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La insignia
8 de março de 2003


A nova escola na era da informação:
Algumas observações para discussão


Maria Cândida R. Cardinalli Pérez
La Insignia. Brasil, março de 2003.


«Grandes países do mundo se forjaram em cima de soluções criativas, tecnicamente consistentes, mas que afrontavam o convencional, o estabelecido, não desperdiçando oportunidades históricas. Foi assim quando a Índia decidiu se transformar em referência mundial de tecnologia, quando a Finlândia montou seu projeto que a transformou em uma das líderes mundiais de telefonia e mesmo quando o pequeno Portugal planejou sua segunda rota de conquista de mercados internacionais."

» Os grandes transformadores foram aqueles que ousaram fugir do convencional e, depois de identificado o caminho correto, ousaram pensar grande.»
-Luís Nassif. Folha de São Paulo. 31/10/2002-


I. Introdução

Atualmente, na chamada era da informação ou do conhecimento, a área educacional não está mais se restringindo a atender a população no que convencionalmente chamamos de idade escolar (dos 5 até os 20 e poucos anos, conforme o país e o nível de ensino considerado) mas expande-se, cada vez mais, para a chamada idade produtiva, pela necessidade de constante atualização de conhecimentos imposta pelo mercado de trabalho. Isso significa uma brutal ampliação da população demandatária de conhecimento.

Por outro lado, nos últimos anos, vem sendo colocado à disposição da sociedade um arsenal de novas tecnologias que tem provocado significativas mudanças nas formas de organização e de pensar dessa sociedade.

Hoje existe uma grande quantidade de novas mídias em uso nos mais diversos setores do mercado que agilizam a comunicação e a transmissão de conhecimento: as televisões do mundo todo já estão entrando na era da interatividade; pessoas, empresas e instituições se comunicam pela internet; a televisão, a telefonia e a internet estão praticamente se fundindo.

Entretanto, ao contrário de outras áreas da atividade humana nas quais esse avanço tecnológico significou grandes ganhos de produtividade (veja a automação industrial e mecanização agrícola, por exemplo), a área educacional, mesmo tendo a sua disposição novas tecnologias, permanece quase artesanal, especialmente nos paises menos desenvolvidos. A incorporação de tecnologia no processo educacional é baixa e quando ocorre, se faz de maneira complementar (acessória) e não substitutiva, não alterando, dessa forma, a essência do modelo escola/professor/aluno. A tecnologia assim utilizada geralmente não surte os efeitos que se esperaria, sendo no mais das vezes uma experiência frustante e mal compreendida.

No caso do Brasil, em especial nas redes públicas, salvo raras exceções, cada escola desenvolve seu próprio projeto pedagógico, cada professor prepara a sua aula e escolhe seu livro didático e, principalmente, permanece inalterada, ao longo dos anos, a proporção professor / aluno ( cerca de 1:30). Não há ganhos de escala nem de produtividade. Como a educação tende a ser, cada vez mais, uma atividade de massa, portanto de grandes dimensões e em expansão, essa "estabilidade" provoca uma situação recorrente, visível em praticamente todos os países do mundo, desde nos desenvolvidos bem como, e especialmente, nos em desenvolvimento : há uma carência generalizada de professores devidamente qualificados e, paradoxalmente, os salários desses profissionais sempre se encontram nos patamares mais baixos da escala salarial, mesmo nos países mais ricos.

Segundo estudo realizado recentemente pela UNESCO (dados de 1999), incluindo 47 países ( 29 da OCDE), sobram alunos e faltam professores. O Brasil ocupa a terceira pior posição de média salarial anual para professor em início de carreira.

O mesmo estudo também aponta que a formação do docente brasileiro está entre as piores - melhor apenas que a dos profissionais da China e Tunísia - somente cerca de 22% e 56% dos professores do ensino fundamental e do médio, respectivamente, tem nível superior.

