressá-los. Deve exigir que o destemor aflore a cada linha e, também, um alto grau de ceticismo em relação a cada uma de suas idéias, lembrando-se de que "a circunspecção que proíbe de se ousar ir longe demais numa frase é, na maioria das vezes, apenas um agente do controle social e, como tal, de estupidificação".

Em um mundo degradado pela vileza do poder preponderante da economia - mundo no qual as ideologias exercem uma força magnética sobre os homens e "a mentira soa como verdade e a verdade como mentira" (fragmento 71) -, o escritor não deve temer a constatação de que ele é um sobrevivente encurralado por forças que mercantilizam a cultura e todas as relações sociais. Ao contrário, seu dever é transformar essa suposta fraqueza em uma forma de poder, agarrando-se à certeza de que, a cada novo texto, "o sonho de uma existência sem ignomínias (...) deve ser estrangulado com pérfida alegria".

E é exatamente pelo fato de a inocência ter sido escorraçada de todas as relações - e só restarem, opostos e incompatíveis, o indivíduo e a massa, ou seja, o discernimento e a inconsciência - que o texto, o bom texto, deve preservar as qualidades de um mundo marcado pela lucidez e pela beleza: "Os textos bem elaborados são como teias de aranha: densos, concêntricos, transparentes, bem estruturados e sólidos. Eles atraem para dentro tudo o que voa e rasteja. As metáforas que os atravessam apressadas e descuidadas, tornam-se para eles presas nutritivas."

O gesto de escrever - isto é, de olharmos nossa própria imagem refletida nas palavras - não deve admitir qualquer concessão à facilidade, mesmo correndo o risco de, agindo dessa forma, nos tornarmos incompreendidos. Adorno não contemporiza: se, por um lado, "a expressão vaga permite àquele que a ouve representar-se aproximadamente o que lhe convém e que ele de todo modo já tem em mente", por outro, a expressão "rigorosa impõe uma compreensão inequívoca, um esforço conceitual, do qual as pessoas perderam deliberadamente o hábito, exigindo delas diante de todo conteúdo a suspensão dos juízos habituais e, deste modo, um certo afastamento, a que elas resistem violentamente." (Fragmento 64)

O pensamento não resignado de Adorno - para quem "o talento talvez nada mais seja do que a fúria sublimada de um modo feliz" (fragmento 72) - parece-me claro: se a barbárie se instalou definitivamente em nosso meio; se o irracional e o econômico, de mãos dadas, preponderam; se o consumo e a indústria cultural se encarregam de submergir os homens em um pântano de cega euforia, cabe àquele que escreve um exercício diário de auto-reflexão; um pessimismo que, paradoxalmente, resgate seus leitores à esperança; e uma lucidez destituída de qualquer ambigüidade, capaz, ao mesmo tempo, de enternecer e afligir o leitor.


(*) Editor e ensaísta. Sítio pessoal na web: www.rodrigo.gurgel.nom.br



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