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La insignia
4 de outubro de 2001


Ataque aos EUA

O mal, James Bond e o Tio Sam


Rui Bebiano
Non!. Portugal, 3 de outubro.



La insignia


Especial

Ataque a
Estados Unidos

 

Todos os heróis precisam de um inimigo para fazer valer o seu heroísmo. Jean Valjean tem Javert (polícia "mau" na pena "boa" de Hugo), Sherlock Holmes conta com o Professor Moriarty, Popeye defronta Brutus, Batman combate o Joker, James Bond mostra do que é capaz perseguindo o arqui-malfeitor – e terrorista polaco – Ernst Stavro Blofeld. A ficção desenha uma representação da vida: o supremo bem apenas se afirma verdadeiramente diante do mal extremo e obstinado. A divisão dualista do universo, pregada no século III pelo persa Mani, preenche o nosso imaginário mesmo quando desconhecemos os seus fundamentos, pois é essa a forma mais simples de explicarmos o mundo e de nele nos movermos. Bom ou mau, preto ou branco. A complexidade é difícil, dizia-me uma vez alguém. Pois é. Por isso a maioria das pessoas segue a via mais fácil, transformando os semelhantes que mais os afectam em excelências inequívocas ou em declarados vermes, em sujeitos formidáveis ou valentíssimos canalhas. Não existe meio-termo, pois entender o híbrido, aceitá-lo tal qual ele é, e, pior, dialogar com ele, demora e requer paciência.

Nos dias que se seguiram ao 11 de Setembro, passou a falar-se com insistência, nos meios de comunicação ocidentais, da inevitabilidade de um embate entre civilizações. Um mundo muçulmano, maléfico e bestial, estaria em rota de colisão com uma humanidade amável e cordata, de origem cristã e judaica, ou, por enquanto, também hindu ou budista. Em muitas consciências, e tanto quanto o medo da violência extrema e indiscriminada da qual acabámos de ter pavorosa amostra, parece ser a intolerância atávica diante do outro islâmico, seguidor do deus errado, ímpio e recalcitrante na sua impiedade, que antecipa esse confronto. A matriz genética, que remonta à época das Cruzadas – as do Ocidente e as do Oriente – e os longos séculos durante os quais a Europa tremeu diante da ameaça otomana, acendem a pequena chama que inflama as baterias, transformando muitos de nós em andróides violentos, robocops clonados de Pedro o Ermita, Godofredo de Bulhão ou Tomás de Torquemada.

Existe, claro, quem – do lado oposto a este exército de fanfarrões que, de casa para o trabalho, se imaginam membros de forças especiais – apregoe que a identidade do bem se sobreporá inevitavelmente às diferenças culturais. Que paira no ar um qualquer super-ego global capaz de fazer valer os princípios da paz e da fraternidade entre pessoas de diferentes credos e raças. Que se podem encontrar normas e valores, comuns a todos os humanos, que as maiorias acabarão algum dia por aceitar. Mas, na verdade, até mesmo estes partidários do diálogo em todas as circunstâncias parecem, neste momento, duvidar de si próprios. Balbuciam generalidades sem saberem muito bem o que dizer hoje e, menos ainda, que coisa fazer amanhã. A culpa do terror, desse "mal absoluto" que, mil vezes repetido, se mostrou em forma de bolas de fogo e de poeira nos monitores das televisões, será do demónio, da ignorância, da exploração capitalista, do imperialismo ianque, da mundialização. E pronto. Os instrumentos fanáticos desse ódio não seriam então, bem no fundo, mais do que marionetas perversas, fabricadas pelos poderes maiores que, saídos do abismo, nos perseguem. Destruídos e isolados estes, uma república de paz e justiça governaria a Terra, reunindo amorosamente, como no paraíso, uma humanidade una e equilibrada.

Porém, a realidade mostra que à margem destas leituras simplistas, pacificadoras de almas influenciáveis e de intelectos cansados, em alguns casos capazes de mobilizar orações veementes ou manifestações de massas, o perigo de um efectivo enfrentamento de concepções antagónicas do mundo existe, e não pode ser combatido de modo abstracto. Com mais algumas declarações de princípios e afirmações vagas a favor da docilidade, do diálogo, da concertação. Com tratados que muitos queimarão e leis benévolas que, apenas por si, jamais se mostrarão eficazes. Passará por um combate diário em trincheiras menores mas muito mais próximas de nós. Anoto duas.

A primeira é aquela que, dentro de cada uma dessas identidades culturais, se revela no antagonismo entre os partidários de uma visão complexa, justa e tolerante do mundo, e aqueles outros que, escorados na ignorância, na intolerância, no fanatismo, preferem, e acima de tudo pretendem impor, uma leitura simplista e monolítica, assente no esmagamento da liberdade individual, na fé cega em deuses ou doutrinas, e em poderes absolutamente tirânicos. Existe gente desta em toda a parte, mas o imenso universo islâmico de muitas centenas de milhões de almas contém uma dose notável e poderosa, que a própria história gerou.