Para Maria Helena Castro, presidente do INEP, o Brasil não tem professores em número suficiente, principalmente com a qualificação necessária ( ver Folha de São Paulo - 18 de julho de 2001). Não obstante, o Brasil investe 4,6% do PIB em educação, o maior percentual entre os sete países da América Latina contemplados no estudo e equivalente ao da Inglaterra, sendo que a maior parte desses recursos vai para a educação básica. Apesar dos baixos salários dos professores do ensino básico, a folha de pagamento consome 83% do que é investido em educação. Esses dados indicam também que a margem para melhorar essa situação, em especial a salarial, é muito pequena . Assim sendo, a tão propalada intenção de valorizar e remunerar dignamente o docente acaba sendo mais uma promessa frustada.

Enquanto a educação foi uma atividade voltada para atender uma parcela limitada da sociedade, poucos professores eram necessários e, assim sendo, eram relativamente bem remunerados. Quando ela se expande para abranger toda a população em idade escolar, o exército de professores necessários também cresce na mesma proporção, pois o modelo de organização da escola não sofreu alteração.

Se atualmente o sistema educacional já encontra dificuldade para sustentar suas atividades adequadamente (os dados citados indicam claramente isso), seu modelo de organização, seguramente, é funcionalmente inviável para atender a demanda adicional gerada pela educação permanente.

No atual modelo de organização do ensino, propiciar educação básica a todos os cidadãos, formar, manter atualizados e remunerar adequadamente os professores, suprir as necessidades de educação continuada e garantir um ensino de qualidade para todos tornou-se uma impossibilidade matemática.

É justamente por essa razão que a introdução de tecnologia se faz de maneira mais rápida no segmento da educação continuada na área empresarial: as empresas estão começando a substituir os cursos tradicionais pelo uso de vídeos, softwares e internet no treinamento e reciclagem de seus funcionários. Mesmo nos sistemas de educação formal, que atendem a faixa da população em "idade escolar", a mudança desse modelo parece inevitável. Entretanto, é justamente nesse setor que se manifestam as maiores resistências à introdução de tecnologias que provoquem ganhos de escala e produtividade.

Um segundo ponto relevante é que essas novas tecnologias de comunicação, além de provocarem mudanças significativas na forma de organização e produção da sociedade, também interferem em outro aspecto, talvez mais difícil de ser identificado porém não menos importante.

A geração que hoje está nos bancos escolares e prestes a entrar no mercado de trabalho esteve exposta, desde os primeiros anos de suas vidas, a uma bateria de tecnologias nas quais predomina o visual : a televisão, os jogos eletrônicos, os ambientes informatizados com seus ícones e imagens e a internet. Essa geração foi visual e oralmente alfabetizada.

Essa situação leva, por um lado, a um distanciamento muito grande entre o aluno, exposto no mundo real a toda sorte de multimídias, e a escola com seus métodos tradicionais (lousa e giz). Por outro, desse processo emergiram fluências novas, radicalmente diferentes das dominadas pela geração anterior ( a geração que já entrou ou está entrando na faixa dos 40 anos e mais). Enquanto, para esta geração, o repositório do conhecimento eram os textos (a aprendizagem consistia basicamente no acesso a esse código), agora as experiências multi-sensoriais podem ser transmitidas e compartilhadas através de outros meios, sem a necessidade da utilização exclusiva desse código.

Medir essas novas fluências multisensoriais com instrumentos antigos (ou deixar de considerá-las) pode estar nos levando a conclusões totalmente equivocadas. Hoje, o entendimento de que os alunos não estão adquirindo, na proporção adequada, os conhecimentos estabelecidos como necessários (é o que indicam os sistemas de avaliação disseminados pelo mundo), tem levado quase todas as regiões do planeta, sejam ricas ou pobres, a um denominador comum: a crença numa suposta "crise da educação".

Entender essa nova realidade, ainda que provoque certo desconforto, é fundamental para se reorganizar o sistema de ensino e especialmente para avaliá-lo.


