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La insignia
21 de setembro de 2001


Ataque aos EUA

A deriva mortal da razão capitalista


Robert Kurz
Excertos / tradução de José Paulo Vaz


La insignia


Especial

Ataque a
Estados Unidos

 

As grandes e simbólicas catástrofes foram sempre, na História da Humanidade, a oportunidade para uma tomada de consciência - contra a qual os poderosos deste mundo dirigem a sua "hibris"*- de reflexão das sociedades sobre si próprias e de cohecimento dos seus próprios limites. Mas nada de semelhante se pode observar nas sociedades capitalistas depois do ataque Kamikaze contra o centro nevrálgico dos Estados Unidos. É como se o bárbaro ataque saído do escuro da irracionalidade não apenas tenha arrasado o World Trade Center, mas também a última réstia de capacidade de juízo da opinião pública dos países democráticos.

....Hoje já não existem, na verdade, espaços orientais exóticos que possam ser vistos como estranhos e conceber-se como exterirores. Tudo o que hoje acontece no mundo é, directa ou indirectamente, um produto do sistema mundial unificado. O "one world" do capital é o prório seio que alimenta o mega-terror.

O que se passa na cabeça dos chefes terroristas não é, pela sua natureza, mais bizarro do que o modo como os gestores chefes da economia de mercado global tratam os seres humanos e a natureza sob os imperativos do cálculo enconómico empresarial. O terror religioso ataca tão irracionalmente e sem sentido como "a mão invisível" da concorrência anónima, sob cuja ditadura morrem de fome continuamente milhões de crianças - para dar apenas um exemplo que perante o culto da perplexidade prestado às vítimas de Manhattan, surge a uma rara luz.

Ambos os lados pertencem na mesma medida à "Razão instrumental". Pois em ambos os lados emerge aquilo que no Moby Dick de Melville, essa grande parábola sobre a Modernidade, o inquietante capitão Ahab disse: "todos os meus meios são racionais, apenas o meu objectivo é uma loucura". A economia do terror corresponde, como num espelho, ao terror da economia.

Que esta deriva assassina é inerente ao modo de ser ocidental e é desencadeada não apenas pelo desespero social, mas pelo desespero espiritual do sistema de mercado totalitário, é o que provam os periódicos "amoks" de crianças da classe média nas escolas dos Estados Unidos e o atentado de Oklahoma, que é reconhecidamente um produto autêntico da loucura interna dos Estados Unidos da América.

Porque o núcleo irracional da sua ideologia corresponde como irmã gémea ao fundamentalismo islâmico é que o capitalismo pode convocar à cruzada, à "guerra santa" da civilização ocidental. Apenas estas vítimas, as vedetas das colunas sociais da América, os "brokers" de Manhattan e os cidadãos da liberdade ocidental, podem aparecer como vítimas reais e ser chorados nos serviços religiosos. A morte de civis iraquianos e de crianças sérvias, desfeitos por bombas lançadas de dez quilómetros de altura, porque a pele muito cara dos pilotos norte-americanos não pode ser arranhada, pelo contrário, não aparece como de vítimas humanas, mas tão só como "danos laterais". Nem perante a morte se detém o apartheid global."


* Do Grego ´'Ubris, que quer dizer orgulho, insolência (designadamente dos poderosos, nas tragédias gregas).



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