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| 21 de setembro de 2002 |
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Você já plantou uma árvore?
Marinês Eiterer e Felipe A. P. L. Costa (*)
Direta ou indiretamente, as árvores influenciam a vida de todos nós. De um ponto de vista antropocêntrico, elas fornecem uma infinidade de itens, incluindo alimentos, resinas, óleos essenciais, madeira e material combustível. Folhas, flores, pólen, néctar, frutos e sementes são algumas das partes das árvores que nós utilizamos ou podemos utilizar. Na verdade, mesmo depois de mortos, galhos e folhas secas representam alimento para muitos animais e microorganismos que vivem no solo. Esse, aliás, é um dos motivos pelos quais nunca devemos jogar folhas ou outros restos vegetais no lixo, pois fazendo isso estamos verdadeiramente jogando comida fora, além de desperdiçar nutrientes e micronutrientes importantes para adubar o solo.
Árvores são usadas como dormitório por diversos animais -- aves e borboletas, por exemplo --; para outros, elas fornecem esconderijos temporários ou um local para nidificação. Muitos consumidores sobem até o alto da copa em busca de comida; outros, que não possuem a mesma habilidade, esperam que o "almoço" caia. Alguns animais encontram tudo o que necessitam para viver no alto da copa e, por isso mesmo, nunca precisam descer. Temos a impressão de que a maioria dos habitantes de uma floresta vive nos estratos inferiores, mas isso é uma ilusão: a grande maioria dos animais está lá em cima, no dossel -- por isso, para observá-los ou estudá-los precisamos subir até lá [1]. Os benefícios indiretos que obtemos das árvores são menos evidentes, mas nem por isso menos importantes. Por exemplo, elas reduzem tremendamente o impacto das gotas de chuva, reduzindo as chances de erosão e perda do solo superficial, ao mesmo tempo que permitem que a água infiltre e abasteça o lençol freático subterrâneo. Em muitas cidades brasileiras, o transbordamento de rios assoreados testemunha o que comumente ocorre na época das chuvas quando construtores e administradores esquecem ou ignoram esse tipo de serviço ecológico prestado pelas árvores. A exemplo do que se passa com outras plantas verdes, as folhas das árvores fazem fotossíntese. Nesse processo, elas retiram água e nutrientes do solo, capturam gás carbônico presente no ar atmosférico e absorvem parte da radiação solar incidente. Ao final, elas liberam gás oxigênio e vapor de água para o ar atmosférico. Todo esse ciclo, claro, influencia o clima local e a composição química da atmosfera. A composição química do solo também é afetada pela presença de árvores: quando folhas, flores, frutos ou galhos caem, eles são decompostos e seus constituintes são reincorporados ao solo; mas por pouco tempo, pois logo são reabsorvidos pelas raízes de outras plantas. Quando ouvimos alguém hoje em dia falar em restaurar a vegetação ou a paisagem natural de uma área degradada, devemos ter em mente que não se trata apenas de semear ou cultivar qualquer espécie de planta. Sempre que possível, pesquisas de campo devem ser conduzidas em áreas próximas, onde remanescentes da vegetação original eventualmente se encontrem protegidos; desse modo, poderemos descobrir a identidade das espécies que vivem na região e aprender um pouco mais sobre as suas relações com o meio. Essa base de dados pode ser vital no momento de decidir o que deve ou não ser feito para introduzir com sucesso as mesmas espécies de plantas para a área que queremos restaurar. Por exemplo: como as sementes germinam? Qual a taxa de crescimento das plântulas e quais são as suas exigências básicas (elas suportam insolação direta, frio, seca etc.)? Também é muito importante saber em que momento da sucessão ecológica devemos introduzir plântulas de determinada espécie -- quer dizer, no início, quando a vegetação ainda é rala e baixa e a insolação intensa, ou mais tarde, quando a vegetação torna-se densa e alta e o grau de insolação diminui? Se os indivíduos daquela espécie suportam insolação direta e conseguem crescer em solos pobres e secos, então podemos semeá-los logo no início do processo de restauração. Já as plantas que precisam de locais sombreadas e solos mais ricos e úmidos, deverão ser semeadas mais tarde. A idéia aqui é mimetizar o que ocorre na natureza, onde as espécies vão sucedendo umas às outras: primeiro, aparecem as espécies pioneiras, de crescimento rápido, que logo se estabelecem e "preparam" o local; em seguida, surgem as plantas de crescimento mais lento, que vão gradativamente tomando conta do lugar e substituindo às pioneiras. Construindo uma mini-estufa Agora que aprendemos um pouco mais sobre a vida e a importância das árvores, que tal plantarmos uma? Você pode começar com uma semente grande e fácil de achar no comércio, como o pinhão, que é a semente do pinheiro-brasileiro, pinheiro-do-Paraná ou araucária (Araucaria angustifolia) [2]. O pinheiro-brasileiro é uma árvore encontrada em vários trechos da Floresta Atlântica; mas em certos estados, como no Paraná, ele já dominou a paisagem, quando então formava extensas Florestas de Araucária. Se estiver saudável e em perfeitas condições, o pinhão é uma semente que germina com facilidade e rapidez. Mesmo assim, podemos construir uma mini-estufa para garantir um ambiente ainda mais estimulante para a germinação. Para isso, vamos precisar de uma dessas garrafas plásticas de refrigerante (dois litros), uma tesoura e um substrato, que pode ser formado por uma mistura de partes iguais de terra-vegetal e areia, onde a semente será depositada. Primeiro, corte a garrafa ao meio, no sentido transversal. Preencha o fundo com um palmo de substrato; molhe-o, mas sem encharcar. Coloque o pinhão deitado, afundando-o levemente na terra. Volte com a parte superior da garrafa, encaixando-a sobre o fundo; tampe-a. Coloque a garrafa em um local que receba luz indireta, como debaixo de uma árvore. Pronto, agora é só aguardar uns poucos dias para testemunhar a germinação do pinhão e o surgimento de um novo pinheiro. O crescimento da plântula é relativamente lento, mas quando for transferi-la para o solo, prefira um local onde haja espaço suficiente para o seu pleno desenvolvimento, afinal trata-se de uma árvore de grande porte, que pode atingir até 50 metros de altura. Evite, portanto, transferi-la para locais próximos a edificações. Guarde a sua mini-estufa; você poderá usá-la no futuro para estimular a germinação de sementes das espécies de árvores mais comuns e mais adequadas à sua região. Lembre-se: quando as plântulas assim produzidas atingirem um tamanho mínimo adequado, elas poderão ser levadas para um local que esteja necessitando dos serviços de uma árvore. (*) Marinês Eiterer é professora da rede pública municipal de Juiz de Fora (MG); Felipe A. P. L. Costa é biólogo. Esse artigo é uma homenagem ao Dia da Árvore (21 de setembro), que no Brasil foi comemorado pela primeira vez há exatamente 100 anos (1902). Notas [1] Perry, D. 1991. A vida na copa da floresta. SP, Interação. [2] Para detalhes sobre o pinheiro-brasileiro (identificação, área de distribuição, usos etc.), ver Dean, W. 1996. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. SP, Companhia das Letras; Lorenzi, H. 1998. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil, Vol. 1, 2a. edição. Nova Odessa, Plantarum; e Marchiori, J. N. C. 1996. Dendrologia das gimnospermas. Santa Maria, Editora da UFSM. |
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