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La insignia
22 de setembro de 2001


Ataque aos EUA

Trombetas da guerra e da paz


Luís Carlos Lopes



La insignia


Especial

Ataque a
Estados Unidos

 

No momento que este artigo está sendo escrito soam apenas as trombetas de mais uma nova guerra. Talvez quando estiver sendo lido, fatos podem tê-lo tornado sem sentido. Segundo um dos protagonistas desse novo conflito, este seria a "primeira guerra mundial do século XXI". Os discursos, batizados pelo sangue de Nova York, Israel, Palestina e Bagdá esbanjam a retórica do horror.

Mesmo que a hipótese de uma nova guerra mundial seja improvável; tudo leva a crer que o sangue continuará a verter na sanha assassina de um mundo que aprendeu com o seu passado que a forma mais cruel da política - a guerra - continua sendo útil e válida, mesmo sem inimigos claramente visíveis ou contendores a quem se possa declarar oficialmente o pior dos males.

Não importam mais conceitos como o da dissuasão nuclear e o do desarmamento geral. A guerra fria acabou. Sobraram seus episódios quentes e as várias modalidades de conflitos civis que jamais desapareceram e continuam a se agravar. Isto porque suas razões permanecem bastante atuais.

É recente a força da violência das imagens factuais e ficcionais, trazidas pelos meios de comunicação, transcendendo do real simbólico para o real material e vice-versa, em um jogo onde nem sempre é fácil perceber onde começa um e acaba o outro.

Na verdade o sangue dos mortos nos conflitos políticos do Oriente Médio, África, ex-União Soviética e América Latina tem a mesma cor dos que morreram nos atentados de Oklahoma e Nova York. Nas veias das milhares de vítimas em acidentes viários em todo o planeta e dos milhares que morrem na violência urbana comum e política formalizada em assaltos, ação de grupos de extermínio, blitzkrieg em regiões rurais, favelas e bairros corria o mesmo líquido da vida. Ele também está presente nos mortos da fome e das doenças, nas vítimas silenciosas - quase sempre - das misérias absolutas e relativas que assolam o nosso planeta. Corre, simbolicamente, no desespero da ignorância e da incapacidade de solucionar problemas.

Já se disse que os signos da dita pós-modernidade são os mesmos da chamada modernidade. Isto significaria que, apesar de vivermos em mundo diverso, a referência ainda é o passado violento do século XX. Os mortos continuam a vigiar nossos sonhos e vidas, parecendo zumbis que assombram os que querem a paz ou a guerra.

Neste conflito que se anuncia, e que de fato já havia começado muito antes, o fator simbólico foi elevado a sua categoria máxima. Em todos os conflitos, tais como um assalto, ataque militar, batalha ou atentado, há sempre aspectos simbólicos a serem considerados. A explosão das duas bombas atômicas em 1945 valeu muito mais pelo seu simbolismo do que por seu efeito prático-militar. O que ocorreu agora nos EUA será lembrado pelo efeito simbólico-midiático instantâneo provocado em escala planetária.

Os milhões de mortos nos campos de concentração - genocídio de judeus, ciganos, homossexuais, prisioneiros políticos e de guerra - e nos campos de batalha foram resultados devastadores da II Guerra. Esta provou que os horrores da I Guerra poderiam ser superados. Em Hiroxima e Nagasaqui morreram muito mais civis do que em Nova York e Washington.

Milhões foram violentamente abatidos nos conflitos de grande e de pequena monta no contexto da guerra fria. As guerras da Coréia, do Vietnã e os custos humanos de inúmeras guerras civis, golpes e repressões de Estado na Europa, Ásia, África e América Latina não nos deixam esquecer. Estes fatos e horrores foram sabidos pouco a pouco. Diferentemente de hoje, onde quase tudo se sabe em real time. Antes não havia TV por satélite, Internet e outras tecnologias da informação. Nos episódios recentes da ex-Iugoslávia e da guerra do Golfo, apesar do cerceamento da imprensa, pode-se saber de fatos, quase ao mesmo tempo de suas ocorrências. É verdade que o sabido é sempre uma construção produzida por quem tem poder e lida de acordo com o sistema próprio de valores dos seus consumidores.

A contabilidade dos mortos e a crueza de cada evento normalmente são tratadas como coisas essenciais. O somatório geral dos pequenos e grandes eventos geram os números das catástrofes que são veiculadas pelas mídias de acordo com os interesses e fontes de poder em jogo.

É provável que, neste conflito que se anuncia, digladiar-se-ão algumas nações ricas e outras das mais pobres da face da terra. Talvez isto tenha um significado especial: não há só um modo de viver e morrer. Não há estilo de vida que sirva para todos. Deve-se poder escolher. Por isso, o segredo da paz seria o respeito das diferenças étnico-culturais, na formação do mosaico das civilizações, todas, em maior ou menor grau, responsáveis pelos ideais de progresso e barbárie materiais e simbólicas que nos cercam. As diferenças devem ser resolvidas pelo diálogo, o que não implica em aceitar a priori procedimentos que atentem contra a dignidade dos homens e das mulheres.

A ação direta de pequenos grupos que se pretendem como representantes de uma só verdade, assim como o racismo e a política de força de qualquer natureza dos grandes Estados sobre os menores devem ou deveriam ser compreendidas e abominadas. Sem entendimento mútuo, só restará a guerra, a barbárie e a impossibilidade de se alcançar a paz entre os povos. É preciso, portanto, repetir isto à exaustão, mesmo que paz ainda seja uma quimera e a barbárie esteja na ordem-do-dia.



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