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La insignia
15 de julho de 2003


Informação pública e seleção de hábitat*


Felipe A. P. L. Costa
La Insignia. Brasil, julho de 2003.



Para todos ou quase todos os seres vivos, o mundo é um lugar heterogêneo, onde a distribuição e a abundância dos recursos (alimento, espaço, parceiros sexuais etc.) raramente seguem algum padrão regular e constante. Ao contrário, a quantidade e a qualidade dos recursos tendem a variar - seja no espaço ("o que tem aqui, falta ali"), seja no tempo ("o que ontem era comum, hoje é raro") -, de modo que a dificuldade em obtê-los não é a mesma em todos os lugares e momentos.

Diversamente das plantas, que respondem às mudanças ambientais ajustando suas características, como número, tamanho e forma das folhas, os animais geralmente podem selecionar os hábitats onde vivem ou para onde vão temporariamente [1], como sítios de nidificação ou de repouso. Seleção de hábitat não é um comportamento restrito a um ou outro grupo zoológico; ao contrário, exemplos de que animais procuram, avaliam e discriminam ativamente hábitats distintos já foram obtidos tanto entre vertebrados (lagartos, aves, roedores etc.) quanto entre invertebrados (moluscos, borboletas, mosquitos etc.).

Será possível selecionar hábitats de modo a aumentar as próprias chances de sobrevivência e de reprodução? Fêmeas grávidas à procura de sítios de nidificação poderiam, por exemplo, concentrar seus esforços e sua atenção em hábitats com atributos particulares?

De acordo com a chamada hipótese da informação pública - "público" em contraste com "pessoal", que é a informação guardada por cada indivíduo -, determinados componentes do sucesso reprodutivo alheio, como o número e o tamanho dos recém-nascidos que estão sendo criados por outros indivíduos da população (co-específicos), podem funcionar como pistas da qualidade de um hábitat. Os indivíduos poderiam então monitorar o desempenho reprodutivo de co-específicos com o objetivo de avaliar diferentes hábitats e, com base nisso, escolher seu próprio sítio para reprodução. Em outras palavras: "aqui é um bom lugar para construir um ninho e criar os filhos; afinal, outros antes de mim decidiram fazer a mesma coisa e, ao que parece, estão sendo bem-sucedidos...".

Embora já houvesse indícios de que alguns animais (vertebrados e invertebrados) selecionassem hábitats para fins reprodutivos (sítios de nidificação, por exemplo) com base em informação pública, até agora as evidências eram de natureza teórica ou descritiva. Faltavam estudos experimentais.

Em agosto de 2002, no entanto, Blandine Doligez, da Universidade de Berna (Suíça), Etienne Danchin e Jean Clobert, ambos do Laboratório de Ecologia da Universidade Pierre e Marie Curie, em Paris, publicaram os resultados de um estudo experimental pioneiro [2]. Esse estudo foi conduzido no campo com o objetivo explícito de avaliar se a informação pública influencia a seleção de hábitat. Mais especificamente, eles monitoraram, ao longo de três anos, em hábitats naturais na Suécia, a escolha de sítios de nidificação por papa-moscas (Ficedula albicollis), aves da família Tyrannidae, a mesma do nosso conhecido bem-te-vi (Pitangus sulphuratus).

Os experimentos conduzidos por Doligez e colegas, a exemplo do que comumente ocorre em trabalhos de campo, pouco exigiram em termos de material ou equipamentos sofisticados. Nesse sentido, os méritos do trabalho residem mais na engenhosidade da metodologia - transferir recém-nascidos entre ninhos de áreas experimentais, elevando, reduzindo ou deixando inalterado o número de filhotes presentes - e na paciência para registrar e comparar os acontecimentos subseqüentes, em particular a imigração e a emigração dos adultos em decorrência das alterações promovidas.

Analisando os resultados, eles constataram que (a) a taxa de imigração foi maior onde o número de filhotes nos ninhos foi deliberadamente elevado; menor onde esse número permaneceu inalterado; e menor ainda nas áreas onde ele foi reduzido; e (b) a taxa de emigração aumentou em todas as áreas onde o número de filhotes foi alterado, tanto para mais quanto para menos, em comparação àquelas onde esse número permaneceu inalterado.

Esses resultados indicam que as aves podem usar diferentes componentes da informação pública em função das circunstâncias. Por exemplo, indivíduos residentes avaliam simultaneamente o número e o tamanho dos filhotes - variáveis inversamente correlacionadas, ou seja, quanto maior o número de filhotes menor será o tamanho deles - antes de tomar uma decisão. Quando uma ou ambas dessas variáveis assumem valores baixos, eles abandonam a área. Os imigrantes, ao contrário, decidem se estabelecer em uma área com base apenas no número de filhotes.

Ao final, ficou claro que a decisão das aves em abandonar um local ou nele se estabelecer foi influenciada pelas alterações experimentais promovidas pelos pesquisadores. Em meio a uma série de implicações práticas e desdobramentos teóricos importantes - em termos, por exemplo, do estudo de processos cognitivos [3] -, os resultados obtidos apontam para a possibilidade de que o uso de informação pública na seleção de hábitat seja mais generalizado do que até então se imaginava.


Notas

(*) Este ensaio integra o livro ECOLOGIA, EVOLUÇÃO & O VALOR DAS PEQUENAS COISAS, recém-publicado pelo autor; versão ligeiramente diferente foi publicada na edição de outubro de 2002 (No. 187) da revista CIÊNCIA HOJE.


1. "Hábitat" e "ambiente" são conceitos distintos e não deveriam ser confundidos. Hábitat é um lugar no espaço, cujas dimensões podem ser estabelecidas em função de interesses arbitrários do observador e independentemente de um referencial biológico particular. Uma poça d'água, uma praia e uma floresta são exemplos de hábitats. Já a definição de ambiente só faz sentido em função de uma ou outra entidade biológica; o ambiente de um indivíduo, por exemplo, é o conjunto de elementos com os quais ele interage (incluindo outros indivíduos de sua própria espécie, inimigos naturais, presas etc.) ou que de algum modo o afetam (elementos físicos, como temperatura e água). Assim, embora centenas de milhares de organismos (co-específicos ou não) possam conviver em um mesmo hábitat geral (um trecho de floresta, por exemplo), cada um deles tem seu próprio ambiente particular.
2. Doligez, B.; Danchin, E. & Clobert, J. 2002. Public information and breeding habitat selection in a wild bird population. Science 297: 1168-1170; para mais detalhes, ver Danchin, E.; Heg, D. & Doligez, E. 2001. Public information and breeding habitat selection. In Clobert, E.; Danchin, E.; Dhondt, A. & Nichols, J. D., orgs., Dispersal. Oxford, Oxford UP; sobre a introdução do termo "informação pública" na literatura ecológica, ver Valone, T. J. 1989. Group foraging, public information, and patch estimation. Oikos 56: 357-363; sobre seleção de hábitat em geral, ver Krebs, J. R. & Davies, N. B. 1996. Introdução à ecologia comportamental. SP, Atheneu.
3. Sobre o assunto, ver, por exemplo, Bonner, J. T. 1983. A evolução da cultura nos animais. RJ, Zahar; Goodall, J. 1991. Uma janela para a vida: 30 anos com os chimpanzés da Tanzânia. RJ, Jorge Zahar; e Masson, J. M. & McCarthy, S. 1998. Quando os elefantes choram: a vida emocional dos animais. SP, Geração Editorial.



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