II. Pensando novos modelos de organização

Diante dos fatos, parece inevitável a necessidade de se pensar em novos modelos de organização dos sistemas educacionais. Para sair desse impasse, é fundamental que eles incorporem, obrigatoriamente, ganhos de produtividade. Isso só é possível introduzindo a tecnologia de forma substitutiva, ou seja, alterando a relação professor/aluno. E também, no caso de grandes redes (geralmente públicas), que incorporem ganhos de escala. O que distingue cada modelo é a intensidade com que se dá essa substituição e, em decorrência disso, o segmento educacional ao qual melhor se aplica cada um deles.

Uma primeira possibilidade - a mais radical - é a da tecnologia substituindo integralmente a presença real do docente. Os softwares de ensino de idiomas, atualmente existentes, são um dos exemplos mais comuns dessa alternativa. O aluno interage com esse instrumento: vê e escuta o docente (virtual) falando; ele próprio fala, ouve sua voz, compara seu gráfico de voz com o do professor; faz exercícios que são corrigidos automaticamente etc. Outro exemplo são os treinamentos por internet, para atualização profissional, que as empresas estão começando a utilizar.

Uma segunda possibilidade é o uso intensivo das novas mídias porém preservando alguma participação do docente, mesmo que à distância. Enquadram-se, nesse caso, os cursos através da internet que prevêem o contato e o suporte do docente em algum momento, as teleconferências etc. Um exemplo dessa situação são os cursos à distância oferecidos pelas universidades para especialização, pós-graduação e mesmo, mais recentemente, graduação. O programa de formação de nível superior para professores de 1ª a 4ª série, que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo está implantando, também segue esse modelo.

A Universidade Aberta da Inglaterra é um exemplo de sucesso dessa modalidade. Em um artigo recente sobre o assunto, Arnaldo Riskier ressalta que ela ganhou o respeito pois "seus dirigentes erigiram como prioridade dessa instituição, chancelada pela Rainha, a qualidade dos produtos oferecidos". Recrutaram de saída os 500 melhores professores universitários ingleses, para a elaboração do material instrucional e adotam um rigor absoluto na avaliação dos alunos, no momento da conclusão dos seus cursos. (ver Diário do Comércio de 11 de julho de 2001). Esse exemplo é elucidativo de dois princípios fundamentais:

a) o ganho de produtividade, pois ampliou-se significativamente o número de alunos atendidos, até mesmo ultrapassando as fronteiras geográficas, sem contudo aumentar o número de docentes e de outros recursos convencionais necessários;

b) o ganho de escala, pois a medida que os cursos passaram a atingir um grande número de alunos, viabilizou-se a contratação dos melhores profissionais da Inglaterra para desenvolver um material de alta qualidade.

Mas a grande lição que se pode depreender é que, dessa forma, ampliou-se para muitos alunos a oportunidade de estudar em uma instituição conceituada e também de estar em contato com material desenvolvido por esses professores excepcionais o que, no modelo tradicional, estaria restrito a poucos.

Uma terceira possibilidade é a que contempla a introdução de tecnologia de forma substitutiva porém preservando a presença ativa do docente, bem como a presença do aluno no espaço escolar. Os princípios desse modelo são os mesmos do anterior porém seu foco está voltado para os grandes sistemas de educação formal. Pressupõe a alternância, em diversas proporções, de aulas que utilizam exclusivamente recursos de mídia eletrônica e aulas com a presença do docente, com o suporte de material instrucional para o aluno e para o professor.


III. A situação atual: alguns exemplos

Alguns grupos privados brasileiros estão explorando intensamente as possibilidades de ganhos de escala e produtividade na educação básica. Segundo matéria da revista EXAME, os quatro maiores grupos privados - Positivo do Paraná, Objetivo de São Paulo, COC de Ribeirão Preto e Pitágoras de Minas Gerais - conseguiram chegar a mais de 30% dos alunos do ensino fundamental e médio particular vendendo suas apostilas, seus modelos pedagógicos e assessoria administrativa para escolas do país inteiro.