O islamismo nasceu, desenvolveu-se e mantém-se, em boa parte das suas variantes e vivências, como religião de conquista e de guerra, ou, pelo menos, de austeridade e submissão. Não de placitude, de igualdade e, muito menos, de livre-arbítrio, como, sobrevalorizando as excepções e a etimologia das palavras, por vezes se afirma. Para além dos textos corânicos – vagos e contraditórios, como todos os textos sagrados – é a afirmação política do Islão que alimenta essa tradição de violência. Daí que a maioria daqueles que hoje lhe dão voz mantenha, apoiada em multidões violentamente reduzidas à miséria, à ignorância e à semi-escravidão, agressivas políticas de terror, que não só abominam a liberdade como crucificam aqueles que, nessas regiões, desta alguma vez pretendem ter um vislumbre. Será que, por estes dias de estupefacção, ninguém se lembra mais do que tem acontecido, por todo o universo islâmico, a pessoas que apenas cometeram o "crime" de defender a liberdade de criação, como Naguib Mafouz, Salman Rushdie, Taslima Nasreen e tantos milhares de escritores e intelectuais? Ninguém aponta o indicador ao regime de trevas imposto, de uma forma quase tão violenta quanto no Afeganistão, pela predadora dinastia saudita e outras ditaduras da região? Ninguém se indigna com os constantes ataques de praticamente todos os governos islâmicos à estação de televisão Al-Jazira, sediada no Qatar e, via satélite, raro farol de independência informativa dentro do mundo árabe? Exemplos desta natureza podem preencher páginas atrás de páginas, como mostram as notícias divulgadas pelos Repórteres Sem Fronteiras (www.rsf.fr/esp/home.html) e os relatórios da Amnistia Internacional (www.amnesty.org).

A outra trincheira é aquela que define o combate a travar contra a cegueira de quantos, no seu labor para transformarem o complexo no simples, identificam, em exclusivo, e tal como nos tempos da guerra-fria, a política externa americana com a fonte satânica de todos os males da humanidade. Desviando o nosso olhar da barbárie com outras origens que nos cerca e dos perigos que ela comporta. Espetando agulhas no Tio Sam de cinco em cinco minutos, mas "compreendendo", apesar de lhes condenar os exageros apocalípticos, os ferozes inimigos da liberdade que andam por aí à solta a matar pessoas. Sobrevalorizando as contradições económicas e políticas em detrimento das divergências culturais – que, como indicam as cartilhas, menosprezam – e acabando, desta maneira, por desarmar a cidadania perante um fenómeno relativamente novo e diferente.

É destes sectores de opinião que provém este rol de litanias ultra-pacifistas que se manifesta agora contra o isolamento armado e uma punição exemplar e prioritária, embora imperativamente criteriosa, dos terroristas. Que chegam os gritos de guerra, anacrónicos no contexto, sobretudo contra o sistema que Washington simboliza, minimizando aqueles que, literalmente a ferro e fogo, acima de tudo odeiam o nosso mundo plural e o querem calar e submeter. A propósito da actual situação, escreveu há meia dúzia de dias Miguel Urbano Rodrigues: "O som dos tambores de guerra accionados pelo sistema de poder dos EUA gera atitudes de medo." Como se a eventual resposta americana – que, evidentemente, contém inúmeros perigos e devemos vigiar, mas é apoiada pela generalidade dos governos mundiais e pela própria ONU – fosse um milhão de vezes mais temível do que o sanguinário e indiscriminado cerco terrorista. Que não é propriamente produzido por "incertos", como afirmou Fernando Rosas – nesse mesmo artigo do Público no qual considera a eventual acção dos Estados Unidos "não só inútil operacionalmente, como moralmente injusta" – mas por organizações que têm os seus líderes, os seus financiamentos, os seus campos de treino, os seus circuitos, os seus apoios políticos e as suas fontes de armamento pelo menos parcialmente identificados.

Estas duas frentes exigem a negação do carácter absoluto do conflito entre o bem e o mal, obrigando-nos a contornar a cegueira maniqueia. Essa incapacidade que muitos de nós continua a ostentar para entender a existência de expressões múltiplas e diferenciadas do "bem" e do "mal". Para perceber que, no esforço em prol da destruição das fontes que alimentam este último e da criação de uma nova ordem mundial, é preciso definir a todo o momento uma política de prioridades e de alianças, assente também no reconhecimento daquele que é o pior dos "males". E, neste momento, este é o assomar de uma tentativa de regressão da história e de transformação do planeta, tal como aconteceu em Nairobi, Bamiyan ou Manhattan, num território negro, infernal, de escombros, ignorância e miséria.

Isaiah Berlin escreveu certa vez que a diferença entre uma "pessoa civilizada" e um "bárbaro" – não vamos agora debater os conceitos... – é que a primeira consegue bater-se por coisas nas quais não acredita inteiramente. É este um dos elementos de grandeza da cultura ocidental e do seu legado ao mundo, alcançado após séculos de prolongados combates e sacrifícios inumeráveis: a aceitação da dúvida e da diferença, a valorização do bem-estar terreno e do princípio do prazer, a legitimidade de todas as formas de criação e de conhecimento, o reconhecimento do carácter inalienável dos direitos humanos, a naturalidade da constante reinvenção das utopias, a vida como deriva enquanto forma superior de felicidade. Daqueles outros, que nos querem fazer regressar à idade média, a certezas impostas pela força das armas, à ameaça permanente da forca ou da degola, à servidão da ignorância, da mordaça ou da burka, precisamos defender-nos. Não apenas com belas palavras, mas com atitudes. Não com eternas chamadas ao diálogo com quem se ri com todos os dentes do próprio conceito de diálogo e de facto pretende um "choque de civilizações", mas com determinação. Sem o apelo a uma guerra indiscriminada contra outras culturas – com as quais, felizmente, cada vez mais convivemos e nos mesclamos – mas, ao mesmo tempo que construímos todas as pontes possíveis, combatendo sem preconceitos pela defesa daquilo que a nossa velha casa comum tem de melhor e deve partilhar. E apoiando, como raras vezes temos feito, aqueles heróis de carne e osso, mulheres e homens em permanente risco de vida, que no próprio coração das trevas contra elas corajosamente se levantam.

Ainda que isso nos obrigue a complicar os nossos raciocínios e a reordenar, ou a diversificar, as fontes do bem e do mal. No seu último filme (Bond 20, de 2001), até o agente 007 precisou fazê-lo.



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