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La insignia
19 de março de 2003


George Walker Bush, o «americano tranqüilo»


__Especial__
EUA em guerra
Rodrigo Gurgel
La Insignia. Brasil, março de 2003.



Sob certos aspectos, é surpreendente que o filme O americano tranqüilo, do diretor Philip Noice, baseado no romance homônimo do escritor inglês Graham Greene, esteja sendo exibido em apenas duas salas de cinema na imensa cidade de São Paulo.

Por que surpreendente? Basicamente, por se tratar de uma razoável aula de história sobre os crimes do imperialismo - francês e norte-americano - no Vietnã, o que o torna um instrumento importante para conhecermos a forma como se comportam os Estados, quando se trata de impor suas vontades por meio da força. E a política parece se resumir a apenas isso: o uso da força - ainda que, em significativo número de vezes, de forma dissimulada.

Mas, a apresentação restrita de O americano tranqüilo também é, sob outros aspectos, nem um pouco surpreendente. E por uma simples razão, tão importante quanto a do parágrafo acima. O filme - e, principalmente, o romance - é um estudo percuciente da lógica que rege a moral do norte-americano burguês, conservador e cristão. Ou seja, o filme e o livro são contribuições fundamentais à compreensão de uma parcela decisiva da população norte-americana, hoje encastelada nos principais postos do poder, a começar pela presidência da República.

Não causa surpresa, portanto, que o filme esteja relegado a um injusto segundo plano, pois ele presta evidente desserviço - inestimável, em minha opinião - à imagem, sem dúvida falsa, que o governo norte-americano insiste em propagandear de si mesmo e de suas decisões políticas.

Noice e Greene nos apresentam um personagem paradigmático daquela camada norte-americana que pretende governar o mundo a partir do eixo Boston-Washington. Para ela, no substrato de cada uma de suas ações flameja um imperativo moral que concede aos seus atos um diploma de bondade, justiça e verdade, independente do fato de suas idéias corresponderem ou não à realidade. E, pior: independente do fato de sua apregoada retidão moral produzir o bem ou o mal. Autonomeada tutora da humanidade, ela se pauta por uma moral maniqueísta, estreita e embasada num cristianismo vulgar e rasteiro, no qual os fins justificam os meios.

O jornalista Timothy Garton Ash, em recente artigo no El País (9 de fevereiro de 2003), analisa como esse fundamentalismo cristão impregna hoje as decisões de Estado. E mostra como "os atentados de 11 de setembro aumentaram a disposição dos EUA de aceitarem uma explicação marcial e missionária" para definir seu papel no mundo. Em termos de política internacional, apenas para citar um exemplo, a decisão de importantes países europeus de não apoiarem a guerra contra o Iraque significa, na opinião dos membros do governo, que "a Europa perdeu sua bússola moral".

Esse puritanismo exacerbado norteia, inclusive, as decisões presidenciais. Na edição de 12 de fevereiro de 2003, a revista Carta Capital apresenta um interessante perfil de George Walker Bush. O homem que se elegeu desfraldando a bandeira de uma "renovação espiritual na América" inicia todas as reuniões de gabinete com uma oração e se dispõe a discutir, ardorosamente, se os que não aceitam Jesus como seu salvador podem, ou não, ir para o céu.

A Casa Branca vive hoje sob uma preocupante ideologia denominada "evangelicalismo moderno". E segundo o evangelista Tony Evans, que partilha da privacidade do presidente, "uma das motivações que levaram Bush a concorrer à presidência foi o seu estudo da Bíblia. Ele sente que Deus está falando com ele".

A se dar crédito às palavras do líder espiritual, a América caminha, portanto, embalada por uma ilusão que se aproxima, perigosamente, de um estado de demência. Não é outra a conclusão do professor e escritor Edward Said: "... o alvo dessa guerra contra o terrorismo é algo a-histórico e metafísico. Não se trata de uma guerra contra um inimigo específico. Como Bush disse: 'Esta é uma luta contra o Mal'. Ou seja, nós somos o povo bom, e isso nos coloca numa espécie de delírio obsessivo, que nos torna cegos com relação às questões objetivas (...)." (Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 2 de fevereiro de 2003)

Causar o mal sempre em nome do que eles acreditam ser o bem: parece ser a regra desses tranqüilos americanos, cuja placidez sem rédeas tem seu melhor exemplo em George W. Bush.

A história, contudo, guarda exemplos suficientes para nos demonstrar que, quando permitimos que a metafísica interfira na política, os Estados e as demais instituições colocam-se no limiar da irracionalidade.

À parte todos os interesses econômicos e geopolíticos - demonstrados, revelados e comprovados ad nauseam - que também impulsionam esta guerra contra o Iraque, há um exorbitado e inaceitável cinismo na arrogância desses puritanos que pretendem colocar seus preceitos morais acima até mesmo da ética.

O que o mundo - incluindo os tranqüilos americanos - precisa entender é a mais simples das lições e, talvez por isso, tão difícil de ser assimilada: a inestimável lição de que "a pluralidade é a lei da Terra" (A vida do espírito, Hanna Arendt). O mundo não precisa de mais um gesto de desarvorada petulância. O mundo não precisa de salvadores que, agitando em uma das mãos as suas bíblias, pregam uma suspeitosa reforma moral, enquanto que, com a outra mão, matam seus semelhantes.



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