O Pitágoras vem adotando essa mesma estratégia também para a sua expansão no ensino superior, tendo como base o modelo da Universidade de Phoenix (USA). "O grande diferencial da Phoenix em relação às outras escolas americanas é a padronização do ensino. Seus cursos são feitos por uma equipe central que cuida do planejamento de cada disciplina nos mínimos detalhes. Os professores são treinados para transmitir esse conhecimento da forma mais uniforme possível, ... de acordo com padrões rígidos de controle da qualidade" . De forma semelhante à adotada pela Universidade de Phoenix, o Pitágoras entregou a tarefa de criação de seus cursos a uma equipe de notáveis, o que possibilita expandi-los com qualidade e baixo custo. Ademais, essa estratégia não fica limitada pela oferta de professores de altíssimo nível, que dificilmente seriam encontrados em cantos remotos do país. ( Revista EXAME, ano 36, nº 7, 3 de abril de 2002 )

As redes de ensino profissionalizante do SENAC e SENAI também seguem esse modelo. Equipes centrais de especialistas desenvolvem os cursos e os respectivos materiais didáticos, muitas vezes visitando outros países, como, por exemplo, na área de informática. Em seguida, os professores são treinados para utilizar a metodologia e o material instrucional desenvolvidos, o que resulta numa uniformidade na qualidade dos cursos oferecidos por essas instituições.

A Coréia, no pós-guerra, realizou uma verdadeira revolução no seu sistema educacional. Uma das principais medidas foi a de desenvolver um material instrucional de alta qualidade para os alunos e professores, editado pelo próprio Ministério da Educação, e utilizado em todas as escolas do país. Mais recentemente, vem introduzindo as novas mídias na sua rede de ensino por meio de um amplo programa - Comprehensive Plan for the Information Age in Education (ver www.moe.go.kr/english ).

Em 2001, após 3 anos de desenvolvimento, o governo coreano concluiu esse programa que informatizou todas as salas de aula do ensino fundamental e médio do país inteiro. Tanto as áreas urbanas quanto as pequenas cidades mais modestas da região montanhosa estão ligadas na internet através da banda larga. A finalidade do programa, que foi parcialmente subsidiado pelas empresas privadas, foi de oferecer o mesmo acesso para todos à informatização, independente de localização ou classe social.

Parte do material educacional disponibilizado para essa grande rede é desenvolvido pela televisão pública coreana PBS - Public Broadcasting System of Korea. Por meio desses materiais, alunos que tem pouca chance de observar a natureza pessoalmente terão como acessar recursos áudio-visuais através da internet; alunos das áreas rurais poderão encontrar material educativo que tornará possível o aprendizado de inglês e outras línguas estrangeiras e crianças de todo país terão oportunidades de aprender tecnologias mais avançadas sem, contudo deixar a sala de aula.

Segundo Donghoon Lim, vice-presidente da PBS, "como educadores, devemos encontrar maneiras de utilizar esses meios de comunicação de alta tecnologia para enviar conteúdo educacional com maior eficiência. Na PBS, entendemos que isso significa permitir ao público um acesso mais facilitado aos nossos materiais de vídeo on line. Ao fazermos isso, também estamos recebendo benefícios econômicos".

As televisões educativas francesa e inglesa disponibilizam vídeos de conteúdo didático em seus sites, para que as escolas possam utilizá-los em suas aulas. Nos Estados Unidos, empresas privadas oferecem, a baixo custo, grande quantidade de vídeos e respectivos guias de estudo para alunos e professores, que são utilizados em sala de aula, nas diversas séries da educação básica (ver www.digitalcurriculum.com).

Também nos Estados Unidos, os sindicatos de professores disponibilizam na internet planos de aula para seus professores associados.


IV. Uma proposta para a educação pública brasileira

Como foi visto anteriormente, um dos problemas mais críticos com o qual se defrontam os sistemas públicos de educação básica brasileiros é a carência de docentes, tanto do ponto de vista numérico como, e especialmente, do ponto de vista qualitativo. Em algumas regiões não existem professores com formação superior e a tarefa de ensinar as disciplinas específicas a partir da 5ª série (história, geografia, inglês, biologia etc) fica a cargo de docentes com formação de magistério (ensino médio).

