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| 2 de outubro de 2002 |
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Brasil: Guerra Farroupilha: História e mito O MTG contra o Capitão Gay
Mário Maestri (*)
O turista mostra apreensivo na alfândega italiana a mala com o valioso cálice etrusco comprado a peso de ouro ao arqueólogo furtivo. Displicente, o policial pouca atenção dá à peça contrafeita rusticamente que repousará sobre centenas de lareiras de incautos e orgulhosos compradores norte-americanos.
O Movimento Tradicionalista Gaúcho não busca no passado valores originais que iluminem o presente. Simplesmente apresenta como bens pretéritos visões do presente avelhentadas rusticamente para parecerem desterradas do tempo. Em Nativismo: um fenômeno social gaúcho, Barbosa Lessa confessou com honestidade como o tradicionalismo procedeu, não raro na "votação", a "invenção das tradições" gaúchas. "Quando algum elemento faltasse para a nossa ação, nós teríamos de suprir a lacuna de um jeito ou outro." Criado por filhos de fazendeiros, o MTG leu o passado com os olhos do latifúndio moderno. Suas interpretações romantizadas da sociedade pastoril-latifundiária monopolizaram o passado, esterilizando a real, rica e contraditória história sul-rio-grandense. A alegoria do latifúndio feliz dissolveu a diversidade e a contradição do passado. Ela negou espaço histórico ao nativo sulino e ao missioneiro e suas lutas pela defesa da terra ancestral; ao peão pobre e ao gaúcho vago e quareiro, na sua oposição ao criador; trabalhador escravizado, fujão, quilombola e justiceiro. Diversidade e contradição O tradicionalismo desconheceu a rica e dolorosa trajetória histórica da mulher. A sua pretensa doce submissão ao marido, no passado, teatralizada na submissão da prenda do CTG ao peão e ao patrão, no presente, apresenta imagem idealizada da fazendeira como sinônimo de toda mulher sulina. Na sociedade patoril-latifundiária, o trabalho era monopólio do pobre e do cativo. O ato produtivo transformador da natureza era signo de inferioridade. Nesse universo mandonista, os fazendeiros sobreviviam impondo-se pela violência aos subalternizados. A coragem era a qualidade paradigmática senhorial. O gaúcho-fazendeiro devia ser macho, pouco importando sua disposição ao trabalho. Personagem-síntese do gaúcho em O continente, de Érico Veríssimo, o capitão Rodrigo era femeeiro e pouco amigo do trabalho, mas brilhava pela sua macheza. O grande signo da sociedade pastoril não foi a enxada, mas o rebenque. Com ele, o fazendeiro domesticava o animal bravio e, protegido pelo capataz, chegava-se às costas do cativo desobediente e ao rosto do peão impertinente, em castigo físico degradante. Nas cavalgadas urbanas, tradicionalistas expõem valiosos rebenques de cabos de prata. Nos gestos, falas e canções, os tradicionalistas cultuam a imagem mítica do gaúcho-fazendeiro que defendia seus latifúndios, impondo-se despótico as suas mulheres, peões, cativos e lindeiros. Reconstrução funcional em momento em que milhares de miseráveis lutam por um pedaço de terra para trabalhar. Surge o Capitão Gay Sem maior sucesso, o movimento gay brasileiro tem lançado candidatos a cargos legislativos. Procurando a exposição à mídia, imprescindível ao sucesso eleitoral, candidato gay ao legislativo sulino por partido conservador, já derrotado como candidato a vereador em Pelotas, assumiu a personagem do Capitão Gay, em referência aos personagens do humorista Jô Soares e do ficcionista Érico Veríssimo. A transfiguração possuía múltiplas mensagens e reivindicações, implícitas e explícitas, conscientes e inconscientes. Entre elas, o direito do homossexual masculino de participar de pleno direito do MTG e a proposta de que a destemerosidade pessoal é também qualidade do gay. Idéia que é um quase truísmo. E se alguém dela duvida, que vá separar uma dessas desesperadas disputas urbanas de travestis, à navalha, por um pedaço de calçada. O Capitão Gay trazia também à discussão tabu da história sulina. Ou seja, a sexualidade do peão, trabalhador pastoril do passado eternamente solteiro, devido à negativa do fazendeiro de ceder naco de terra para arranchar-se com sua china. Em geral, na fazenda, fora o patrão, apenas o capataz casava e procriava, garantindo a débil expansão demográfica pastoril. Reduzido ao celibato, vivendo em latifúndios onde escasseavam as mulheres, o gaúcho concretizou os impulsos erótico-sexuais como pôde. Em geral, se reconhece seus hábitos bestialistas, mantendo-se entretanto silêncio sobre suas relações homoeróticas, finamente abordadas no conto A intrusa, de Jorge Luis Borges que inspirou a sensível obra cinematográfica homônima de Carlos Christensen [1979]. Gaúcho desinteressado O francês Nicolau Dreys viveu no Sul em 1817-27. Em relato, anotou que o gaúcho não tinha "mulheres", mostrando por elas "pouca atração" [sic]. Pesquisas históricas demonstrarão certamente que o gaúcho destemido do passado podia eventualmente ser um gay, por natureza ou necessidade. Em Porto Alegre, durante o desfile de 20 de Setembro, ao desfraldar a bandeira arco-íris do movimento homossexual, diante do palanque oficial, o Capitão Gay foi perseguido e surrado a rebenque, como anunciado, por cavalarianos tradicionalistas. Em 7 de setembro, já fora impedido de entrar no mega-acampamento ruralista, promovido anualmente em parque público municipal. Em uma metáfora histórica, os regionalistas perseguiram e golpearam, matreiramente, em grupo, um tradicionalista que ousou enunciar, isolado, sua diversidade, ao igual que os fazendeiros surravam à relho, no passado, protegidos pelos prepostos, o peão e o cativo alçado. A violência do presente espelha-se e inspira-se no barbarismo do passado. Até agora, o cidadão ofendido, em especial, e a população sul-rio-grandense, em geral, não conheceu a devida reparação mínima através da expulsão pública e notória pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho de seus associados siderados pelo ódio homofóbico. (*) Mário Maestri é professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. |
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