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| 27 de setembro de 2002 |
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Brasil: Guerra Farroupilha: História e mito Revoltas farroupilhas no Brasil e no RS
Mário Maestri (*)
As limitadas concessões regenciais às reivindicações federalistas e liberais lançaram o Império em grave crise. A negativa da Regência de conceder a monarquia ou a república federativa quase pôs fim à unidade brasileira.
Um rosário de movimentos liberais federalistas e separatista convulsionou a Regência e o início do II Império: Ceará (1831-2); Pernambuco (1831-5); Minas Gerais (1833-5); Bahia (1837-8); Grão Pará (1835-40), Maranhão (1838-41); Rio Grande do Sul (1835-45). Possivelmente, o centralismo imperial teria sido vergado se cabanos, balaios, sabinos, praieiros, sul-riograndense etc. tivessem coordenado suas lutas. Isolados, os movimentos farroupilhas regionais foram esmagados, sucessivamente, um após o outro. Liberais radicais É um acaso que apenas os farroupilhas sulinos sejam conhecidos pela denominação comum a todos os liberais radicais da época. É erro deduzir romanticamente o termo farroupilha/farrapo dos uniformes em frangualhos dos últimos combatentes sulinos. Os movimentos liberais regenciais foram impusionados pelas elites dissidentes regionais. No Maranhão (Balaiada) e no Grão-Pará (Cabanagem), as revoltas assumiram caráter social com o ingresso na pugna de pobres, caboclos, cativos, etc. O que levou as elites a abandonarem a luta. Os liberais sulinos reivindicavam a autonomia federativa, e, a seguir, a república separatista. O movimento farrapo interpretou as reivindicações dos criadores do meridião, então hegemônicos. A longevidade da revolta deveu-se ao fato das elites manterem as classes subalternas à margem do movimento. Em geral, os comerciantes, a população urbana, os colonos alemães, etc. optaram pelo Império, levando a que os farrapos perdessem o controle das grandes cidades e do litoral. Porto Alegre resistiu por três vezes ao cerco farroupilha. A questão oculta Em 1835, os farroupilhas controlaram quase toda a província. Em 1845, encontravam-se arrinconados nos pampas da fronteira. Isso também se deveu à defecção dos grandes comerciantes e charqueadores escravistas, temerosos que a vitória do movimento separatista comprometesse o tráfico de cativos. Os farroupilhas jamais foram revolucionários. Insiste-se sobre o pretenso caráter social do movimento sobretudo porque boa parte das tropas farrapas foram formadas por peões e ex-cativos. Os senhores farroupilhas e imperialistas preferiam que outros morressem por seus ideais. Muito logo, as tropas farroupilhas e centralistas formaram-se com contingentes de peões e cativos libertos. Quando da guerra, boa parte dos gaúchos livres eram descendentes de guaranis e pampeanos despossuídos das terras ancestrais. Eles acompanhavam os fazendeiros nos combates, como faziam-no nas lides dos campos. Churrasco e saque Não foi o ideal liberal-republicano que levou o gaúcho à guerra. Quando os caudilhos trocavam de lado, os peões faziam o mesmo. Bento Manuel mudou de bandeira diversas vezes, sempre seguido por sua gente. Para o gaúcho, o ideário farroupilha significava sobretudo soldo, churrasco e saque. Quando chamado às armas, o homem livre podia substituir-se. Em geral, alforriava um cativo para substituí-lo. Arrolavam-se nas tropas republicanas cativos dos inimigos da República e compravam-se escravos dos amos farrapos para preencher os vazios das tropas. Os negros que combateram faziam-no obrigados, por preferirem a vida militar à escravidão, por sonharem com liberdade após a luta, jamais obtida. Não houve democracia racial nas tropas farrapas. Negros e brancos marchavam, comiam, dormiam e morriam separados. Os oficiais dos combatentes negros eram brancos. A Constituição farroupilha dizia: "A República do Rio Grande é a associação política de todos os cidadãos rio-grandenses". Ou seja, dos "homens livres nascidos no território da República". A República erguia-se sobre a mesma pedra angular do Império: o latifúndio e a escravatura. A indiada e o cativo não seriam cidadãos. República dos senhores Os principais chefes farrapos eram ferrenhos escravistas. Ao ser enviado preso para a Corte, Bento Gonçalves da Silva levou consigo negro úm doméstico, para servi-lo. Ao morrer, legou terras, gado e meia centena de homens negros. Os farroupilhas jamais acenaram com a distribuição de terras, aos gaúchos, e com o fim do cativeiro, aos cativos, como fizera Artigas. Sequer propuseram o fim do tráfico. A revolta era das elites, para as elites. Para abater as armas, os farrapos exigiram que o Império respeitasse a liberdade dos soldados negros. Temiam que se formasse guerrilha negra na província, ou que os combatentes negros homiziassem-se no Uruguai, caso temessem a reescravização. A infâmia de Porongos Na madrugada de 14 de novembro de 1844, o general farrapo David Canabarro, combinado com Caxias, entregou os farrapos negros desarmados aos inimigos. No serro de Porongos, foi dizimada a infantaria negra, acelerando a paz entre os amos farroupilhas e imperialistas. A rendição de Poncho Verde foi acordo entre senhores. Não havia contradições essenciais entre os chefes imperialistas e farroupilhas. O Império não manteria o controle do Sul sem a colaboração dos criadores. Logo, os ex-farrapos marchariam sob bandeira imperial contra o Uruguai e a Argentina. (*) Mário Maestri é professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. |
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