Muito se tem investido na capacitação constante desses recursos humanos nas três esferas de poder público. Entretanto, os inúmeros programas de capacitação, salvo alguns casos específicos, são genéricos e raramente instrumentalizam o professor para o exercício da docência. Por essa razão, eles acabam se pautando pelo livro escolar, livremente escolhido pela escola ou pelo docente, numa lista disponibilizada pelo MEC.

Todo ano, o ministério adquire mais de 100 milhões de livros didáticos que são distribuídos para as escolas públicas de ensino fundamental de todos o estados, o que o torna o maior consumidor individual do mundo. Porém, segundo sua própria constatação, a escolha da grande maioria das escolas e professores tem se concentrado sistematicamente nos livros pior avaliados.

A utilização de modernas tecnologias de comunicação (multimídias) se faz de forma incipiente e, ao invés de se destinar ao aluno, como já se observa em outros países, é predominantemente voltada para o treinamento dos professores (por exemplo, o programa de formação de nível superior para professores de 1ª a 4ª série, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, citado anteriormente).

Dessa forma, cabe ao professor a tarefa de planejar seu curso e preparar seus próprios planos de aula. Isto exige, para que os resultados sejam minimamente satisfatórios, além da própria competência do docente, o acesso a bibliografia e materiais auxiliares e disponibilidade de tempo. Sabe-se, entretanto, que isso não acontece na maioria das escolas públicas. Em grande parte dos municípios não há bibliotecas atualizadas nem sequer uma única livraria.

Em recente artigo na revista Veja, Cláudio Moura Castro compara o exercício da docência com um concertista de Mozart. Enquanto este é treinado durante anos e segue rigidamente uma partitura (e mesmo assim é um virtuoso), do professor espera-se que seja ao mesmo tempo um concertista e o próprio Mozart, ou seja, que invente sua própria partitura, ainda que pesquisas mostrem que, usando bons materiais, os alunos aprendem mais.

Assim sendo, não obstante todo esse esforço e a conseqüente inversão de recursos financeiros de grande monta, nos programas de capacitação e de compra do livro didático, os resultados obtidos são muito pouco satisfatórios. O que se observa é que, nas redes públicas de ensino, poucas escolas contam com um corpo docente relativamente bem preparado enquanto que, em inúmeras outras (a maioria nas áreas mais carentes), predominam professores que não dominam sequer os conteúdos mínimos necessários.

Nesse contexto, o aluno torna-se o grande excluído, e gerações são penalizadas, ano após ano, enquanto esperam por uma melhoria nas condições dos docentes e por conseguinte, do ensino oferecido. Gerações e gerações de crianças e adolescentes permanecem tendo, como fonte principal de conhecimento, um material de qualidade limitada e professores com sérias deficiências de formação.

Além disso, com o rápido desenvolvimento tecnológico, essa situação tende, cada vez mais, a aumentar o fosso entre os que tem acesso ao conhecimento universal por outros meios complementares à escola (softwares, internet, vídeos, TV a cabo, viagens etc) e aqueles que contam exclusivamente com a escola pública para esse fim.

Isso posto, a questão que se faz é a seguinte: se atualmente já se conta com recursos tecnológicos que permitem levar a todos os estudantes da rede pública material instrucional de alta qualidade, porque o Estado os priva disto? Se com a tecnologia disponível é possível reduzir a lacuna, hoje existente, na formação dos professores, porque o Estado não o faz?

Um novo modelo de escola pública é possível de ser implantado com os recursos financeiros já existentes, porém redirecionados. É preciso ficar claro que, para se obter os resultados esperados, não é necessário implantar um modelo que utilize equipamentos sofisticados como redes de micro, linhas de comunicação de alta velocidade, internet, TV interativa etc. como os exemplos aqui apresentados, referentes a países desenvolvidos. O que se deve depreender desses exemplos é a sua essência, ou seja, a disponibilização de materiais de qualidade, desenvolvidos por equipes de alto nível e disseminados utilizando, além dos meios convencionais, os recursos de multimídia.

A primeira medida para a implantação desse modelo é o desenvolvimento, sob responsabilidade do Estado, de material instrucional para o aluno e para o docente (livro/apostila para o aluno e caderno de roteiro para o professor) e de material audiovisual, referente a todos os conteúdos de cada disciplina, a serem ministrados ao longo de todas as séries do ensino fundamental e médio.

Em se tratando de uma grande rede, sua escala possibilita que esse material seja desenvolvido pelos melhores profissionais do país (como nos casos relatados da Inglaterra e Estados Unidos) e que sejam utilizados, para a execução dos vídeos, recursos tecnológicos avançados (animações computadorizadas, imagens de microscópio eletrônico, imagens de satélite, filmes, entre outros). Pode-se aproveitar material já desenvolvido no país (por exemplo, das televisões educativas como a Futura, a Cultura de São Paulo e outras instituições como a Fundação Roberto Marinho) e material de outros países (vídeos da BBC, das televisões educativas da Inglaterra, França, Canadá etc) que poderão ser obtidos através de acordos de cooperação internacional.

O material audiovisual poderá ser veiculado de diversas formas: fitas de vídeo convencionais, CD-ROM, DVD e outras, conforme as possibilidades de cada rede pública de ensino. É importante lembrar que materiais e equipamentos para veiculação de audiovisuais apresentam custos cada vez menores, razão pela qual esse tipo de tecnologia é enquadrado no que se denomina "tecnologias democráticas".

Paralelamente, os programas de capacitação dos docentes deverão ser focados nesses materiais (livro/apostila do aluno, caderno do professor e audiovisuais), de forma a instrumentalizar os professores para a sua utilização nas aulas, garantindo um nível de qualidade do ensino mais uniforme e com mais equidade.

Uma vez distribuído esse material, e treinado os docentes, as escolas poderão organizar suas aulas de forma que cada turma de alunos tenha uma aula através de mídia eletrônica, quando um determinado conteúdo é apresentado de forma estimulante, e em seguida uma aula com o professor, quando esse conteúdo é explorado, discutido e fixado através das mais diversas atividades.

Para entender esse novo modelo, vamos supor uma aula do ensino fundamental, sobre a fotossíntese e o órgão responsável por ela - a folha. Através de um vídeo, por exemplo, um professor/apresentador desenvolve o tema, complementado por inúmeros recursos: animação computadorizada representando o fenômeno da fotossíntese, imagens de células vistas pelo microscópio, filmes apresentando diferentes morfologias de folhas de plantas nativas de diversas regiões (vitória-régia no Amazonas, acículas dos pinheiros das regiões frias etc).

Em seguida, com a presença do professor, os alunos são estimulados a refletir sobre o tema, tirar suas dúvidas, entender o fenômeno, inferir e analisar seu próprio meio ambiente através de trabalhos de grupo. Entre as inúmeras atividades possíveis, o professor pode estimular seus alunos, por exemplo, a coletarem folhas de diversas morfologias de sua região e organizar um herbário.

Outro exemplo interessante de ser analisado é um material, recentemente veiculado numa série de TV, de aproximadamente 50 minutos de duração, referente à vida e obra de Leonardo da Vinci. Esse material poderia ser utilizado perfeitamente numa das aulas do ensino médio.

O vídeo inicia com a apresentação do mapa da Itália, destacando as regiões onde viveu Leonardo da Vinci e o contexto histórico de sua época e segue com as imagens dos originais de seus escritos, desenhos e pinturas, tudo comentado por especialistas das melhores universidades do mundo. Seus projetos de máquinas e de obras de engenharia ganham vida através de animações computadorizadas e são analisados sob o aspecto de se funcionariam ou não; o projeto de uma cidade, desenvolvido por ele com o objetivo de diminuir a incidência de pestes e epidemias, também é apresentado, entre outras obras.

Esse material, altamente estimulante, é um claro exemplo de multidisciplinariedade, um dos princípios básicos da atual reforma do ensino médio. Sua riqueza de conteúdo possibilita que o professor explore, com seus alunos, inúmeros aspectos: as condições históricas e sociais da época em que viveu Leonardo da Vinci; os princípios da física que estão contidos nos seus projetos de engenharia; o conhecimento de biologia presente em seus desenhos de plantas, a razão de seu projeto de cidade contribuir para diminuir a incidência de doenças etc.

No livro "Science for All Americans", recentemente publicado pela American Association for the Advancement of Science com o objetivo de estimular uma reforma radical no ensino dessa disciplina, fica clara a importância dessa efetiva participação do aluno. Nele está apontado que, para que ocorra um aprendizado adequado o estudante precisa ser engajado ativamente nesse processo. Assim, o estudante necessita ter "muitas e variadas oportunidades para coletar, classificar e catalogar; observar, tomar nota e esboçar; entrevistar, questionar e examinar; usar lentes, termômetros e outros instrumentos comuns. Ele deve dissecar, medir, contar, fazer gráficos; explorar as propriedades químicas das substâncias; plantar e cultivar e observar sistematicamente o comportamento dos seres humanos e outros animais" (ver www.project2061.org/tools/sfaaol/Chap13.htm). Ainda que esses princípios se refiram ao ensino de ciências, eles podem perfeitamente ser aplicados a qualquer outra disciplina.

Essa abordagem se torna possível no novo modelo proposto pois, ao se desonerar o professor da tarefa de simplesmente expor os conteúdos que, através da mídia eletrônica serão apresentados de forma mais rápida e dinâmica, sobra mais tempo para que alunos e professores interajam, discutindo e vivenciando esses temas, no seu contexto local e social.

Com base nesses dois exemplos, pode-se ressaltar alguns aspectos fundamentais desse modelo:

- através de mídia eletrônica é possível transmitir uma quantidade muito maior de informações sobre um determinado assunto, do que numa apresentação tradicional, num mesmo intervalo de tempo.
- os recursos são muito mais amplos, permitindo ao aluno se deslocar no tempo e no espaço, conhecer especialistas e cientistas do mundo todo, ter acesso, através da imagem, a lugares e conhecimentos que de outra forma lhe seriam inacessíveis.
- esse meio de comunicação está mais próximo da realidade atual do aluno e é, deste ponto de vista, mais estimulante.
- permite, de certa forma, um treinamento e reciclagem constante do professor, compensando as deficiências desses profissionais.
- reserva ao professor a parte mais nobre do processo de ensino que é a de conduzir o aluno no sentido dele explorar e entender profundamente esses conteúdos, de observar, inferir e aplicá-los em seu próprio meio, incorporando-os, de fato, como habilidades.
- possibilita melhores condições de trabalho para o professor, que passa a contar com material convencional de qualidade e recursos audiovisuais, bem como com treinamento específico para sua utilização.

Finalmente, esta parece ser a forma mais democrática de garantir a todos o acesso a um conhecimento universal e atualizado, especialmente para aqueles que, por suas condições econômicas e sociais limitadas, não têm meios próprios de obtê-lo.

«As salas de aula da escola estadual onde minha filha estuda são simples, de uma pobreza franciscana. Giz e lousa, nenhum outro recurso, aulas pobres, sem nenhuma criatividade - tudo a moda antiga.
»Mas vem o senhor secretário de Educação e decide dar de presente aos professores R$900 e financiar o restante para a compra de um computador - para uso particular do professor e, pior, para todos os professores, pois o sindicato já acionou a Justiça para conseguir isso.
»Daqui a alguns dias, todos - incluindo os inativos - terão direito à cortesia com o dinheiro do povo.
»Será exatamente como nos cursos de recapacitação: nenhum retorno para o aluno. E são 300 mil professores recebendo R$900 de presente.»

-Lauro da Costa. Folha de São Paulo (11 /10/ 2002). Painel do Leitor.-



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